O “Sua Escola” – Aspectos Teóricos e Práticos
A Propósito de uma Visita a Araxá
Eduardo O C Chaves
Minha viagem a Araxá não foi pelo Instituto – foi a convite da Secretaria Municipal da Educação. Falei com os professores de Araxá na sexta-feira de manhã, durante quatro horas (8 às 12: horário de chegada, observado, era 7:30 da manhã!) -- uma audiência de cerca de mil professores das redes municipal e estadual. À tarde falou o Secretário Estadual da Educação, Prof. Murílio Hingel, ex-Ministro da Educação do governo Itamar Franco (que fez uma excelente palestra, baseada em Edgard Morin).
Na minha palestra, falei bastante sobre o “Sua Escola a 2000 por Hora”, mostrei fotos de Faxinal do Céu e sugeri à Secretária Municipal da Educação, ao Prefeito e, posteriormente, ao Secretário Estadual da Educação, que criassem em Araxá algo semelhante a Faxinal do Céu: um centro de capacitação permanente dos recursos humanos envolvidos na educação (inclusive alunos).
No sábado à noite pude conversar com alguns professores da Escola Municipal Profa. Leonilda Montandon, o CAIC, que é a escola parceira do “Sua Escola” em Araxá, na casa da Diretora da Escola, Marlene das Dores Ribeiro, que vocês conheceram em Faxinal. Discutimos questões práticas e conceituais. Senti que, apesar de o entusiasmo ainda estar alto, ele corre o risco de esfriar se não houver, no plano teórico, um entendimento muito claro do essencial do Programa e, no plano prático, a adoção imediata de algumas medidas que façam as coisas andar de forma coerente com o entendimento do Programa.
Por isso, vou colocar, a seguir, o meu entendimento do Programa “Sua Escola a 2000 por Hora”, para, depois, fazer algumas sugestões práticas. Estou falando em nome pessoal, mas creio que o meu entendimento do Programa está em harmonia com o entendimento do próprio Instituto Ayrton Senna.
1. O Programa “Sua Escola a 2000 por Hora”: Aspectos Conceituais
O objetivo principal do Programa "Sua Escola a 2000 por Hora" é melhorar a qualidade da educação. Mas isto, todo mundo quer e muitos tentam alcançar. Só isso não faria o Programa muito especial.
A estratégia principal que o Programa se propõe utilizar para alcançar esse objetivo é o uso criativo e inovador da tecnologia. Aqui começa o diferencial do Programa “Sua Escola a 2000 por Hora” – mas mesmo essa afirmação, por si só, não dá ao Programa um “DNA próprio”.
Creio que o “DNA” do “Sua Escola” começa a emergir quando detalhamos os demais princípios em que o Programa se alicerça.
O “Sua Escola” entende que usar a tecnologia na educação de forma inovadora e criativa implica usá-la para alavancar o processo de invenção / descoberta de novas formas de ensinar e aprender que coloquem os alunos em controle de sua própria aprendizagem e integrem a escola com a comunidade e a educação com a vida.
O “Sua Escola” acredita que, para conseguir isso, é preciso defender uma visão da educação como desenvolvimento de competências e habilidades que se processa principalmente através do trabalho transdisciplinar com projetos de aprendizagem (trabalho esse que seria a melhor metodologia para promover essa visão da educação). [Todos os princípios básicos do Programa enunciados em minha primeira fala em Faxinal do Céu estão contemplados nos últimos parágrafos].
Não tenhamos ilusão de que será fácil alcançar o que pretendemos, porque pretendemos nada mais, nada menos, do que reeinventar a escola – ou, se preferirem, promover a sua “reengenharia”. E essa “reinvenção” ou “reengenharia” tem que ocorrer com a escola em pleno funcionamento, debaixo do paradigma antigo.
As escolas-parceiras não podem parar ou interromper, durante um ano, suas atividades de cunho convencional (cumprimento da grade curricular através de aulas), para testar um novo modelo de trabalho. Elas precisam ir mudando, pouco a pouco, mas com muita clareza acerca de onde querem chegar. Grandes mudanças repentinas causam muito sobressalto e podem até trazer resultados negativos, que venham a comprometer o novo modelo de escola que se pretende alcançar. É preciso ter cuidado, mas sem deixar que esse cuidado comprometa o trabalho que precisa ser feito.
Por isso estamos tentando tirar uma “fotografia” da escola como ela era no início (o “marco zero”): para podermos, ao final do ano, aferir quanto ela andou na direção do novo modelo de trabalho que acreditamos vá representar uma melhoria significativa na qualidade da educação que a escola ministra. Umas vão andar mais, outras menos. Mas todas precisam ter muita clareza acerca de onde desejam chegar. Por isso esse resumo inicial dos objetivos e das estratégias do Programa “Sua Escola”. Talvez devêssemos até fazer um quadrinho com esses princípios claramente explicitados.
Mas só clareza acerca de ONDE QUEREMOS CHEGAR não basta. É preciso saber COMO CHEGAR LÁ.
Constatei, em Araxá, que as pessoas que participaram da Semana de Imersão e várias outras têm bastante clareza sobre onde desejam chegar – mas estão meio perdidas sobre como começar (enquanto as aulas continuam, as tarefas do dia-a-dia nos chamam, os conflitos pessoais, pequenos ou grandes, afloram, à medida que o projeto traz à tona novas lideranças...).
Por isso, de sábado para domingo, depois da longa conversa com o pessoal da escola, quase não dormi. Peguei um bloco de notas e comecei a listar, de forma meio aleatória, providências que as escolas poderiam tomar que representassem, para elas, especialmente para aquelas que estão com alguma dificuldade para conseguir que as coisas andem, uma “démarrage” (uma arrancada).
2. O Programa “Sua Escola a 2000 por Hora”: Aspectos Práticos
No que foi dito na seção anterior não se fez referência ao projeto da escola (o projeto que ela elaborou para concorrer ao concurso). Mas o projeto é, de certa forma, a estratégia básica de que a escola dispõe para começar a transformar a escola, do que ela é, para o que desejamos que ela se torne (“da escola que temos para a escola que queremos”).
O projeto, porém, ao mesmo tempo que pode ajudar, pode também atrapalhar um pouco.
Estamos vendo, em algumas escolas, conflitos entre professores sobre “de quem é o projeto”. Para o Instituto, o projeto é da escola, que o enviou. Dentro da escola, porém, há professores que se consideram meio “donos” do projeto, às vezes porque foram eles que tiveram a idéia de participar do concurso, às vezes porque foram eles que lideraram o processo de redação do projeto, etc.
Além disso, o projeto às vezes foi concebido de tal forma que fica difícil para algumas pessoas (professores e alunos) “se encaixar” nele. A reflexão sobre o projeto que aconteceu (ou deveria ter acontecido) em Faxinal do Céu tinha por objetivo principal rever o projeto, dentro de um entendimento mais claro dos objetivos e dos princípios básicos do Programa “Sua Escola”, para permitir que a escola inteira (alunos, professores, diretor) se envolvesse nele (mesmo sabendo que seria difícil, em alguns casos, que “toda a escola” viesse a se envolver).
Em virtude desses problemas, gostaria de sugerir algumas idéias que me ocorreram na noite de 2 para 3 de junho que podem ajudar as escolas a “arrancar”. Vocês certamente notarão que algumas das idéias aqui aventadas são hipóteses a serem testadas em nossa tentativa de chegar a uma “tecnologia social”.
a) Colocar numa parede da escola, um mural, feito com aquele papel usado em Faxinal (não me lembro de como se chama), explicitando qual é a escola que queremos – tanto em seus aspectos propriamente pedagógicos (possibilidades de aprendizagem) quanto no que diz respeito às práticas de gestão, ao nível de participação dos vários segmentos, às relações interpessoais, ao grau de integração com a comunidade, à aparência do prédio e das instalações, etc. Todos os membros da comunidade escolar poderiam acrescentar suas contribuições a essa descrição da escola dos nossos sonhos e o produto ficaria ali, diariamente, à vista de todos.
b) Colocar, em uma parede em frente (ou, não sendo possível, ao lado do anterior), um outro mural, explicitando características da escola atual que precisam ser mudadas, para que a escola caminhe na direção da escola que queremos. (Como alguns podem ter receio de explicitar isso, é concebível que se coloque uma caixinha de sugestões embaixo do mural, em que as pessoas deixem contribuições anônimas, e alguém, especialmente incumbido desta tarefa, transcreva para o mural as sugestões feitas. É importante que as contribuições sejam vistas como sugestões de melhoria da escola e não como críticas).
c) Num lugar perto, um terceiro mural, explicitando “PEQUENAS AÇÕES, GRANDES CONQUISTAS”, isto é, o que já foi tentado, ainda que de dimensões pequenas, mas com sucesso, para aproximar a escola que temos da escola que queremos. A ênfase aqui está em resultados alcançados.
d) Num outro lugar, perto, um quarto mural explicitaria “PEQUENAS IDÉIAS QUE PODEM SE TORNAR GRANDES CONQUISTAS” – ou seja, idéias que, colocadas em prática, poderiam passar para o mural anterior.
e) Dentro das salas de aula, professores e alunos poderiam fazer murais em que se listassem projetos que pudessem ser desenvolvidos dentro da disciplina ou, preferivelmente, em conjunto com outras disciplinas ou até mesmo envolvendo a escola inteira (incluindo atividades disciplinares, interdisciplinares ou transdisciplinares, excursões, reuniões, palestras, etc.). Designar alguém (um pequeno grupo de alunos, de cada classe), para reunir e integrar essas sugestões.
[NOTA: Esses vários murais constituem várias partes do “webfolio” da escola. Quando os computadores estiverem devidamente instalados e a Internet estiver funcionando, esses murais podem ser colocados no site da escola e todos nós poderemos ter informações interessantes sobre todas as escolas, o que nos permitirá interagir, discutir, sugerir de forma bem mais apta. Aí está um contexto em que fazer sites se justifica, mesmo que eles ficassem, no momento, no plano de uma rede envolvendo apenas as escolas-parceiras].
f) Reservar um espaço, na semana, para que o turno todo se reúna e as conquistas, grandes ou pequenas, sejam comemoradas e as pessoas que contribuiram mais significativamente para elas sejam reconhecidas.
g) Dar a cada professor a missão de reduzir em um terço o conteúdo que agora ministra na forma de aulas tradicionais -- este seria o “racionamento de informações” que cada professor deve livremente assumir.
h) À vista da sugestão anterior, reduzir em um terço o número de horas em sala de aula (aulas) de cada professor (sem perda de remuneração), alocando o tempo assim ganho para trabalho comum, de natureza interdisciplinar ou, preferivelmente, transdisciplinar, a ser discutido coletivamente (com a presença dos alunos, naturalmente).
i) Adicionalmente, considerar a possibilidade de, havendo três aulas de uma disciplina, reduzir para duas e eliminar o recreio entre elas. A aula sendo substituída por atividades relacionadas a projetos de aprendizagem, um recreio a cada 50 minutos se torna desnecessário, porque o trabalho nos projetos é “revigorante”. O professor, entretanto, continuaria ganhando pelas três horas, porque no horário da terceira aula estaria envolvido na orientação de projetos.
j) Para viabilizar projetos interdisciplinares ou transdisciplinares que contribuam para o desenvolvimento de competências e habilidades básicas nos alunos, promover reuniões quinzenais da comunidade escolar para elaborar um quadro de competências e habilidades básicas (cognitivas, psico-motoras, afetivo-emocionais, interpessoais, etc.) para cujo desenvolvimento a escola deve contribuir.
k) Complementarmente, e também para viabilizar a boa execução de projetos de aprendizagem, a comunidade escolar poderia periodicamente discutir quais dos conteúdos disciplinares que sobreviveram ao “racionamento de 33%” poderim, com vantagens, ser desenvolvidos através de projetos interdisciplinares ou transdisciplinares.
l) Tratar os temas transversais (droga, sexualidade, violência, meio ambiente, saúde, consumo, etc.) no bojo de projetos interdisciplinares ou transdisciplinares, não no contexto das aulas (disciplinas), concentrando-se na discussão daqueles temas mais relevantes para a comunidade.
m) Estimular os alunos a criar os seus espaços e a se organizar, reservando-lhes até mesmo uma sala, à semelhança da “Sala dos Professores”. A sala pode ser usada para as atividades relacionadas ao projeto da escola ou para a sede do Grêmio Estudantil.
n) Estimular os alunos a, com a participação dos professores, usar a música (corais, orfeões, conjuntos, bandas, etc.), a poesia, as artes cênicas, as artes plásticas (desenho, pintura, escultura), o esporte, atividades comunitárias (hortas, jardins), etc. para deixar claro que a educação (mesmo a escolar) não envolve apenas os aspectos cognitivos, mas abrange, também, o aspecto afetivo-emocional, psico-motor, interpessoal (trabalho em equipes), etc.
o) Estimular os alunos a criar foruns que debatam as questões relativas à escola e à comunidade e que discutam reivindicações e sugestões a serem encaminhadas para o poder público municipal e a melhor forma de encaminhá-las e de lhes granjear apoio.
p) Deixar claro, para os pais, para as autoridades da Secretaria da Educação, e demais interessados na escola (“stakeholders”) o que está acontecendo na escola e porquê, e buscar o seu apoio.
q) Procurar envolver a comunidade extra-escolar (além da família dos alunos) nas transformações que estarão acontecendo dentro da escola, através de projetos como, por exemplo, a criação de Bolsas de Empregos e programas de capacitação de desempregados para melhorar a sua empregabilidade (como em Santa Bárbara d’Oeste), a criação de foruns de discussão de questões importantes na vida da comunidade (saúde coletiva, doenças infecciosas [dengue, AIDS], controle da natalidade, combate às drogas, combate à violência [inclusive familiar], etc.), a mobilização da comunidade para reivindicar seus direitos e outras melhorias na qualidade de sua vida, etc.
r) Explorar outras formas em que a escola pode ajudar os alunos a ajudar seus pais, suas famílias e sua comunidade.
s) Fazer parcerias com empresas e outras instituições da comunidade, visando integrar os alunos às várias atividades produtivas, comerciais ou de serviços (lucrativos ou não) e a trazer, para dentro da escola, pessoas que possam explicar, de forma concreta, para os alunos como funcionam suas áreas de atividades.
t) Transformar a APM - Associação de Pais e Mestres em APAMA – Associação de Pais, Alunos, Mestres e Amigos da Escola.
u) Estimular a APAMA, em especial os alunos e seus pais, com o acompanhamento dos professores e da direção da escola, a organizar e operar, dentro da escola, nos limites da lei, cantinas, centros de cópia e encadernação, papelaria, lojinhas de conveniência, festas juninas, etc., usando para tanto o tempo que tiverem livres, e procurando imprimir às atividades um cunho educacional e não apenas comercial ou recreativo.
v) Usar as dependências da escola, nos períodos ociosos, em especial nos finais de semana e feriados, para atividades esportivas e recreativas.
w) Envolver toda a comunidade escolar num esforço coletivo gigante de melhorar a qualidade de vida dentro da escola em todos os seus aspectos, para que o vir à escola e o nela permanecer se tornem atividades prazerosas.
x) Todas as vezes que tiverem necessidades ou encontrarem problemas, os vários segmentos da escola devem chiar, gritar e apelar, seja através das listas de discussão, seja através de e-mails para a Coordenação ou para o Orientador, seja através do contato presencial com o Orientador, que, é bom que se diga, deve ser objeto de cuidadosa preparação por parte da escola, para que esta possa deixar claro, para o Orientador, quais são as suas necessidades, e, assim, aproveitar bem a sua estada na escola.
Eduardo Chaves
Araxá, 2-3 de Junho de 2001
(c) Eduardo O C Chaves
02-May-2004 19:40