Ideário do Programa “Sua Escola a 2000 por Hora”

 


 

I. JUSTIFICATIVA DO PROGRAMA

A sociedade ocidental passou por amplas e profundas transformações no período de pouco mais de 50 anos que transcorreu desde o final da Segunda Guerra Mundial.

De especial significado para a educação nesse período foi o rápido e constante aperfeiçoamento das tecnologias de informação e de comunicação, que convergiram uma para a outra e acabaram, do ponto de vista técnico, por se fundir.

O importante impacto que essas tecnologias estão tendo sobre a educação se manifesta tanto de forma direta, e, portanto, mais facilmente visível, como também de forma indireta, não tão evidente, mas que, possivelmente, se tornará cada vez mais importante.

Para constatar o impacto direto dessas tecnologias sobre a educação basta atentar para os seguintes desenvolvimentos:

Na chamada educação presencial, já não é mais incomum ver escolas, mesmo públicas, com:

Na chamada educação virtual, encontramos as seguintes modalidades de educação mediada pela tecnologia:

Além disso, os seguintes desenvolvimentos atestam o impacto direto da tecnologia sobre a educação presencial:

Mas além desse impacto direto que a evolução dessas tecnologias evidentemente tem tido sobre a educação, há, também o impacto indireto, talvez menos perceptível, mas não menos importante.

O uso das tecnologias de informação e de comunicação se universalizou no Ocidente, em basicamente todos os setores da vida individual e social.

Esses desenvolvimentos, em sua maioria, e outros que é desnecessário listar, levaram a uma explosão nunca vista na quantidade de informações disponíveis às pessoas, mesmo as mais simples, fato que transformou substantivamente a própria sociedade, que passou até mesmo a ser designada de Sociedade da Informação.

Fazendo uma aplicação não muito literal do que Marshall McLuhan provavelmente quis dizer quando afirmou que “o meio é a mensagem”, poder-se-ia sugerir que o impacto indireto dessas tecnologias sobre a educação será mais importante do que o seu impacto direto.

Em outras palavras, as novas tecnologias de informação e de comunicação causarão uma transformação na educação, e, conseqüentemente na escola, mais através das mudanças que produzirão na sociedade (impacto indireto) do que através de sua introdução e de seu uso nos ambientes, presenciais ou virtuais, intencionalmente dedicados à educação, como, no caso presencial, a sala de aula (impacto direto).

Há evidência histórica suficiente para concluir que o aparecimento de tecnologias relevantes para a educação, como a escrita alfabética, a gráfica, e a televisão, causou maior impacto na educação através das mudanças que produziu na sociedade do que através de sua introdução e de seu uso na escola.

A escrita alfabética tornou possível a existência de material escrito, em especial a correspondência e o livro manuscrito, e permitiu o surgimento, nas sociedades em que foi introduzida, de uma cultura letrada, que passou a competir com a cultura oral, que até ali predominava sem muita concorrência.

A gráfica tornou possível a existência do livro impresso e, depois, da revista e do jornal, e criou condições para que a cultura letrada se tornasse a cultura predominante, fato que, por sua vez, levou a profundas transformações na educação (especialmente na educação escolar), que acabou se tornando, além de letrada, eminentemente livresca.

Com a popularização dos materiais impressos, tornou-se quase inimaginável uma educação não mediada por textos. Esse fato colocou um estigma no analfabetismo e se tornou um incentivo para que todos procurassem a escola (inicialmente nos países influenciados pela Reforma Protestante, depois em quase todos os outros).

Já no século passado (o vigésimo da era cristã), a televisão mais uma vez alterou a cultura, alavancando a cultura visual que hoje compete com a cultura letrada, levando-lhe, em muitos aspectos, vantagem.

Note-se que em relação à cultura visual o analfabeto não enfrenta tanta desvantagem... Se a cultura visual se tornar realmente predominante, pode dar-se o caso de que o analfabetismo perca o seu estigma, fato que irá mais uma vez afetar profundamente a educação e as escolas. O que se chama de multimídia, é bom ressaltar, não dispensa o texto.

No caso das novas tecnologias de informação e de comunicação provavelmente não será diferente. Isso quer dizer que elas vão afetar a educação e, assim, a escola, mais através das transformações que promoverão (e já estão promovendo) na sociedade, sem preocupação direta com a educação e a escola, do que por aquilo que elas, enquanto tais, podem fazer quando aplicadas diretamente dentro da escola, em especial na sala de aula.

Tendo surgido em decorrência de inovações tecnológicas distintas e em grande parte não relacionadas, o telefone, o rádio, a televisão e o computador hoje convergem, a ponto de se mesclarem na tecnologia digital usada para o computador, que, assim, engloba, além dessas, as tecnologias de produção de textos, sons e imagens, gradativamente substituindo as tradicionais tecnologias de impressão de livros, revistas e jornais, de gravação de discos e fitas de música e de registro de imagens estáticas (fotografia) e dinâmicas (cinema e vídeo).

O uso da mesma tecnologia digital nas telecomunicações transformou as tecnologias usadas na telefonia e na radiodifusão em uma rede digital de comunicações de alcance mundial, usando transmissão de informações por fios e cabos ou sem eles, que, levando sons (inclusive a voz humana), imagens e texto instantaneamente para qualquer ponto do planeta, está também substituindo o correio tradicional no transporte de mensagens e se tornando importante meio de comunicação, de divulgação de idéias, de marketing, de comércio, de entretenimento e, naturalmente, de educação.

Se incorporarmos a esse quadro a evolução tecnológica dos meios de transporte, em especial os aéreos, que hoje nos permitem chegar a qualquer ponto do globo em algumas horas, podemos entender porque Marshall McLuhan disse vivemos em uma aldeia global. Dada a rapidez nas comunicações e nos transportes nessa aldeia global, uma variável nova, além da amplitude e da profundidade, se tornou relevante no processo de mudanças: a velocidade.

Todas esses desenvolvimentos revolucionaram, nos últimos anos, o processo produtivo (tanto na agropecuária como, especialmente, na indústria), o comércio, os serviços, a cultura, as artes, o lazer, as formas de convivência, e, em especial, as profissões – ou seja, revolucionaram a nossa vida.

Seria muito surpreendente se a educação, que tem por objetivo maior capacitar as pessoas para viver vidas autônomas, solidárias e produtivas, de forma competente e responsável, não fosse ampla e profundamente afetada por essas mudanças.

Num outro contexto, em que as comunidades eram bastante homogêneas e tipicamente locais, em que as informações e os conhecimentos eram parcos e o acesso a eles difícil, em que a comunicação a distância, quando possível, era precária, e em que não havia grandes mudanças ou, pelo menos, elas eram mais lentas, poderia fazer sentido considerar a educação como sendo, primariamente, um processo de transmissão, de uma geração para a outra, de conhecimentos, valores, e atitudes. Nesse contexto, as novas gerações desenvolviam, em ambientes informais, as competências e habilidades (geralmente simples), bem como os valores e as atitudes (geralmente consensuais), necessários para viver suas vidas, e as informações e os conhecimentos necessários para se conduzir no plano individual e social lhes eram transmitidos pela família ou, em ambientes mais complexos, pela escola, agindo in loco parentis.

Na Sociedade da Informação, porém, em que há uma explosão de informações e conhecimentos, em que o acesso à informação e ao conhecimento é fácil e rápido, em que comunidades freqüentemente se constituem no plano global e estão longe de ser homogêneas, em que os valores e as atitudes não são consensuais, e em que as competências e as habilidades exigidas para viver vidas autônomas, solidárias e produtivas, de forma competente e responsável, são complexas e múltiplas, abrangendo não só a dimensão cognitiva, mas também as dimensões afetivo-emocional, psicomotora, e interpessoal, não faz mais sentido continuar a ver a função da educação (e, a fortiori, da escola) sob a mesma ótica em que era vista até há pouco.

Nessa sociedade, em vez de primariamente transmitir informações e conhecimentos, a educação (e, portanto, conseqüentemente, a escola) deve focar sua atenção no chamado “paradigma do desenvolvimento humano”, que contempla o desenvolvimento da pessoa, do cidadão e do profissional, e, com esse foco, ajudar as crianças, os adolescentes e os jovens a desenvolver, de forma ativa e colaborativa, as competências e habilidades necessárias para conhecer a si próprios e aos seus semelhantes, bem como à realidade natural e social em que vivem, para conviver com seus semelhantes e com eles colaborar, para fazer, no plano individual e no social, o que for necessário para tornar sua vida e a de seus semelhantes mais realizada e feliz, e, enfim, para ser pessoas autônomas, solidárias, e produtivas que, de forma competente e responsável, harmonicamente integram suas várias dimensões (cognitiva, afetiva, psicomotora e interpessoal) a serviço da realização pessoal e do bem comum.

Nessa sociedade, permeada que está pela tecnologia centrada no computador, é inconcebível que o desenvolvimento dessas competências e habilidades se faça num vácuo, sem contato inteligente e constante com essa tecnologia. Pelo contrário, a tecnologia é hoje ferramenta de comunicação, de acesso à informação, e de disseminação de informação indispensável para o mister de educar, ou seja, de ajudar as pessoas a se capacitarem para viver vidas autônomas, solidárias e produtivas, de forma competente e responsável – ou, se se prefere, para o mister de ajudar as pessoas a sonhar os próprios sonhos e a se capacitar para transformá-los em realidade.

 

II. OBJETIVOS DO PROGRAMA


1. O Programa “Sua Escola a 2000 por Hora” no Contexto do Instituto Ayrton Senna

O Programa “Sua Escola a 2000 por Hora” (Sua Escola) é um programa do Instituto Ayrton Senna (IAS). Como tal, é coerente com os objetivos, princípios norteadores e estratégicas básicas de ação do IAS.

O objetivo geral do IAS é promover o desenvolvimento humano, com foco no adolescente e no jovem. O desenvolvimento humano é promovido quando se promovem a educação, a saúde, a integridade e o bem estar do ser humano.

Na área da educação, o objetivo específico do IAS é promover o desenvolvimento da pessoa, do cidadão e do profissional (como especificam a Constituição Brasileira, em seu Artigo 205, e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em seu Artigo 2º), através de programas voltados para a educação formal e não-formal, dentro dos princípios norteadores fornecidos pelos “Quatro Pilares da Educação” definidos pelo Relatório Jacques Delors da UNESCO.

Em termos de estratégia de atuação, o IAS organiza suas ações em dois eixos de trabalho: o Fazer e o Influir.


2. O Programa "Sua Escola a 2000 por Hora

O Sua Escola é um dos programas do IAS voltados para a educação formal, isto é, para a educação que se processa, de forma organizada e estruturada, dentro da escola.


A. Objetivo Geral

O objetivo geral do Sua Escola é contribuir para que a escola pública se reveja (em termos de objetivos, organização curricular, métodos de trabalho, papel de professores e alunos, e forma de gestão), à luz da concepção de educação como desenvolvimento humano e levando em contra as profundas transformações que as tecnologias de informação e de comunicação vêm promovendo na sociedade.

Como o foco de atuação do IAS está no adolescente e no jovem, o Sua Escola prioriza a educação fundamental de 5ª a 8ª série e a educação de nível médio./p>


B. Objetivos Específicos

Os objetivos específicos do Sua Escola são concebidos em termos dos dois eixos de trabalho, o Fazer e o Influir, que fazem parte da estratégia de atuação do IAS:


C. Princípios

A contribuição específica que o Sua Escola traz para essa causa só fica evidente quando se detalham os princípios pedagógicos em que o programa se alicerça.

Esses princípios deixam evidente que não adianta introduzir tecnologia na escola apenas para torná-la mais eficiente, i.e., para que a escola faça melhor o que já vem fazendo: é necessário, primeiro, torná-la eficaz, i.e., conseguir que ela faça aquilo que deve ser feito para promover a educação à luz do paradigma do desenvolvimento humano na Sociedade da Informação.

Assim, tornar a escola eficaz significa transformá-la, ou até mesmo reinventá-la, para que ela possa, junto com outros agentes educacionais, participar do esforço de promover uma educação que realmente contribua para o desenvolvimento humano no contexto de uma sociedade em que a tecnologia desempenha um papel cada vez mais importante na vida das pessoas.

 

III. PRINCÍPIOS PEDAGÓGICOS QUE NORTEIAM O PROGRAMA

Os princípios pedagógicos que norteiam o programa operam como seis ideais a serem buscados, a saber:

O objetivo geral do programa – contribuir para o desenvolvimento de novas formas de ensinar e aprender que façam uso criativo e inovador da tecnologia – se insere dentro do objetivo específico do IAS de melhorar a qualidade da educação, que, por sua vez, se vincula ao objetivo geral do IAS de contribuir para a promoção do desenvolvimento humano, e, portanto, na área da educação, para a formação da pessoa, do cidadão e do profissional.

O “DNA” próprio do programa, entretanto, só aparece quando se detalham os princípios pedagógicos em que ele se alicerça, princípios esses que deixam evidente que não adianta introduzir tecnologia (ou outros melhoramentos) na escola apenas para torná-la mais eficiente (i.e., para que ela faça melhor o que já vem fazendo): o necessário é levá-la a ser eficaz (i.e., a fazer o que é realmente preciso que ela faça na sociedade em que hoje vivemos).

A razão de ser de buscar uma nova educação e uma nova escola, usando a tecnologia, como ferramenta, para alavancá-las, está nas seguintes constatações, que trazem, embutidas em si, os “anti-princípios pedagógicos” responsáveis pela ineficácia, hoje, da educação escolar:

 

IV. ESTRATÉGIAS DE DESENVOLVIMENTO DO PROGRAMA

1. No Plano do Fazer

1.1. Identificar, inicialmente através de concursos abertos a escolas públicas que apresentarem projetos, escolas que possam atuar como parceiras do IAS na consecução dos objetivos do programa.

1.2. Organizar e coordenar o trabalho de consultores que atuem no nível central e/ou junto as escolas-parceiras para garantir a unidade de objetivos e ações do programa.

1.3. Capacitar e orientar, através dos consultores ou de outros meios, todos os segmentos das escolas parceiras (alunos, professores e direção) no desenvolvimento de seus projetos.

1.4. Avaliar constantemente as atividades do programa para garantir que seus objetivos estão sendo alcançados com eficiência.

1.5. Construir uma Tecnologia Social, com base na experiência das escolas-parceiras, que, levando em conta as profundas transformações que as novas tecnologias de informação e comunicação vêm promovendo na sociedade, e explorando, de maneira crítica e inovadora, o seu potencial para a educação, concebida como desenvolvimento humano, permita que adolescentes e jovens brasileiros se capacitem, em larga escala, para viver vidas autônomas, solidárias e produtivas, de forma competente e responsável.

2. No Plano do Influir

2.1. No nível da Advocacia, defender, junto à sociedade, a necessidade de melhorar a qualidade da educação, explorando o uso da tecnologia na promoção de formas criativas e inovadoras de ensinar e aprender que possam contribuir para o pleno desenvolvimento dos alunos como pessoas, cidadãos e profissionais.

2.2. No nível da Mobilização, convocar educadores para trabalhar visando ao desenvolvimento de competências e habilidades nos alunos, através de projetos transdisciplinares de aprendizagem, voltados para a solução de problemas reais dos alunos e da comunidade em que vivem, que, fazendo uso criativo e inovador da tecnologia, possibilitem a participação ativa e significativa dos alunos.

2.3. No nível da Pedagogia Social, instrumentar os diferentes atores da área da educação para a ação pedagógica que, usando a tecnologia como ferramenta, capacite o aluno para o aprendizado ativo e significativo, no plano pessoal e colaborativo.