Educação: Tendências e Desafios no Século XXI

  

Antonio Carlos Gomes da Costa

 


Juventude e Educação

Os Códigos da Modernidade


 

JUVENTUDE E EDUCAÇÃO

 

Vamos, agora, com base no panorama legal brasileiro e na visão internacional, procurar responder às indagações acerca dos conceitos de homem e de mundo, como concepções sustentadoras da prática pedagógica.

Que tipo de homem queremos formar?

Durante essa era dos extremos, que foi o século XX, o mundo capitalista pautou-se por um ideal de homem muito autônomo, porém, pouco solidário, enquanto os países socialistas cultivaram um homem compulsoriamente solidário e muito pouco autônomo.

O desafio de construir um novo horizonte antropológico para a educação tem levado muitos educadores a se voltarem para a formação do homem autônomo e solidário, aproveitando, assim, o melhor dos dois mundos: os ideais de liberdade do Ocidente e os ideais de solidariedade que inspiraram o mundo socialista.

E quanto à sociedade? Que tipo de sociedade devemos lutar por construir?

No Brasil, essa questão já está respondida no artigo 3º da nossa Constituição Federal:

"Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II - garantir o desenvolvimento nacional;

III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação".

Como fazer isso?

Essa pergunta nos remete ao próprio conceito da educação. Se queremos transmitir valores às novas gerações, não devemos nos limitar à dimensão dos conteúdos intelectuais, transmitidos através da docência. Devemos ir além. Os valores devem ser, mais do que transmitidos, vividos, através de práticas educativas e no curso dos acontecimentos. Como educadores, precisamos nos fazer presentes na vida dos educandos, de forma construtiva, emancipadora e solidária.

Educar, de acordo com a visão aqui defendida, é criar espaços para que o educando possa empreender ele próprio a construção do seu ser, ou seja, a realização de suas potencialidades em termos pessoais e sociais.

O educando, no interior dessa visão, passa a ser, não um recipiente passivo, mas uma fonte autêntica de iniciativa, compromisso e liberdade:

A adoção destas concepções de educando nos leva, necessariamente, à formação do jovem autônomo, solidário e competente.

A palavra "competência", aqui, não está empregada em seu sentido corriqueiro. Trata-se, efetivamente, de uma acepção mais ampla. Estamos falando de competência no sentido expresso no Relatório Educação, um tesouro a descobrir, que Jacques Delors, coordenando um grupo de quatorze grandes educadores -- a Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI --, produziu para a UNESCO.

Esse Relatório sustenta que a educação no século XXI deverá ser cada vez mais pluridimensional. Seu título foi inspirado numa fábula de La Fontaine - O Lavrador e os Filhos - ou, mais precisamente, no seguinte trecho:

“Evitai, disse o lavrador, vender a herança (a terra)
Que de nossos pais nos veio
Esconde um tesouro em seu seio.”

Jacques Delors, no entanto, traindo um pouco o poeta, que pretendia fazer o elogio ao trabalho, põe na sua boca as seguintes palavras:

“Mas, ao morrer, o sábio pai
Fez-lhe esta confissão:
- O tesouro está na educação.”

No limiar da civilização cognitiva na qual estamos adentrando, a educação deverá fornecer ao homem “a cartografia de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permita navegar através dele.”

Mais do que acumular uma carga cada vez mais pesada de conhecimentos, o importante agora é estar apto para aproveitar, do começo ao fim da vida, as oportunidades de aprofundar e enriquecer esses primeiros conhecimentos num mundo em permanente e acelerada mudança.

Para dar conta da missão que os tempos lhe impõem, a educação deve ser capaz de organizar-se em torno de quatro grandes eixos:

Preparar-se para agir com autonomia, solidariedade e responsabilidade. Descobrir-se, reconhecendo suas forças e seus limites e buscando superá-los. Desenvolver a auto-estima, o autoconceito, gerando autoconfiança e autodeterminação. Construir um projeto de vida que leve em conta o bem-estar pessoal e da comunidade.

Ter a capacidade de comunicar-se, interagir, não agredit, decidir em grupo, cuidar de si, do outro e do lugar em que se vive, valorizar o saber social. Compreender o outro e a interdependência entre todos os seres humanos. Participar e cooperar. Valorizar as diferenças, gerir conflitos e manter a paz.

Aprender a praticar os conhecimentos adquiridos. Habilitar-se a ingressar no mundo do trabalho moderno e competitivo, tendo como foco a formação técnica e profissional, o comportamento social, a aptidão para o trabalho em equipe e a capacidade de tomar iniciativa.

Dominar a leitura, a escrita, a expressão oral, o cálculo e a solução de problemas. Despertar a curiosidade intelectual, o sentido crítico, a compreensão do real e a capacidade de discernir. Construir as bases que permitirão ao indivíduo continuar aprendendo ao longo de toda a vida.

Estes, segundo o Relatório, são os quatro pilares da educação. A Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI reconhece que a educação escolar que temos hoje se orienta basicamente para o conhecer e, em menor escala, para o fazer. As outras aprendizagens - ser e conviver - ficam a depender de circunstâncias aleatórias fora do âmbito do ensino estruturado.

Daí, emergem as quatro competências, que o jovem, para ser autônomo, solidário e competente deverá desenvolver:

A proposta até aqui desenvolvida pode ser resumida em dois grandes objetivos: ampliar a educação ao conjunto da experiência humana (ser, conviver, fazer e conhecer) e estendê-la ao longo de toda vida, transcendendo os limites da instituição e da idade escolar.

Estamos ainda muito longe - quando olhamos o que se passa em nosso redor no sistema de ensino - da perspectiva de uma educação assentada sobre os quatro pilares propostos no relatório da UNESCO. No entanto, é preciso ter claro que, mais do que a visão de um grupo de sábios, esse relatório exprime as exigências dos novos tempos e das novas circunstâncias em que seremos chamados a viver no século XXI.

A concepção de educação abraçada pela ONU no limiar do novo milênio tem por fundamento o Paradigma do Desenvolvimento Humano, que, desde 1990, vem sendo desenvolvido e difundido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Com base no Relatório sobre Desenvolvimento Humano no Brasil (PNUD/ IPEA/1996), podemos resumir esse paradigma em dez pontos básicos, consistentes com a educação pluridimensional:

  1. O fundamento real do desenvolvimento humano é o universalismo do direito à vida;

  2. Cada ser humano nasce com um potencial, que necessita de certas condições para se desenvolver;

  3. O objetivo do desenvolvimento é criar um ambiente no qual todas as pessoas possam expandir suas capacidades;

  4. Esse ambiente deve ainda propiciar que a presente e as futuras gerações ampliem suas possibilidades;

  5. A vida não é valorizada apenas porque as pessoas podem produzir bens materiais, nem a vida de uma pessoa vale mais que a de outra;

  6. Cada indivíduo, bem como cada geração, tem direito a oportunidades que lhe permitam melhor fazer uso de suas capacidades potenciais;

  7. A forma pela qual realmente são aproveitadas essas oportunidades e quais os resultados alcançados têm a ver com as escolhas que cada um faz ao longo de sua vida;

  8. Todo ser humano deve ter capacidade de escolha, agora e no futuro;

  9. Há uma necessidade ética de se garantir às gerações futuras condições ambientais pelo menos iguais às que as gerações anteriores desfrutaram (desenvolvimento sustentável);

  10. Esse universalismo torna as pessoas mais capazes e protege os direitos fundamentais (civis, políticos, sociais, econômicos e ambientais).

A educação pluridimensional é a aplicação dos princípios ético-políticos desse paradigma ao desenvolvimento pessoal e social das novas gerações e também das gerações adultas, preparando o ser humano para viver e trabalhar numa sociedade pós-moderna.

Os Códigos da Modernidade, de Bernardo Toro, traçam prefigurações realistas do perfil exigido de cada ser humano, para lidar com os desafios desse novo cenário.

 

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LEITURA COMPLEMENTAR

OS CÓDIGOS DA MODERNIDADE
José Bernardo Toro

 


1. Domínio da Leitura e da Escrita

Para se viver e trabalhar na sociedade altamente urbanizada e tecnificada do século XXI, será necessário um domínio cada vez maior da leitura e da escrita. As crianças e adolescentes terão de saber comunicar-se usando palavras, números e imagens.

Por isso, os melhores professores, as melhores salas de aula e os melhores recursos técnicos devem ser destinados às primeiras séries do ensino fundamental. Saber ler e escrever já não é um simples problema de alfabetização, é um autêntico problema de sobrevivência.

Todas as crianças devem aprender a ler e a escrever com desenvoltura nas primeiras séries do ensino fundamental, para poder participar ativa e produtivamente da vida social.


2. Capacidade de fazer cálculos e de resolver problemas

Na vida diária e no trabalho é fundamental saber calcular e resolver problemas.

Calcular é fazer contas. Resolver problemas é tomar decisões fundamentais em todos os domínios da existência humana.

Na vida social, é necessário dar solução positiva aos problemas e às crises. Uma solução é positiva quando produz o bem de todos.

Na sala de aula, no pátio, na direção da escola, é possível aprender a viver democraticamente e positivamente, solucionando as dificuldades de modo construtivo e respeitando os direitos humanos.


3. Capacidade de analisar, sintetizar e interpretar dados, fatos e situações

Na sociedade moderna é fundamental a capacidade de descrever, analisar e comparar, para que a pessoa possa expor o próprio pensamento oralmente ou por escrito.

Não é possível participar ativamente da vida da sociedade global, se não somos capazes de manejar símbolos, signos, dados, códigos e outras formas de expressão lingüística.

Para serem produtivos na escola, no trabalho e na vida como um todo, os alunos deverão aprender a expressar-se com precisão por escrito.


4. Capacidade de compreender e atuar em seu entorno social

A construção de uma sociedade democrática e produtiva requer que as crianças e jovens recebam informações e formação que lhes permitam atuar como cidadãos. Exercer a cidadania significa:


5. Receber criticamente os meios de comunicação

Um receptor crítico dos meios de comunicação (cinema, televisão, rádios, jornais, revistas) é alguém que não se deixa manipular como pessoa, como consumidor e como cidadão.

Aprender a entender os meios de comunicação nos permite usá-los para nos comunicarmos à distância, para obtermos educação básica e profissional, articulando-nos em nível planetário.

Os meios de comunicação não são passatempos. Eles produzem e reproduzem novos saberes, éticas e estilos de vida. Ignorá-los é viver de costas para o espírito do tempo em que nos foi dado viver.

Todas as crianças, adolescentes e educadores devem aprender a interagir com as diversas linguagens expressivas dos meios de comunicação para que possam criar formas novas de pensar, sentir e atuar no convívio democrático.


6. Capacidade para localizar, acessar e usar melhor a informação acumulada

Num futuro bem próximo, será impossível ingressar no mercado de trabalho sem saber localizar dados, pessoas, experiências e, principalmente, sem saber como usar essa informação para resolver problemas. Será necessário consultar rotineiramente bibliotecas, hemerotecas, videotecas, centros de informação e documentação, museus, publicações especializadas e redes eletrônicas.

Descrever, sistematizar e difundir conhecimentos será fundamental.

Todas as crianças e adolescentes devem, portanto, aprender a manejar a informação.


7. Capacidade de planejar, trabalhar e decidir em grupo

Saber associar-se, saber trabalhar e produzir em equipe, saber coordenar, são competências estratégicas para a produtividade e fundamentais para a democracia.

A capacidade de trabalhar, planejar e decidir em grupo forma-se cotidianamente através de um modelo de ensino-aprendizagem autônomo e cooperativo (educação personalizada em grupo).

Por esse método, a criança aprende a organizar grupos de trabalho, negociar com seus colegas para selecionar metas de aprendizagem, selecionar estratégias e métodos para alcançá-las, obter informações necessárias para solucionar problemas, definir níveis de desempenho desejados e expor e defender seus trabalhos.

Na educação personalizada em grupo, com apoio de roteiros de estudo tecnicamente elaborados, a capacidade de decidir, planejar e trabalhar em grupo vai se formando à medida em que se permite à criança e ao adolescente ir construindo o conhecimento.

Nessas pedagogias auto-ativas e cooperativas, o professor é um orientador e um motivador da aprendizagem.


Tradução e Adaptação de Antonio Carlos Gomes da Costa

 

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Antonio Carlos Gomes da Costa é educador e autor de diversos livros. Através de sua empresa, a Modus Faciendi (www.modusfaciendi.com.br), com sede em Belo Horizonte, MG, presta consultoria a diversas instituições do Terceiro Setor, entra as quais o Instituto Ayrton Senna, do qual é o principal consultor. O presente texto circulou amplamente de maneira informal até que, com pequenas revisões, se tornou o terceiro capítulo do livro do autor Protagonismo Juvenil: Adolescência, Educação e Participação Democrática (Fundação Odebrecht, Salvador, 2000), pp.46-57.

 

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