Quem sou eu (*)

 


 

1) O Educador como Pessoa

Contam os historiadores da Filosofia que no frontispício do templo de Apolo, em Delphos, estava escrito: “Conhece-te a ti mesmo”. Este foi e continua sendo o ponto de partida todas as vezes que buscamos nos confrontar conosco mesmos à procura da nossa identidade, ou seja, daquilo que nos torna únicos, daquilo que nos faz ser que somos.

Milton Nascimento imortalizou essa busca nos versos de uma linda canção: “Eu, caçador de mim”. Onde, porém, devemos começar essa “caça” de nossa identidade? Será que devemos melhorar em nosso próprio interior e perscrutar os abismos da alma? Creio, sinceramente, que não é preciso tanto. Há outro meio mais simples e objetivo de realizarmos essa tarefa.

Jean Paul Sartre, o mais famoso filósofo francês do pós-guerra, cunhou uma sentença lapidar a respeito desta questão: “o homem é aquilo que ele faz”. Portanto, em vez de mergulhar nos abismos da alma, pense um pouco em sua na sua vida, na sua trajetória, nos caminhos que você percorreu para chegar até aqui. Procure lembrar-se de tudo o que foi mais importante, mais significativo para a sua vida, aquilo que mais contribuiu para que você seja o que é hoje.

Apenas para ajudar em seu itinerário, é interessante lembrar uma das bases do paradigma do desenvolvimento humano, que pode ser resumida assim: “Aquilo que uma pessoa se torna ao longo da vida depende fundamentalmente de duas coisas: das oportunidades que teve e das escolhas que fez”. De fato, se pensarmos bem, cada um de nós é fruto das oportunidades que tivemos e das escolhas que fomos fazendo ao longo da vida. E algumas escolhas são determinantes em nossa trajetória pessoal. Como a escolha daquela ou daquele com quem vamos compartilhar nossa vida ou a escolha da profissão que vamos seguir.

Fazer escolhas, tomar decisões, definir o rumo de nossa própria existência, é o que faz o homem, no dizer de Erich Fromm, “o parteiro de si mesmo”, isto é, as nossas decisões na vida e as ações delas decorrentes é que nos fazem ser o que somos.

Muitas vezes, porém, quando a gente se debruça sobre este tema e se faz estas indagações, temos a irreprimível tendência de ficar procurando os responsáveis pelo aquilo que aconteceu ou deixou de acontecer em nossas vidas. É sempre mais fácil a gente responsabilizar alguma pessoa ou circunstância e, assim, tirar a responsabilidade de cima de nossos ombros e colocá-las no de outras pessoas. Esta é uma tentação muito freqüente, não só hoje, mas em todos os tempos. Não é verdade?

É o mesmo Sartre, no entanto, que nos dá uma orientação precisa a esse respeito, quando afirma: “O importante não é o que fizeram de nós, mas o que nós próprios faremos com aquilo que fizeram de nós”. Quando a gente olha o nosso passado, o nosso presente e as nossas opções futuras por esta ótica, as coisas assumem outra forma e a vida parece nos dizer: Vai nessa! A bola é sua! Assuma a condução do seu próprio destino! O melhor lugar é aqui. A melhor hora é agora. Comece com aquilo que você já sabe, construa sobre aquilo que você já tem. Não deixe passar a flor do mundo que, a cada manhã, desabrocha em nossas vidas. Colha-a!

É muito importante que a gente se compreenda e se aceite como realmente é. Sem isso, não podemos falar de identidade, que é a continuação de nossa personalidade, daquilo que nos faz únicos e irrepetíveis, no tempo. É a clareza a cerca de nossa identidade que nos permite mudar sem deixar de ser a gente mesmo. Sem deixar de ser aquilo que se é.

É muito importante, professor ou professora, no início de nossa caminhada ao longo do trajeto contido neste livro, que você pare um pouco e pense em si mesmo como pessoa, como indivíduo, como ser humano que ocupa lugar neste mundo. Alguém, que tem uma história de vida, alguém que, neste momento, está confrontado com um conjunto de situações em sua existência e, sobretudo, alguém que tem ideais, projetos, sonhos e esperanças.

Portanto, pare um pouco, e se pergunte: quem sou eu? Responder claramente a esta pergunta é sempre um importante primeiro passo no caminho de mudança em nossas vidas. E é por aí que pretendemos começar a construção de um novo caminho na sua trajetória de educador. Não podemos mudar, porém, a nossa atitude básica diante do nosso trabalho se, antes, não formos capazes de mudar nossa atitude básica diante da vida. Por isso, decidimos começar pelo começo de tudo, que é a sua relação consigo mesmo.

 

2) O Professor como Profissional

Existe uma grande empresa brasileira, uma de nossas poucas multinacionais, onde todos os líderes empresariais e seus colaboradores fazem periodicamente seu P.A., ou seja, o seu Programa de Ação. Quando cada pessoa vai discutir esse programa com o dirigente máximo da organização, três perguntas são comuns a todos: Qual seu plano de vida? Qual seu plano de carreira? Qual seu programa de ação para o próximo período?

A idéia por detrás destas perguntas é de que uma pessoa deve ter um projeto de vida, ou seja, todos devemos ser capazes de ter uma visão de como queremos que nossa vida venha ser dentro de um número definido de anos. Para que indagar sobre o projeto de vida das pessoas? É que o plano de carreira de uma pessoa só tem verdadeiramente sentido para sua vida, quando a sua realização contribui para a realização do seu projeto de vida. Se o plano de carreira está desvinculado do plano de vida, nós sabemos que a vida daquela pessoa não está centrada em objetivos coerentes.

O programa de ação da pessoa é o que nos diz, por exemplo, o que ela pretende fazer no próximo ano. Esse programa de ação só tem sentido pleno, se for capaz de contribuir verdadeiramente para a realização do plano de carreira da pessoa e, este, para a realização do seu plano de vida. Quando isto ocorre, é como se o sol, a lua e a terra estivessem alinhados, enfileirados no espaço.

O magistério publico é a carreira que conta com o maior número de profissionais em todo país. É a nossa maior categoria de trabalhadores. Estes profissionais, todos os dias, mantêm contato direto com milhões e milhões de crianças e adolescentes na educação infantil e nos ensinos fundamental e médio, sem falar na educação profissional. A escola pública é o equipamento social mais difundido em todo território nacional. Ao contrário de outras categorias profissionais, o trabalho dos professores está longe de ser ameaçado pelas novas tecnologias, como a telemática, a informática e a robótica. No entanto é muito freqüente nos depararmos com um mar de queixas e reclamações, quando ouvimos os professores acerca de sua profissão e das suas perspectivas diante da vida.

De fato, poucas categorias reclamam tanto como a nossa. Os motivos de tanta queixa giram invariavelmente em torno de alguns eixos básicos: salários, carreira, condições precárias de trabalho e desprestígio social do magistério. Estas percepções freqüentemente estão entranhadas de modo tão profundo no senso comum do professorado, que ninguém mais se preocupa em comparar essa relação com a de outras categorias e aquilatar, realmente, o que há de verdadeiro e ilusório em tudo isto.

Mais do que constatarmos as origens e as causas de tais problemas, é a nossa atitude básica diante deles que contará de modo decisivo para o seu correto equacionamento e solução. E, aqui, nos defrontamos com dois modelos de atuação diante dos quais devemos fazer uma opção: o modelo do dano e o modelo do desafio.

O modelo do dano ocorre quando optamos por nos deter nos aspectos negativos de uma situação e nele nos fixamos de tal maneira, que fica muito difícil para nós identificarmos os pontos positivos, ou seja, nossas vantagens comparativas, aquilo que conta a nosso favor para termos condições de enfrentar e vencer as situações que temos pela frente. O modelo do dano opera o paradigma da inércia, da lamentação e da desesperança.

Já o modelo do desafio é convite permanente ao pensamento e à ação transformadores diante da realidade, ou seja, é o modo de entender e agir que nos possibilita não nos deixarmos abater pela adversidade e, até mesmo, utilizá-la para crescer. Quem adota esta perspectiva diante da vida sabe a importância de se ter um projeto, de não enxergar apenas o lado escuro, o lado negativo da realidade. Sabe da importância do senso de humor diante das situações difíceis, sabe que para atingir as metas distantes devemos dar pequenos passos todos os dias, saber admirar sinceramente o que há para ser admirado nas pessoas, e assim, ir assimilando o bem em sua própria vida, em sua própria pessoa.

Hoje, existe na educação brasileira uma questão do tipo “o ovo e a galinha”. Todos temos consciência de que é preciso ressignificar, isto é, revestir de novo valor, de novo sentido e de novo significado a educação, a escola, o professor e o aluno. Todos nós sabemos que o Brasil precisa mudar profundamente o seu modo de ver, entender e agir diante da educação. Disto depende a solução de todos os demais problemas: salário, carreira, condições de trabalho, formação inicial, capacitação em serviço e prestígio social do magistério. Para os que atuam no modelo do dano, tudo isso deve ocorrer antes, para que, só depois, as escolas comecem a mudar para melhor. Para os que operam no modelo do desafio, a escola é que deve sair na frente e começar a mudar, para que, então, a sua ressignificação ampla e profunda pelo governo e pelo conjunto da sociedade comece a ocorrer fora da retórica das campanhas políticas e do blá-blá-blá de sempre a que todos já nos acostumamos. Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

Operar no modelo do dano ou no modelo do desafio não é uma decisão que deva ser tomada em conjunto por centenas de milhares de profissionais do magistério em todo país. Esta, meu caro professor ou professora, é uma decisão que você deve tomar diante de sua própria consciência. Ninguém poderá fazê-lo em seu lugar. Pois, ao fazer isto, você esta fazendo a escolha do profissional que você pretende tornar-se, ou seja, você pretende seguir as tendências como um objeto na correnteza ou, ao contrário, pretende chamar a si a responsabilidade pelas as suas ações no dia-a-dia da escola, na construção de sua carreira e na consecução dos objetivos maiores de sua vida? A decisão é sua.

 

3) O Professor como Cidadão

A história da cidadania e a história da educação pública praticamente se confundem. Darcy Ribeiro costumava dizer que o Brasil é um país que sabe fabricar carros, submarinos, computadores, televisores, videocassetes, aviões e até mesmo satélites, mas que tem, historicamente, fracassado na tarefa de fabricar cidadãos.

E por que isso ocorre? Segundo ele, a razão desse fracasso reside no fato de que “a fábrica de cidadãos”, que é a escola pública, não está funcionando como devia. Nós, professores, somos produtos e também produtores desta escola. E é dentro deste quadro que devemos pensar a nossa categoria e o papel que ela desempenha na vida do país como um todo.

O Brasil chega aos 500 anos do encontro de povos que deu início ao processo histórico que resultou no que somos hoje, como um povo nação, convocado a enfrentar três grandes desafios.

O primeiro, é de nos tornarmos uma economia verdadeiramente competitiva, numa economia internacional cada dia mais globalizada. Este é um desafio de desenvolvimento econômico.

O segundo, é a erradicação das desigualdades sociais intoleráveis, que tanto nos envergonham como pessoas e como Nação. Este é um desafio de desenvolvimento social.

O terceiro, é a elevação dos níveis de respeito aos direitos humanos e de participação democrática da população em questões relativas ao bem comum. Este é um desafio de natureza política.

Se repararmos bem, o enfrentamento a todos estes grandes desafios do Brasil começa na sala de aula do ensino fundamental. De fato, uma economia competitiva, uma sociedade mais justa e um estado democrático de direito forte e consolidado dependem quase que totalmente da qualidade de educação recebida pelas novas gerações (crianças e adolescentes) no início de suas vidas.

Realmente, sem educação de qualidade para todos, será praticamente impossível termos uma economia competitiva. Hoje em dia, diz o professor Vicente Falconi, “nosso sistema de ensino disputa com o sistema de ensino de outros países nas prateleiras de nossas lojas e nas gôndolas de nossos supermercados”, ou seja, os produtos e serviços produzidos são, cada vez mais, o reflexo da educação básica de sua força de trabalho.

Quando pensamos em nossas gritantes desigualdades sociais, a mesma situação se repete. Cada brasileiro que vai à escola e repete uma, repete duas, repete três vezes a mesma série e sai da escola sem ter aprendido o que devia, depois de perder ali vários anos, torna-se um brasileiro a mais despreparado para a vida. Ele estará condenado a ser um cliente dos programas de renda mínima, de cesta básica, das frentes de trabalho e outros nesta linha, ou seja, será sempre dependente do Estado ou da sociedade. Por outro lado, por maior que sejam a pobreza e a ignorância dos pais, se uma criança ou adolescente consegue ir adiante nos estudos, ali, naquela vida, rompe-se o ciclo de reprodução da pobreza, a pobreza não passa de uma geração para outra.

E a situação não é outra, quando nos voltamos para a brutalidade, que, desde os primórdios coloniais, tem sido marcas das relações do Estado e da nossa elite social com a maioria empobrecida da população deste país. O desrespeito sistemático a todos os direitos humanos (civis, políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais) da população e a falta de transparência e de participação dos cidadãos nas questões relativas a seus interesses só podem ser rompidos se a escola for capaz de gerar um cidadão de tipo novo. Um cidadão capaz de conhecer os seus direitos e lutar por eles, fazendo as conquistas da democracia funcionarem a seu favor.

Como se vê, o professor é mais do que um simples cidadão, é um cidadão produtor de cidadania, que atua na “fábrica” onde se produz a esmagadora maioria dos cidadãos deste país, que é a escola pública.

Por tudo isso, mais do que ensinar cidadania, o professor está chamado a viver a cidadania dentro e fora da sala de aula. Para isso é imprescindível que tenhamos a consciência límpida e madura do papel que devemos ter diante dos educandos, de suas famílias e de toda a comunidade onde a escola está inscrita.

O ministro Hélio Beltrão costumava dizer que o via Brasil mais como um país de súditos do que como um país de cidadãos, ou seja, um país marcado pela timidez, a insegurança, a passividade e o conformismo das pessoas e das organizações em fase de um poder público que, em vez de servir, julga-se no direito de ser servido pelos cidadãos.

Diante desse quadro, você acha que a responsabilidade do cidadão professor é a mesma dos demais cidadãos? Da resposta amadurecida e clara a esta questão dependerá o modo com que você, enquanto cidadão responsável pela formação de outros cidadãos, lidará com esta questão dentro da sala de aula e fora dela. Reflita bastante sobre isso.

 

4) Como Vejo o Mundo

O mundo está mudando e isso está ocorrendo a uma velocidade sem precedentes na evolução histórica da humanidade. Alguns dinamismos, algumas forças estruturadoras de uma nova ordem mundial estão agindo em escala planetária e o resultado disso tem sido realmente fazer com que, de repente, “tudo que é sólido se desmanche no ar”.

A globalização dos mercados tem forçado países como o Brasil a abrirem seus portos e exporem seus produtos e serviços a uma concorrência com produtos e serviços de outros países, que freqüentemente são mais baratos e de melhor qualidade devido ao maior avanço tecnológico de nossos concorrentes. Para competir com eles de igual para igual, nosso país terá de realizar mudanças muito profundas na estrutura e no funcionamento da produção e do Estado. Se não fizermos isso, mais uma vez, perderemos o trem da história.

No entanto, a globalização dos mercados não vem sozinha. Ela se faz acompanhar pelas mudanças decorrentes do ingresso na era pós-industrial, ou seja, o surgimento de novas tecnologias, como a robótica, a telemática e a informática, que estão mudando inteiramente as feições do mundo do trabalho que conhecemos ao longo do século XX. As novas máquinas já não substituem apenas o esforço muscular dos homens e dos animais. Elas substituem boa parte das atividades que antes dependiam do cérebro dos trabalhadores.

Este novo mundo do trabalho está a exigir da escola um novo trabalhador, polivalente, flexível, motivado, criativo, apto à participação e à interação com seus pares na geração de soluções para os problemas do cotidiano na produção de bens e serviços em quantidade cada vez maior, de qualidade cada vez melhor e a um custo cada vez mais reduzido.

No plano da política internacional, estamos assistindo ao fracasso dos países que abraçaram o modelo socialista de organização econômica, social e política, e, ao mesmo tempo, o triunfo histórico sem precedentes do capitalismo e da democracia. A queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética fizeram com que o mundo voltasse a ser unipolar, ou seja, os Estados Unidos da América são hoje a grande superpotência econômica, política e militar de nosso tempo.

No que diz a respeito à cultura, muitos pensadores importantes estão apontando o fim da modernidade e o início da chamada cultura pós-moderna, uma visão da vida caracterizada pela crise dos grandes sistemas explicativos do homem e do mundo, pelo individualismo exacerbado, pelo consumismo, pelo hedonismo (busca do prazer acima de outros valores), pelo narcisismo e pelo relativismo ético e religioso.

Diante desse vasto elenco de transformações, como você se situa em termos de visão de mundo? Que posição assumir diante de tantas e tão fundamentais mudanças, que afetam diretamente o modo como vivemos, trabalhamos e criamos nossa famílias?

Mais do que nunca, o que fomos e fazemos dependerá de nossa capacidade de discernir o que é essencial do que é acessório, aquilo que é permanente daquilo que pode e deve mudar com o tempo e as circunstâncias. Trata-se de ter claro o modo como percebemos o mundo à nossa volta e o nosso posicionamento frente à compreensão que construímos da realidade em nossas mentes.

Uma consideração que deve ser feita, quando a gente se dispõe a indagar sobre a nossa visão do mundo, é situarmos e datarmos a posição em que nos encontramos ao buscar nossa resposta. Estamos situados no Brasil, um país que, como diz um dos seus maiores educadores e pensadores, o professor Darcy Ribeiro, ainda não deu certo. Somos uma economia situada na periferia do capitalismo moderno, nossos indicadores sociais (inclusive os da educação) estão melhorando, mas ainda deixam muito a desejar, as relações do Estado e das elites sociais e econômicas com a maioria da população são ainda marcadas pela indiferença, a manipulação e a brutalidade, tanto em termos de denegação como de violação sistemática dos direitos básicos da maioria empobrecida.

Como professor público, você atua no quadro de agentes de uma política social que foi capaz de expandir-se notavelmente em termos quantitativos nas últimas décadas, mas que ainda não se mostrou em condições de assegurar a qualidade necessária para fazer realmente do ingresso na vida escolar um fator de mudança efetiva e real no curso da trajetória de milhões de crianças e adolescentes, que todos os dias freqüentam as nossas escolas.

Qual deve ser o nosso posicionamento ético-politico como educadores, em face desse quadro? Podemos e devemos lutar por nossos direitos e pelos direitos de nossos educandos, mas não devemos nos esquecer de que a melhor forma de compromisso político com nossos educandos, com suas famílias e com o Brasil, é sermos, como diz a profª Guiomar Namo de Melo, tecnicamente competentes na realização do nosso trabalho. A competência técnica é verdadeiramente uma forma de compromisso político. E disto nós não podemos abrir mão.

 

5) Como Vejo a Educação

Jacques Delors, o coordenador do grupo de notáveis educadores de âmbito mundial que redigiu o relatório Educação, um Tesouro a Descobrir, afirma, no prólogo dessa obra fundamental de nosso tempo, as origens do título, cujas raízes remontam a uma das fábulas de La Fontaine chamada “O lavrador e os filhos”:


Evitai, disse o lavrador, vender a herança
Que de nossos pais nos veio
Esconde um tesouro em seu seio

Educação é tudo que a humanidade aprendeu a cerca de si mesma. Atraiçoando um pouco o poeta, que pretendia fazer o elogio do trabalho, podemos pôr na sua boca estas palavras:


Mas ao morrer o sábio pai
Fez-lhe esta confissão:
O tesouro está na educação

Por que, no limiar de um novo século e de um novo milênio, a Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, ao produzir um relatório apontando as novas tendências, dá-lhe o título de Educação, um Tesouro a Descobrir?

Se soubermos responder de maneira precisa a esta indagação, teremos certamente uma visão lúcida do significado da educação no mundo de hoje. Jacques Delors, no prefácio do relatório, afirma: “Face aos múltiplos desafios do futuro, a educação surge como um trunfo indispensável da humanidade na construção dos ideais de paz, liberdade e justiça social”.

Em seguida ele nos fala da sua “fé inabalável no papel indispensável da educação no desenvolvimento contínuo das pessoas e das sociedades. Não como um remédio milagroso, não como ‘abre-te, Sésamo’ de um mundo que atingiu a realização de todos seus ideais, mas, entre outros caminhos e para além deles, como uma via que conduz ao desenvolvimento humano mais harmonioso, mais autêntico, de modo a fazer recuar a pobreza, a exclusão social, as incompreensões, as opressões e as guerras”.

Se a educação, na era industrial, foi um fator de crescimento individual e de ascensão social, na era do conhecimento, ela está se tornando cada vez mais um fator de inclusão social. Com isto, queremos dizer que, sem educação básica de qualidade, as pessoas simplesmente não entrarão no jogo, não terão condições sequer de competir no novo mercado de trabalho transformado pelas novas tecnologias e novas formas de organização da produção. Não chegarão a ser desempregados, pessoas que conseguiram ingressar no mercado de trabalho regular e, depois, foram dispensadas. Elas serão simplesmente inempregáveis no setor moderno da economia, ou seja, pessoas que nunca conseguirão ter o primeiro emprego.

E o que é essa educação básica de qualidade? É aquela capaz de oferecer a todos os cidadãos, crianças, adolescentes, jovens e adultos, aquelas condições que Bernardo Toro chama de Códigos da Modernidade, que configuram os requisitos mínimos para se trabalhar e viver numa sociedade moderna.

O desenvolvimento das nações já não se mede apenas pelo seu PIB (Produto Interno Bruto). Desde do início dos anos noventa, o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) vem adotando um jeito novo de medir o progresso dos povos. Trata-se do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

O IDH é formado por três indicadores: expectativa de vida ao nascer, nível educacional e capacidade econômica (renda). Esses três indicadores, quando considerados em conjunto, nos permitem medir a qualidade de vida de uma população.

O Brasil, se considerarmos apenas o PIB, é um país que figura entre as dez maiores economias industriais do mundo. Já quando olhado sob ótica da qualidade de vida da população, nosso país cai para um lastimável 63º lugar, ficando atrás de países muito mais pobres e atrasados do que o nosso, o que é verdadeiramente uma vergonha para todos nós.

O índice de desenvolvimento humano não é apenas um número. Por trás dele existe uma bem estruturada visão ética e política, que se expressa por um elenco de princípios articulados entre si, que, quando considerados conjuntamente, se constituem no que se convencionou chamar de Paradigma do Desenvolvimento Humano:

1) ter como base do desenvolvimento o universalismo do direito à vida, considerado o mais básico e universal dos valores;

2) a consciência de que nenhuma vida humana vale mais do que a outra;

3) a convicção de que todas as pessoas nascem com um potencial e têm direito a desenvolvê-lo;

4) a afirmação de que, para desenvolver o seu potencial, as pessoas precisam de oportunidades;

5) a percepção de que aquilo que uma pessoa se torna ao longo de sua vida depende de duas coisas: das oportunidades que teve e das escolhas que fez;

6) a consciência de que as pessoas, além de terem acesso a oportunidades, precisam ser preparadas para fazer escolhas fundadas numa visão racional da vida e nos valores incorporados ao longo de sua formação;

7) a certeza de que, para ocorrer o desenvolvimento humano, as pessoas, grupos e comunidades devem ser dotados de poder, isto é, de ter o seu ponto de vista levado em conta e de participar ativamente das decisões que as afetam;

8) a consciência de que cada geração deve deixar para as gerações vindouras um meio ambiente igual ou melhor do que o recebido das gerações anteriores;

9) a convicção de que o caminho para a construção de uma sociedade com base nesses princípios passa pela promoção e garantia dos direitos humanos básicos: direitos civis, políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais;

10) a certeza de que a afirmação da cidadania, enquanto direito de ter direitos e dever de ter deveres, é o caminho para fazer valer os direitos reconhecidos na ordem jurídica nacional e internacional.

Como se vê, a educação pulsa no coração de cada um dos princípios que constituem o Paradigma do Desenvolvimento Humano. Na medida em que esse paradigma for se afirmando, a educação deixará de ser vista como política setorial, para ser assumida pelas nações como política estratégica da qual depende cada vez mais o desenvolvimento econômico, social e político dos povos no século XXI.

 

6) Como me vejo neste novo mundo

Como pessoa, como profissional e como cidadão, como eu me situo frente às novas realidades de um mundo que se transforma com uma rapidez, uma profundidade e uma abrangência jamais vistas na história humana?

Quantos de nós, com outras palavras, já não se indagaram sobre esta mesma questão? Como ver, entender e agir frente às novas realidades? Uma coisa todos nós já sabemos muito bem: não adianta mais continuar fazendo as coisas do mesmo jeito e querer, no final, resultados diferentes. A busca incessante do aperfeiçoamento, ou seja, da melhoria da qualidade do que fazemos, tornou-se um imperativo de sobrevivência.

Não existe mais idade de formação. Qualquer profissional e, mais do que outros, nós educadores, deveremos estar conscientes de que a idade de formação começa nos primeiros anos de vida e não termina nunca. Portanto, é necessário que estejamos dispostos, se quisermos ensinar, a seguir aprendendo ao longo de toda a nossa vida.

Não basta, no entanto, que estejamos dispostos a aprender mais e a incorporar isso no que fazemos, aprimorando nosso trabalho. Precisamos estar dispostos a mudar nossos paradigmas. Mudar paradigmas é mudar a nossa compreensão e a nossa ação diante a realidade. Por exemplo, deixar de agir no modelo do dano e passar a agir no modelo do desafio é uma mudança de paradigma. Deixar de ver nossos adolescentes como problemas e passar a vê-los como solução é outro exemplo importante de mudança paradigmática.

Uma decisão muito importante frente às novas realidades é chamar a si a responsabilidade pelo seu próprio processo de educação permanente. É uma temeridade, nos dias de hoje, uma pessoa deixar a sua atualização humana e profissional nas mãos da área de recursos humanos da organização para qual trabalha. O novo entendimento é que esta é uma função indelegável no novo mundo do trabalho. A idéia é que cada pessoa administre ela própria o desenvolvimento de suas habilidades. Se esta é uma regra que vale para todos, para o professor ela é particularmente verdadeira.

No que diz respeito às novas tecnologias é importante que o professor esteja aberto para elas e saiba utilizá-las no desenvolvimento de sua ação educativa. É preciso, no entanto, deixar claro que elas não substituem uma relação interpessoal de qualidade com seus educandos. Se os alunos não se sentem compreendidos e aceitos pela escola, sua relação com ela será marcada pela ambigüidade, quando não pela hostilidade pura e simples. Como já dissemos, se a questão relacional na escola não for bem resolvida e encaminhada, a própria transmissão dos conteúdos acaba se inviabilizando.

Se compreendido como uma ação educativa, fica claro que o papel do professor vai além da docência. Sua atuação em outros âmbitos do espaço escolar, extrapolando a sala de aula, é de fundamental importância, como veremos mais adiante, para a ampliação dos momentos e das oportunidades para o exercício de uma influência construtiva sobre os educandos. As práticas e vivências, um nome mais digno para o que se convencionou chamar de atividades extraclasse, são um espaço privilegiado para que os educandos possam aprender pelo curso dos acontecimentos e não apenas pelo discurso das palavras.

A comunidade ou o entorno sóciofamiliar da escola não deve ser vista apenas como espaço de ir e vir dos educandos, ela deve ser entendida como agente educativo comprometido com o desenvolvimento pessoal e social dos adolescentes. Cabe ao professor explorar essas possibilidades, buscando, não apenas recursos materiais e espaços na vida comunitária, mas também e fundamentalmente as suas riquezas não-materiais, que estão incorporadas nas pessoas, nos grupos e nas organizações, em termos de sabedoria, arte, cultura e tecnologia.

Nesta perspectiva, o professor torna-se uma ponte entre o educando e seu entorno, possibilitando-lhe o estabelecimento de uma relação pedagogicamente qualificada com o mundo natural e humano que o rodeia.

O professor, como acabamos de ver, situa-se no centro de um nó de relações. Ele ou ela se relaciona com seus alunos e com os familiares destes, com a direção da escola e com o sistema de ensino, com a comunidade onde a escola se situa e com a sociedade no sentido mais amplo. Em cada uma destas relações sempre alguma coisa de importante está em jogo. Por isso, o professor, ao situar-se nesse contexto, deve fazê-lo indagando acerca de seu papel e da sua responsabilidade enquanto pessoa, enquanto profissional e enquanto cidadão.

Reflita sobre tudo isto e tire, você próprio, suas conclusões.

 

7) A Escola, meu Espaço de Atuação

A escola é o espaço da realização do educador, como pessoa, como profissional, como educador. A visão de si mesmo e a visão do mundo que tem o educador se revestem de concretude e de autenticidade, na medida em que transparecem na sua atuação junto aos educandos.

Lugar de aprendizado, a escola é um espaço de crescimento, tanto para o educando, como para o próprio educador. Gosto de pensar em uma boa escola como um educador coletivo estruturado subjetiva (pessoas) e objetivamente (espaços e materiais) para empreender a ação educativa.

A estrutura subjetiva da escola são as pessoas. Todo adulto que trabalha na escola, mesmo que não seja um docente, um dirigente ou um técnico em educação é um educador, pois, pode com as suas atitudes exercer deliberadamente uma influência construtiva sobre os educandos. Porém, a estrutura subjetiva da escola não se resume às pessoas. Ela se refere também àquilo que as une, ou seja, ao propósito educativo comum expresso no projeto pedagógico daquela comunidade educativa.

O projeto pedagógico tem dupla natureza. Ele é um plano de trabalho e também um pacto. Enquanto plano de trabalho, contém objetivos, metas, estratégias, prazos e responsabilidades e concatena os esforços de toda a equipe para a obtenção dos resultados estabelecidos no plano. Enquanto pacto, o projeto pedagógico concretiza e expressa a aliança dos membros daquela comunidade educativa em torno de um conjunto de princípios e concepções, que têm a finalidade de sustentar a ação cotidiana de cada educador em sua disciplina ou setor de atuação.

A estrutura objetiva do educador coletivo é constituída pela estrutura física: o prédio e os espaços escolares e por todos os móveis e outros materiais que co-habitam esses espaços. Se repararmos bem, veremos que na própria arquitetura do prédio escolar já existe uma proposta de estruturação da interação das pessoas no cotidiano, que pode ou não ser coerente com a proposta educativa que ali se desenvolve num momento dado.

Quando visito uma escola, sempre penso que o banheiro dos alunos e também aqueles usado pelos os professores irão me dizer mais sobre aquele educador coletivo do que o gabinete do diretor, a biblioteca ou as salas destinadas à equipe técnica.

Cláudio Moura Castro, também ele um visitador atento e amoroso das escolas, há algum tempo, escreveu na revista “Veja” que raramente visita uma boa escola, em termos administrativos e acadêmicos, em que o banheiro não exiba um padrão correspondente de higiene, de organização e de respeito pela dignidade dos usuários. Da mesma forma, escolas com banheiros sujos e desorganizados raramente apresentarão resultados administrativos e acadêmicos de primeira linha.

Um tapete para limpar os pés, coletores de lixo, vasos de plantas e gravuras e cartazes bonitos e criativos nas paredes são, todos eles, o que chamo de educadores subjetivos, materiais de uso diários, objetos dispostos estrategicamente nos espaços; sem dúvida alguma, exercem uma influência construtiva sobre todos que convivem em um determinado ambiente.

A sala de aula é o coração da escola, pois é neste espaço que os alunos e professores passam a maior parte de seu tempo. A sala de aula foi inventada para ser o espaço de aula expositiva. Todas as outras atividades que ali possam ocorrer, como as atividades em pequenos grupos, o grande círculo ou as atividades desenvolvidas com os alunos de pé ou sentados diretamente no piso são fruto dos esforços de gerações e gerações de professores empenhados em reinventar o uso deste espaço que tanto tem de quadrado como de enquadrador do olhar, do tempo, dos corpos e -- se não tomarmos muito cuidado - também das idéias e emoções das pessoas que nele convivem.

O educador deve estar consciente das potencialidades e também dos limites da sala de aula como espaço educativo e deve pensá-lo na sua incompletude. Procurando suprir suas limitações com o uso mais criativo de seus espaços e equipamentos, não se esquecendo de “completá-la” com atividades na biblioteca, no pátio, nos laboratórios, nas quadras e mesmo em espaços da comunidade, quando a atividade que se pretende desenvolver assim o exigir.

A maneira como os educadores e educandos se apropriam e utilizam os espaços e equipamentos existentes na escola são reveladores da concepção de educação, ou seja, da ação educativa vigente numa determinada comunidade escolar. O educador experiente pode visitar uma escola vazia, por exemplo, numa tarde de domingo. Pela simples observação do espaço físico e dos objetos nele dispostos, ele poderá nos dizer muita coisa sobre a realidade humana, pedagógica e organizacional daquela comunidade educativa.

 

8) Ser Professor: Significado e Sentido

Para refletirmos sobre o significado e o sentido de ser professor, temos antes que refletir por um instante sobre estes dois termos - significado e sentido - em si mesmos e, somente depois disso, aplicá-los à condição do profissional do magistério nos dias de hoje.

Significar alguém ou alguma coisa é assumir diante dessa pessoa ou objeto uma atitude de não-indiferença, atribuindo-lhe um determinado valor para a nossa existência. Quando assumimos, diante do que quer que seja, uma atitude de indiferença, isso significa que aquilo não tem para nós valor algum. Quando, ao contrário, significamos algo, essa significação poderá ser positiva (valor) ou negativa (contra-valor ou anti-valor).

Significar, portanto, é valorizar alguma coisa positiva ou negativamente. O que é um valor? Ítalo Gastaldi define valor como tudo aquilo que é capaz de tirar o homem de sua indiferença e fazê-lo inclinar-se, fazê-lo dirigir-se nesta ou naquela direção.

Os valores não existem objetivamente. Os valores funcionam em nossas vidas, não no momento em que falamos ou escrevemos sobre eles, mas nos momentos em que decidimos e agimos tomando-os por fundamento, por base em nossas ações. Por isso o filósofo alemão Max Scheller afirma que “as coisas existem, os valores valem”.

Quando os valores valem? Os valores valem quando pesam na balança de nossas tomadas de decisão, os valores valem quando fazem inclinar nossas atitudes ou nossa conduta numa direção e, não, em outra.

Os valores, ao fazerem nossas decisões e ações tomarem um determinado rumo, estão funcionando como a fonte do sentido de nossas opções e escolhas, de nossas decisões, atos, atitudes e ações.

Em termos de existência humana, costumo dizer que o sentido é aquela linha pontilhada (caminho não percorrido) entre o ser e o querer-ser. O querer ser de todo ser humano normal é a sua auto-realização, a sua busca de plenitude humana. Como já disse Erich Fromm, a grande tarefa do ser humano é tornar-se o parteiro de si mesmo, realizando o seu potencial, ou seja, tornando realidade aquelas promessas que cada um de nós traz consigo ao vir a este mundo.

Feitas estas considerações, podemos agora introduzir as questões fundamentais: Qual o significado da educação em sua vida? O que o fez optar pelo magistério? O que pesou no momento de sua escolha por esta profissão, por esta missão, por este caminho de vida? Em que momento você se sente realizado como educador? Por que isso ocorre?

Penso que muitos educadores, ao lerem este trecho, estarão pensando: -- Ele não falou em salário, não está dizendo nada sobre plano de carreira, não mencionou as condições de trabalho nem a capacitação permanente em serviço e fora dele. Será que ele está se esquecendo de que o professor é um trabalhador e que estas questões não podem ser ignoradas?

Respondo-lhes com um esquema, cuja a idéia central, de tão brilhante, jamais deixou de cintilar em minha mente, quando trato deste assunto. Trata-se da motivação para o trabalho. Trata-se da postura diante do trabalho vista pelo ângulo da motivação.

Existem basicamente dois tipos de motivação no mundo do trabalho: as motivações materiais e as motivações não-materiais. As diversas formas como elas se combinam nos dão as atitudes básicas das pessoas no mundo do trabalho. Vejamos a representação gráfica das quatro combinações possíveis:

 

Missionário  Profissional
não-material não-material
material material
   
Demissionário Mercenário
não-material não-material
material material


[No vertical, de baixo para cima, aumentam as Motivações Não-Materiais; no horizontal, da esquerda para a direita, aumentam as Motivações Materiais]

Demissionário - Tem motivações tanto materiais como não-materiais bastante baixas.

Missionário - Tem motivações não-materiais altas e ambições materiais baixas.

Mercenário - Tem baixo nível de motivações não-materiais e alto nível de motivações materiais.

Profissional - Tem alto nível de motivação não-material e também um alto nível de motivações materiais.

E você? Em quais destes perfis você melhor se enquadra?

 

(*) Este texto é o Capítulo 1 do livro O Professor Como Educador, de Antonio Carlos Gomes da Costa (Fundação Luís Eduardo Magalhães, Salvador, 2001), pp. 18-59.