Projeto de Vida

  

Margarida Serrão e Maria Clarice Baleeiro

 


 

A história de vida de uma pessoa começa muito antes do seu nascimento e vai se processando ao longo do tempo. O primeiro nascimento do homem corresponde ao seu nascimento real, quando nasce para a família e para a espécie. O segundo nascimento do homem acontece na adolescência, quando nasce para si mesmo e para a sociedade.

Na infância, a existência da criança está ligada ao projeto dos pais, ao que eles pensam, desejam, idealizam e escolhem. Na adolescência, o jovem não aceita mais o que os outros determinam para a sua vida. Quer ele mesmo decidir seu próprio destino, por isso questiona, rompe, conflitua-se, desespera-se, perde-se, encontra-se. Nesse processo vive perdas e lutos que precisam ser elaborados, para que surja uma forma de ser renovada e coerente com o seu querer.

Adolescer, além de representar um momento de crise, é também, e muito mais, o momento em que as escolhas são feitas e projetos começam a ser construídos. Esses projetos contêm a visão que o adolescente de si mesmo, de suas qualidades e do que almeja alcançar. Essa visão de futuro está ligada às suas vivências e experiências anteriores e às relações estabelecidas até então em sua história.

Nesse processo de buscas e definições, o adolescente precisa preencher espaços ainda vazios na formação da sua identidade decorrentes da dificuldade de encontrar respostas para questões que passam a ter grande significado: por que estou aqui; para que estou aqui; que poder tenho sobre minha vida, meu corpo e o ambiente; qual o sentido da vida e da minha existência.

Esse vazio deixa o adolescente momentaneamente desintegrado, sem contornos, acentuando as dúvidas existenciais inerentes a todo ser humano. A sociedade atual, voltada para o ter, não facilita o preenchimento desse vazio, pois estimula e impulsiona o adolescente a pensar e "resolver a vida" com base no poder quase sempre proveniente de aquisições materiais. A escolha da profissão pode exemplificar essa tendência. O jovem é estimulado a escolher, baseando-se em critérios materiais, acreditando que a partir daí tem garantidas a realização e a satisfação pessoal.

É também nessa fase que o uso indevido de drogas oferece maior perigo. Na tentativa de suprir suas faltas, de buscar respostas imediatas às questões existenciais, o adolescente pode deparar-se com a droga e usá-la para aliviar seu sofrimento, responder suas dúvidas ou perceber o mundo de forma mais prazerosa. Dependendo das características de sua personalidade e da extensão do seu vazio interior, o uso de drogas oferece maior ou menor risco para a sua saúde física, psíquica e social.

Um tema fundamental na formulação do projeto de vida é a questão do trabalho. Discutir trabalho é ir além da escolha profissional e da obtenção de um emprego. É importante abrir espaço para que o adolescente se expresse sobre o tema - suas inquietações, temores, anseios, expectativas -, possibilitando-lhe perceber o trabalho como realização pessoal e meio de participação na transformação do mundo.

O educador, ao discutir esse assunto com o adolescente, precisa repensar o seu próprio trabalho e o do jovem com olhos no século XXI, preparando-o para os desafios decorrentes da globalização, das novas tecnologias e dos níveis de qualificação exigidos para o ingresso no mercado.

A construção do projeto de vida é a instância final de um projeto de desenvolvimento pessoal e social. Quando o adolescente se revela preparado para iniciar essa construção, isso significa que formou sua identidade, compartilhou-a com o grupo e se tornou capaz de comunicar sonhos, desejos, planos e metas, podendo ingressar numa nova etapa de vida.

 


 

Este texto foi retirado do livro Aprendendo a Ser e a Conviver, escrito pelas autoras, e publicado pela FTD e Fundação Odebrecht, São Paulo, 1999. Ele se encontra ali nas pp.277-278, citado aqui na versão transcrita por Antonio Carlos Gomes da Costa em Protagonismo Juvenil: Adolescência, Educação e Participação Democrática (Fundação Odebrecht, Salvador, pp. 242-244. Há pequenas variações entre o texto original e o citado, introduzidas no transcrição em Protagonismo Juvenil, que, entretanto, não alteram o seu significado.