A Pedagogia dos Projetos de Aprendizagem

Eduardo O C Chaves

[Texto ainda inconcluso – apenas para uso interno]

 

I. Introdução: A Escola e o Trabalho por Projetos

II. A Pedagogia de Projetos de Aprendizagem

III. A Operacionalização de Projetos de Aprendizagem na Escola

1. A Pedagogia de Projetos e a Grade Curricular Tradicional

2. A Pedagogia de Projetos e o Papel dos Conteúdos Disciplinares

3. A Pedagogia de Projetos e o Papel dos Professores

IV. O Conceito de Projeto

1. O que é um Projeto?

2. Projetos dentro de Projetos

3. Projetos, Tarefas Executáveis e Atividades

4. A Seqüenciação

V. As Etapas de um Projeto

1. A Etapa de Planejamento do Projeto

A. Realizar Sonhos e Resolver Problemas

B. Decisões e Propósitos

C. Projetos e Planos

D. Recursos Humanos e Materiais

E. Cronogramas: A Variável Tempo

F. Orçamentos: A Variável Dinheiro

2. A Etapa de Implementação do Projeto

A. Organização

B. Coordenação

C. Execução

3. A Etapa de Avaliação do Projeto

A. Definição de Indicadores

B. Monitoramento

C. Controle / Replanejamento

VI. Projetos de Vida

 

 

I. Introdução: A Escola e o Trabalho por Projetos

Hoje em dia se ouve falar muito, em contextos escolares, da importância do trabalho por projetos. Diretores de escolas freqüentemente se orgulham do fato (que alegam) de que em suas escolas só se trabalha por projetos. Coordenadores pedagógicos às vezes destacam o fato (segundo afirmam) de que em suas escolas há projetos que vêm sendo desenvolvidos há anos... E assim por diante.

Há muitas coisas que a expressão “trabalho por projetos” pode significar em um contexto escolar. De pronto distinguirei três de seus sentidos. Ao dizer que a escola trabalha por projetos:
 


Esse terceiro sentido da expressão aponta para uma nova Metodologia de Aprendizagem – que chamaremos aqui de “Pedagogia de Projetos de Aprendizagem”.

Por isso, antes de falar na “mecânica” do desenvolvimento de projetos, vou falar sobre essa nova visão pedagógica.


II. A Pedagogia de Projetos de Aprendizagem

Um grande educador, Antonio Carlos Rodrigues de Moraes, hoje assessor da Secretária de Educação do município de Campinas, disse uma vez que educação é o processo pelo qual nos tornamos capazes de viver os próprios sonhos – e que o bom mestre é, portanto, um pastor de sonhos...

Essa é uma formulação bastante poética do conceito de educação, mas não é uma formulação inadequada.

Mais técnica e menos poeticamente, educação, em seu sentido mais amplo, é o processo mediante o qual as pessoas desenvolvem as competências necessárias para viver vidas autônomas,  produtivas e responsáveis, tanto no plano individual (privado) como no social (público).

Notem bem: educar é desenvolver as competências que tornam uma pessoa capaz de viver uma vida autônoma, produtiva e responsável.

Sempre se soube que é possível que uns ajudem os outros a se educarem.

Os pais, os primeiros educadores, sabem disso. Às vezes vão além além e, em vez de ajudar os seus filhos a se educarem, imaginam que podem, eles próprios, educar os seus filhos... com resultados nem sempre desejáveis.

A escola é construída no princípio de que é possível que uns ajudem os outros a se educarem. Mas também ela freqüentemente tenta ir além e reivindica para si um pretenso direito de educar os outros...

“Ninguém educa ninguém”, nos lembra o mestre Paulo Freire numa bela página de Pedagogia do Oprimido [Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, RJ, 6ª edição, 1979, p.79]. Se ele parasse aí, não haveria por que termos escolas. Mas ele continua: mas “ninguém se educa a si mesmo”.

Mas como pode se dar a educação, se ninguém educa ninguém e ninguém se educa a si mesmo? A resposta de Paulo Freire é clara e difícil de contestar: “os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. Em outras palavras: ninguém educa ninguém – mas ninguém se educa sozinho...

O ser humano se educa quando ele se põe em contato, em diálogo, “em comunhão” com outros seres humanos, e, juntos, refletem sobre os seus sonhos e a realidade, freqüentemente dura, que precisarão transformar para que seus sonhos possam se tornar realidade.

Para que haja educação é necessário que nos tornemos capazes de viver nossos próprios sonhos – não os sonhos dos outros.

Para que vivamos nossos próprios sonhos é preciso, em primeiro lugar, (re)aprender a sonhar – ou não deixar que a realidade, por vezes dura, nos leve a desaprender a arte de sonhar. Mas é preciso, em segundo lugar, aprender como transformar um sonho em  realidade. Nossos sonhos não vão se transformar em realidade apenas porque os sonhamos. Somos nós que temos de transformá-los em realidade. “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer” – quem nos lembra disso é Geraldo Vandré, que teve alguns lindos sonhos, mas não pôde torná-los realidade.

Pastorear sonhos, que, segundo Antonio Carlos Rodrigues de Moraes, é a missão do educador, não é dar “sonhos prontos”, empacotados, às pessoas – procurando, assim fazer com que elas eventualmente realizem sonhos sonhados por terceiros. Educar, ou pastorear sonhos, é ajudar as pessoas, primeiro, a sonhar seus próprios sonhos – a construir seus próprios projetos de vida – e, segundo, a encontrar as melhores maneiras de transformá-los em realidade.

Às vezes educadores criticam o cinema e a televisão (neste caso, especialmente as novelas e a publicidade), porque o cinema e a televisão estariam tentando dar “sonhos prontos”, empacotados, para quem assiste aos seus filmes e programas – especialmente para as crianças e os jovens, que seriam extremamente sensíveis a essa “venda de sonhos”. Não seria à toa que Hollywood já foi chamada de “fábrica de sonhos”.

Mas os educadores muitas vezes se esquecem de que a escola, também, muitas vezes não ajuda as crianças, adolescentes e jovens a viver SEUS PRÓPRIOS sonhos.

Na verdade, fala-se muito pouco em sonhos na escola. Mas talvez isto se dê porque estejamos, na escola, muito mais preocupados em passar para os alunos os nossos próprios sonhos – ou, o que é pior, os sonhos de autores de livros que nem conhecemos ou os sonhos de secretários e ministros da educação que preferiríamos nem conhecer...

Quando os alunos chegam a uma escola típica, não têm, em geral, como trabalhar ali seus próprios sonhos.

Se, nessa escola, se fala em projetos, geralmente é no “projeto pedagógico” da escola. Se os professores se interessam em projetos, é, geralmente, de “projetos de ensino” que se trata. Olhando para uma escola desse tipo, do ponto de vista dos alunos (e é em função deles que a escola existe, não é?), os projetos já vêm todos prontos – só resta executá-los.

Como é que os alunos vêem a escola? Temos que aprender a ler, a escrever e a contar, mesmo que não saibamos exatamente o porquê. Temos que estudar história de povos que viveram milhares de anos antes de nós e em lugares longínquos: os mesopotâmios, os hebreus, os persas, os assírios, os fenícios, os gregos, os romanos... – tudo sem saber exatamente o porquê. Temos que ficar sabendo qual a altura dos picos mais altos, o comprimento dos rios mais longos, o nome de seus afluentes, na margem direita e e na margem esquerda, o nome da capital de todos os países... tudo sem saber exatamente o porquê. Temos que aprender o que é adjunto adnominal e como se distingue do complemento nominal, o que é oração subordinada substantiva objetiva (direta ou indireta) e como se distingue de uma oração subordinada substantiva completiva nominal – tudo sem saber exatamente o porquê.

Encarada do ponto de vista dos alunos, a escola não está muito interessada nas perguntas que eles têm – nem os ajuda a aprender como formular perguntas interessantes! A escola tenta, isto sim, fazer com que os alunos aprendam as respostas – mas respostas a perguntas em que não estão nem um pouco interessados...

Assim, em vez de tratar das questões que realmente interessam os alunos, a escola tenta fazer com que eles se interessem por coisas que, em geral, estão muito distantes de sua vida, de sua realidade – de seus sonhos!

A escola não tenta descobrir quais são os sonhos dos alunos, não leva em conta aquilo de que eles gostam, não explora o que lhes interessa ou que eles sabem bem, ou que sabem fazer bem. (Na verdade, se os alunos fazem algo com facilidade e gosto, em geral os professores os “desincentivam” de fazer aquilo e procuram levá-los a fazer algo em que têm dificuldade e que não gostam de fazer...). 

É por isso que o maior desafio da escola é motivar os alunos – fazer com que se interessem em aprender aquilo que o professor está tentando ensinar e que, em geral, está muito distante de seus interesses.

Seria tão mais fácil começar com aquilo que já os motiva naturalmente! Antes de chegar à escola as crianças são altamente motivadas para aprender – mas para aprender o que lhes interessa, o que lhes provoca a curiosidade, o que lhes desafia a engenhosidade...

Por que a escola não aproveita essa natural curiosidade, essa natural vontade de aprender, esse inclinação – esse quase instinto – para resolver problemas e vencer desafios?

Para a escola, os alunos têm que aprender – mas o aprender em geral é um aprender passivo, puramente verbal e teórico: um assimilar de informações desconexas (divididas em disciplinas estanques) que, muitas vezes, não fazem o menor sentido, e, por isso mesmo, são facilmente esquecidas. Na escola os alunos precisam aprender respostas para perguntas que não têm.

A proposta de que a aprendizagem escolar se faça predominantemente por projetos de aprendizagem – a pedagogia de projetos – procura reverter esse quadro, e de várias maneiras, dentre as quais seleciono as que me parecem mais importantes:
 


III. A Operacionalização de Projetos de Aprendizagem na Escola


1. A Pedagogia de Projetos e a Grade Curricular Tradicional


Embora seja possível executar projetos de aprendizagem na escola ao mesmo tempo que se cumpre uma grade curricular convencional, os projetos, neste caso, ficam sobrepostos ao currículo convencional, centrado na transmissão de informações, tornando-se, quase sempre, uma atividade secundária e marginal. A prioridade, neste caso, continua ser o cumprimento da grade curricular, com sua filosofia, seus objetivos, seus métodos, seus valores. Os projetos de aprendizagem, se executados (às vezes ficam esquecidos), têm que tentar se encaixar nas “janelas”, nas horas-atividade, depois do horário regular, ou nos pequenos momentos “roubados” às aulas convencionais, aqui e ali.

Muito diferente seria a escola se se preocupasse com o desenvolvimento de competências e habilidades básicas nos alunos através de projetos transdisciplinares centrados na resolução de problemas levantados pelos alunos – ou projetos centrados nos sonhos dos alunos, naquilo que eles têm desejo e interesse de aprender.

Essa escola ministraria uma “Educação Orientada para Competências”, organizada em um “Currículo Centrado em Problemas”, executado através de uma Pedagogia de Projetos de Aprendizagem.

Essas três expressões se reportam a uma proposta pedagógica inovadora. Seu caráter inovador se revela quando começamos a investigar o que é que uma “educação orientada para competências”, um “currículo centrado em problemas”, e uma “pedagogia de projetos de aprendizagem” procuram substituir.

Nossa educação, hoje, e por um bom tempo, não tem sido orientada para o desenvolvimento de competências e habilidades nos alunos, mas, sim, para a absorção, por parte deles, de conteúdos informacionais: fatos, conceitos e procedimentos.

Os currículos utilizados nesse tipo de educação, por sua vez, são centrados, não na análise e na tentativa de solucionar problemas, mas em disciplinas, que são o repositório dos conteúdos informacionais mencionados, e que, em geral, são apresentadas aos alunos de forma abstrata, totalmente desvinculada dos problemas fundamentais que um dia levaram o ser humano a se interessar por esse tipo de questão.

A pedagogia utilizada nesse tipo de educação é a pedagogia do ensino. Professores expõem os conteúdos informacionais que constituem o currículo e os alunos assimilam esses conteúdos. Assim, a aprendizagem dos alunos é caracterizada como a absorção dos conteúdos informacionais das várias disciplinas que compõem o currículo, e espera-se que essa aprendizagem seja o resultado mais ou menos automático de um ensino que, o mais das vezes, não vai além da mera apresentação de parte dos conteúdos a serem absorvidos – a outra parte ficando por conta dos livros didáticos, cuja leitura também se espera que vá redundar em aprendizagem (i.e., na absorção dos conteúdos informacionais que foram lidos).

Quando se afirma que a escola precisa encontrar novas formas de ensino e aprendizagem, se deseja sobreviver aos momentos difíceis que atravessa, não se tem em mente apenas aperfeiçoar as atuais formas de ensinar e aprender, torná-las mais eficientes e, ao mesmo tempo, como se fosse possível, mais agradáveis. O que critica é o próprio modelo ou paradigma de educação que hoje impera. Conseqüentemente, é preciso “virar as coisas de ponta cabeça”, recomeçar do zero.

É interessante notar que o modelo ou paradigma que hoje é hegemônico não possui fundamentação teórica ou justificativa séria. Quando as coisas são colocadas nestes termos, poucos são os que explicitamente endossam a tese de que educar é ensinar às crianças os fatos, os conceitos e, se for o caso, os procedimentos envolvidos nas várias disciplinas: estudos sociais ou, especificamente, história, geografia; ciências ou, especificamente, biologia, física, química; matemática; filosofia; língua materna; uma língua estrangeira. Esse modelo ou paradigma de educação foi se infiltrando na escola, e acabou alcançando condição de hegemonia, apenas porque é mais fácil de ser colocado em prática do que as alternativas. Na realidade, ele contradiz virtualmente tudo o que sabemos sobre o que é que motiva as crianças a aprender e como elas de fato aprendem.

Não se pode ignorar que antes de entrar na escola a criança aprende uma quantidade enorme de coisas: aprende a diferenciar a suas impressões sensoriais e a identificar objetos e pessoas; aprende a pegar e a manipular objetos; aprende a ficar de pé e, no devido tempo, a andar; aprende a gostar de determinadas coisas e a não gostar de outras, desenvolvendo nítidas preferências; aprende a responder adequadamente ao contato de terceiros (conhecidos ou estranhos); aprende a identificar sons, em especial os sons da fala humana; aprende primeiro a expressar o que deseja através de gestos e sinais, aprende a imitar gestos e sons e, no devido tempo, a falar; aprende a se alimentar sozinha; aprende a controlar sua bexiga e seus intestinos; aprende que não deve fazer determinadas coisas; aprende a demonstrar carinho e a agredir os outros, quando contrariada; aprende, no tempo certo, a identificar símbolos, desenhos, sons e mesmo palavras escritas com seus referentes – e assim por diante. Algumas crianças aprendem até mesmo a ler e a escrever virtualmente sozinhas. Outras crianças aprendem a se locomover, sem se perder, em espaços relativamente complexos – como um sítio ou mesmo as ruas de uma grande cidade.

Registre-se, porque de fundamental importância, que nenhum desses aprendizados envolve a absorção pura e simples de informação – em todos eles o essencial é o desenvolvimento de competências e habilidades – sensório-cognitivas, psico-motoras, emocionais e sociais (interpessoais). Registre-se ainda que em nenhum desses casos há um processo de ensino formal e institucionalizado: a criança aprende observando, imitando, e respondendo a intermitentes intervenções (estimulações ou provocações, no bom sentido) daqueles que compartilham o seu mundo – daqueles com quem ela entra “em comunhão”.

Além do mais, aprender todas essas coisas dá grande prazer às crianças – sua curiosidade inata as torna automotivadas e em nenhum momento o aprendizado lhes parece doloroso ou entediante. Aprender é parte de sua vida – na verdade, a parte principal da sua vida. Brincar, para elas, é aprender, e aprender é brincar.

Por fim, ajudar as crianças a aprender essas coisas todas é um processo relativamente simples – até as pessoas mais simples, sem educação geral e sem formação especializada na área pedagógica, conseguem ajudar a criança nesse processo alegre de aprendizado.

Se, ao entrar na escola, o aprendizado subitamente se torna aborrecido e mesmo sofrido para as crianças, isto parece ser muito mais por falha da escola do que das próprias crianças – pois nada fundamental se altera nelas, além do fato de que seu aprendizado agora deve se processar principalmente no ambiente organizado e estruturado da escola, que altera drasticamente a natureza do processo de aprendizagem.

Primeiro, na escola o aprender desvincula-se do brincar e se torna uma obrigação. Falando mais tecnicamente, na escola corta-se o vínculo anteriormente existente entre processos cognitivos e processos vitais – entre aprendizagem e vida, entre aprendizagem e experiência.

Segundo, o objeto do aprendizado escolar deixa de ser o desenvolvimento de competências e habilidades nos alunos para se tornar a absorção, por eles, de grandes quantidades de informação: fatos, conceitos, procedimentos.

Terceiro, o aprender deixa de ser, conseqüentemente, algo ativo, que a criança faz, para ir se tornando, mais e mais, um sub-produto esperado da ação do professor – algo que se espera que o professor faça, através do ensino. Espera-se que, através do ensino, o professor gere o aprendizado na criança. Desta forma, o aprendizado não é algo que a criança faz, mas algo que lhe é feito – algo que ela “sofre” (em mais de um sentido).

Quarto, a escola, além de, num procedimento totalmente artificioso, criar horas e locais específicos para a criança “aprender” determinadas coisas, gera na criança a idéia, extremamente nociva, de que aprender não é um processo natural, agradável e contínuo, que começa com o nascimento (ou antes) e termina apenas com a morte, mas, sim, algo artificial, difícil e doloroso, que, tendo começado quando a criança entra na escola, termina quando ela, com enorme alívio, deixa a escola, sendo o seu aprendizado (visto como resultado e não como processo) certificado através de um diploma.

Quinto, estipula-se que todos devam aprender as mesmas coisas, pelos mesmos métodos, nos mesmos ritmos e nos mesmos momentos – independentemente de seus interesses, de suas aptidões, de seu estilo cognitivo, de seu estado de espírito, etc.

Sexto, a escola pressupõe que as pessoas não são intrinsecamente inclinadas a aprender e que, portanto, precisam ser obrigadas a fazê-lo, para tanto construindo o processo de aprendizagem em cima de mecanismos artificiais de recompensas e punições que ajam como motivadores externos.

Sétimo, o modelo ou paradigma é ainda mais malévolo, pois a atenção da escola concentra-se nos eventuais “pontos fracos” das crianças, tendo em vista o objetivo (que a escola compartilha com a linha de montagem da fábrica) de que todas as crianças estejam “padronizadas” (e, portanto, sejam intercambiáveis) ao final do processo. Assim, se uma criança gosta de escrever e sabe escrever bem, mas não gosta de matemática ou desenho, nem é muito competente nessas áreas, a escola a obriga a concentrar a atenção nas coisas que ela não gosta de fazer e a deixar de lado os seus interesses.

Esse modelo ou paradigma de ensino e aprendizado mata a curiosidade natural das crianças e, em alguns casos, as marca de tal forma que elas ficam traumatizadas. (Traumas com matemática e com língua materna são comuns).

Como disse atrás, esse modelo ou paradigma de educação que hoje é hegemônico não possui fundamentação teórica ou justificativa séria – pelo contrário, ele contradiz virtualmente tudo o que sabemos sobre o que é que motiva as crianças a aprender e como elas de fato aprendem. Esse modelo ou paradigma foi se infiltrando na escola, e acabou alcançando condição de hegemonia, apenas porque é mais fácil de ser colocado em prática do que as alternativas.

Quando se propõe que a educação seja orientada para competências, o que se pretende é que o aprendizado escolar se organize não mais em função de conteúdos informacionais a serem transmitidos, mas, sim, em função de competências e habilidades que as crianças devem desenvolver em continuidade com as competências e habilidades que vinham desenvolvendo na fase pré-escolar.

Na nova escola continuaria a haver um currículo, mas esse currículo não seria uma matriz de disciplinas a serem ministradas nas diferentes séries, cujo objetivo é meramente disseminar informação, mas, sim, um elenco de competências e habilidades, devidamente hierarquizadas, que os alunos deveriam desenvolver ao longo do seu tempo de escolaridade, e que iriam sendo desenvolvidas à medida que eles fossem participando em diversos projetos de aprendizagem de seu interesse.

Nesta hipótese, haveria sempre vários projetos em implementação na escola, envolvendo os alunos. Alguns projetos poderiam ser grandes, e ter a participação de vários alunos, outros menores, envolvendo apenas um pequeno grupo, e outros, ainda, até mesmo individuais. Nesta escola não haveria disciplinas (ou matérias) ministradas sem vinculação com um projeto. E não haveria séries. Poderiam participar de um projeto de aprendizagem todos os que estivessem interessados nele.


2. A Pedagogia de Projetos e o Papel dos Conteúdos Disciplinares


Mas – vem a pergunta inevitável – e os conteúdos das disciplinas da escola de hoje? O que aconteceria com eles?

Eles só entrariam no novo currículo à medida que se tornassem úteis e relevantes para os projetos de aprendizagem em desenvolvimento.

Isso significa que alguns dos conteúdos que hoje integram as disciplinas que compõem a grade curricular provavelmente nunca seriam discutidos na escola.

Isso significa, também, que os conteúdos que hoje fazem parte da grade curricular que vierem a ser integrados aos projetos dificilmente serão ministrados com a abordagem tipicamente disciplinar com que são apresentados hoje, mas teriam que ser integrados à abordagem de outras disciplinas, fazendo parte de uma abordagem verdadeiramente interdisciplinar – ou, melhor ainda, transdisciplinar.

Para esclarecer o significado desses termos, “interdisciplinar” envolveria a justaposição de várias abordagens disciplinares; “transdisciplinar” envolveria uma integração tal dessas abordagens que o próprio conceito de disciplina perderia sentido no contexto.

A muitos pode parecer impossível que cheguemos a esse estágio. Para esses é preciso lembrar que o conhecimento não foi sempre dividido em disciplinas. Essa segmentação é algo relativamente recente.

Para facilitar a transmissão e a absorção do conhecimento, que num determinado momento passaram a ser vistas como as tarefas centrais da escola, os seres humanos dividiram o conhecimento em vários compartimentos, comumente chamados de disciplinas: comunicação e expressão, matemática, ciências, estudos sociais, artes, etc. – ou, alternativamente, português, matemática, física, química, biologia, história, geografia, artes, filosofia – para não mencionar sociologia, antropologia, economia, etc.

Essas formas de classificar o conhecimento são artificiais: raramente um problema se encaixa unicamente dentro dos limites de uma só disciplina.

Por isso, quando nos propomos a estudar problemas reais, em vez dos conteúdos geralmente demarcados para uma disciplina, acabamos tendo que adotar uma abordagem interdisciplinar ou transdisciplinar.

Tomemos como exemplo um problema que foi tema de muitos dos projetos das escolas participantes do Programa “Sua Escola a 2000 por Hora”: o Meio Ambiente.

Nosso meio ambiente contém componentes naturais, que normalmente são estudados pela física e pela química; possui também seres vivos, como plantas, animais e nós mesmos, seres humanos, estudados pela biologia; mas seres humanos também podem ser estudados pela psicologia e, como vivem em sociedade, pela sociologia; como nosso planeta tem uma história, a história precisa ser invocada; como seus territórios estão divididos em unidades geo-políticas, precisamos da geografia; e assim por diante.

Dentre os fatores que ameaçam o nosso meio ambiente estão poluentes químicos inorgânicos e biológicos do ar, dos rios, da própria terra; desmatamento desregrado; uso de técnicas agrícolas impróprias; não tratamento ou tratamento inadequado do lixo doméstico e industrial; crescimento populacional desordenado; consumismo desenfreado; e muitos outros.

É impossível estudar o meio ambiente e tomar as medidas corretivas que se impõem para que não destruamos a nossa Terra, dentro de uma abordagem puramente disciplinar: precisamos enfocar a questão de maneira interdisciplinar ou, preferivelmente, transdisciplinar. Algumas questões serão equacionadas no âmbito das ciências naturais e biológicas, outras no nível das ciências comportamentais, ainda outras em decorrência da adoção de valores mais adequados. E mesmo essa divisão em grandes áreas é artificial. O ser humano é uma unidade: é apenas com um alto grau de artificialidade que podemos dizer que ele pode ser estudado, separadamente, pelas ciências naturais, as ciências biológicas e as ciências humanas. O ser humano pode também ser estudado através das artes. Muitas obras de ficção nos ajudam a entender o ser humano muito melhor do que obras científicas. A religião também nos revela aspectos da realidade humana que é difícil captar, sem distorcê-los, dentro dos três tipos de ciência indicados atrás.

Como tratar de um problema como o do Meio Ambiente de forma exclusivamente disciplinar? É preciso abordá-lo de uma forma integrada, que englobe ou transcenda os enfoques das várias disciplinas.

O mesmo é verdade acerca de quase todos os problemas interessantes que temos que enfrentar. Um outro popular nos projetos das escolas do Programa “Sua Escola a 2000 por Hora” é Cidadania. Como discutir cidadania dentro de uma abordagem exclusivamente disciplinar? Ou a Sexualidade? Ou as Drogas? Ou a Violência Urbana? Ou o Consumismo desenfreado? Ou a Crise de Valores revelada na nossa política e nos nossos programas de televisão?

É por isso que os chamados Temas Transversais se tornam importantes hoje: eles refletem uma tentativa de transcender os paradigmas disciplinares que têm imperado até hoje na educação escolar e de substituí-los por paradigmas temáticos, transdisciplinares.

Os conhecimentos que fazem parte das disciplinas em que hoje se organiza a grade curricular integrarão o novo currículo, centrado na resolução de problemas através de projetos transdisciplinares – mas somente na justa medida em que forem relevantes para a solução desses problemas.

E o vestibular, perguntarão alguns? O vestibular vai mudar – está mudando. E mesmo que não mudasse, não podemos deixar que um exame de acesso à Universidade determine o que vamos fazer desde o início da Educação Fundamental.


3. A Pedagogia de Projetos e o Papel dos Professores


O papel dos professores, nesse contexto, é acompanhar a elaboração e a implementação dos projetos, procurando verificar, em cada projeto, quais competências e habilidades importantes o aluno está, ou poderia estar, desenvolvendo ao longo da elaboração, da implementação e da avaliação dos projetos de aprendizagem em que se envolvem.

Nesse papel, cabe aos professores, primeiro, a função de ajudar os alunos a encontrar as informações necessárias para o desenvolvimento de seus projetos. Os antigos conteúdos disciplinares entram em cena, como vimos, à medida que se mostrem úteis ou relevantes para o desenvolvimento do projeto. Seu aprendizado, assim, não se torna algo desvinculado da realidade, que tem que ser feito mesmo sem saber o porquê, mas passa a ser algo que serve a um propósito claro e definido.

Mais importante ainda do que essa função de ajudar o aluno a encontrar informações seria, em segundo lugar, a função de manter uma conexão constante entre o desenvolvimento dos projetos de aprendizagem e o desenvolvimento de competências e habilidades básicas nos alunos. Um dos objetivos da pedagogia dos projetos é permitir que a aprendizagem dos alunos tenha um ponto de ancoragem firme nos interesses e nas necessidades dos alunos, isto é, na vida deles. Com isso, não há por que se preocupar com a sua motivação. Este, porém, é um ponto de partida. O ponto de chegada é o desenvolvimento de competências e habilidades básicas pelos alunos.

Quais seriam algumas dessas competências e habilidades básicas? Em meu artigo ‘“Educação Orientada para Competências” e “Currículo Centrado em Problemas”’ discuto essa questão em mais detalhe. Remeto o leitor a ele. Aqui basta ressaltar o seguinte.

Quase todo projeto, hoje em dia, precisa ser redigido, colocado em linguagem e formato adequado, apresentado a outras pessoas (em forma escrita ou oral), defendido, especialmente se recursos escassos são necessários para sua implementação, e assim por diante.

Nesse processo, os alunos podem desenvolver várias competências e habilidades importantes, na área comunicacional e argumentativa e em outras. Por exemplo: os alunos deverão aprender a expor suas idéias com clareza (comunicação oral, lógica), a colocá-las em linguagem e formato adequado (comunicação escrita), a apresentá-los em público de forma persuasiva e convincente (retórica), a defender o uso de recursos comuns na sua implementação (lógica), a criar um site para o projeto (comunicação, domínio de tecnologia), a buscar informações e conhecimentos necessários para sua implementação (pesquisa), a planejar as atividades dentro do tempo disponível e a cumprir cronogramas (administração do tempo), a abrir mão de outras atividades desejáveis para concluir o projeto, conforme prioridades definidas (administração de prioridades), etc.

Essas competências e habilidades lhe serão muito mais importantes, em sua vida, do que um conjunto específico de informações e conhecimentos. É aqui que se situa a competência de pensar criticamente, com suas habilidades de analisar informações, verificar suas credenciais epistemológicas, separar o joio do trigo, discernir quais informações são relevantes para a ação, saber levá-las em consideração no momento de decidir, e assim por diante.

Mas, por fim, o professor teria a função de inspirar o aluno (até mesmo pelo seu exemplo) e de ajudá-lo a vislumbrar novos horizontes. Vou transcrever aqui uma pequena passagem do grande escritor americano, John Steinbeck, que dá uma boa idéia do que quero dizer:
 

“É comum que adultos se esqueçam de quão difícil, chata e interminável é a escola. . . . A escola não é coisa fácil e, a maior parte do tempo, não é nada divertida. Contudo, se você tem sorte, pode ser que encontre um professor. Professores verdadeiros, com a melhor das sortes, você vai encontrar no máximo uns três durante a vida. Acredito que um grande professor é como um grande artista: há tão poucos deles como há poucos grandes artistas. O ensino pode mesmo ser visto como a maior das artes, visto que o meio em que se exerce é a mente e o espírito do ser humano. Os meus três tinham estas coisas em comum. Todos eles amavam o que estavam fazendo. Eles não nos diziam o que saber: catalisavam um desejo fervente de conhecer. Sob sua influência, os horizontes de repente se abriam, o medo ia embora e o desconhecido se tornava conhecível. Mas, mais importante de tudo, a verdade, esta coisa perigosa, se tornava bela e muito preciosa.”


É isso que se quer dizer quando se afirma que o bom professor é um bom pastor de sonhos.


IV. O Conceito de Projeto


Nesta parte deste trabalho vou começar a discutir o conceito de projeto, isto é, discutir o que é um projeto (sem fazer referência específica a projetos de aprendizagem, mas incluindo esses projetos) e quais são algumas características gerais importantes de projetos, em geral.

Ao longo de todo o capítulo seguinte vou estar usando exemplos bastante conhecidos de projetos – mas em que os projetos são bastante complexos:


Vocês vão ver que esses dois exemplos vão se misturar bastante durante a discussão, porque, em geral, projetos de construção de coisas bem tangíveis, como casas, fazem parte de projetos maiores, não raro envolvendo elementos muito pouco tangíveis... Veremos como isso se pode se dar ao longo deste capítulo – começando num instante.


1. O que é um Projeto?


O bom Aurélio dá diversos sentidos do termo “projeto”, mas o primeiro é o mais importante e o que nos interessa aqui. Diz ele que que projeto é “uma idéia que se forma de executar ou realizar algo, no futuro: plano, intento, desígnio”.

Vamos ressaltar os dois elementos mais importantes contidos nesta aparentemente simples definição:
 


Conquanto correta, até onde ela vai, a definição do Aurélio, por ser uma definição sucinta, dicionaresca, omite algumas referências importantes para um entendimento mais completo do que seja um projeto.

Em primeiro lugar, projetos, tanto quanto se saiba, só são elaborados por humanos. Só os seres humanos, dentre os animais, conseguem olhar para o futuro e ver à sua frente situações e estados de coisas que ainda não estão lá. Mais importante, só seres humanos firmam propósitos de criar o seu próprio futuro – que é o que estão fazendo quando dizem coisas assim: “Um dia eu vou ser piloto de avião a jato”, “Um dia eu vou me casar com a Verinha [ou com o Ulisses]”, “Um dia eu vou ter uma casa linda, com piscina”.

Em segundo lugar, é importante perguntar por que seres humanos fazem projetos?

Seres humanos elaboram projetos de longo prazo porque eles são capazes de sonhar. Dizem que o ser humano, quando olha ao que está aí, e se pergunta “por quê?”, está pronto para filosofar. Mas quando o ser humano olha para o que não está aí, e se pergunta “por que não?”, ele está pronto para elaborar um projeto.

Mas nem todos projetos decorrem de nossa capacidade de sonhar. Alguns projetos, especialmente os de mais curto prazo, são elaborados para resolver problemas. Quando há um incêndio num prédio e se chama o Corpo de Bombeiros, esses nobres indivíduos são confrontados com a necessidade de apagar o incêndio, se possível sem perda de vidas e sem maiores danos para a propriedade. Isso para eles é um projeto – um projeto de curtíssimo prazo. Nesse momento, a ênfase está na resolução do problema. (É verdade que, por outro lado, se um edifício está em chamas, conseguir apagar o fogo, sem que alguém morra, ou com um mínimo de danos à propriedade, certamente é algo que pode se considerar um sonho – mas enfatizar isso poderia parece que estou tentando “forçar demais a barra”).

Em terceiro lugar, é interessante refletir sobre quão complexo precisa ser aquilo que nos propomos realizar ou executar no futuro para que possa ser considerado um projeto e não apenas, digamos, uma atividade.

Se eu resolvo plantar uma árvore, será isso um projeto ou uma atividade? Depende um pouco de como eu encaro a coisa. Passarinhos, ao deixar cair sementes, podem, eventualmente, até plantar uma árvore. Mas isso não é um projeto (pois, como disse, só seres humanos são capazes de elaborar projetos). Se eu, entretanto, ao contemplar plantar uma árvore, penso na finalidade principal que a árvore vai ter (produzir frutos, dar sombra, tornar o local mais bonito, ser um dia cortada para a construção de móveis, ou para ser usada na lareira, etc.), escolho o tipo de árvore adequado a essa finalidade, seleciono o melhor local para plantá-la, preparo bem o local, adquiro sementes de qualidade e nutrientes apropriados, coloco as sementes no local selecionado e preparado, na época correta para o plantio, molho o local conforme for necessário, removo plantas daninhas que podem prejudicar o crescimento, verifico se a semente está brotando, aprumo o pequeno tronco quando ele começa a surgir, etc. – então o plantar a árvore certamente foi um projeto, envolvendo algumas etapas claramente identificáveis, várias tarefas e inúmeras atividades.


2. Projetos dentro de Projetos


O poeta Elpídio dos Santos escreveu uma linda canção popular, conhecida de muitos (foi uma das canções cantadas por Sérgio Reis na novela “O Rei do Gado”), chamada “Você Vai Gostar” (mas também conhecida como “Lá no Pé da Serra”). Ela começa assim:


“Fiz uma casinha branca, lá no pé da serra, pra nós dois morar.
Fica perto da barranca do Rio Paraná...
O lugar é uma beleza, eu tenho certeza você vai gostar,
Fiz uma capela, bem do lado da janela, pra nós dois rezar...”


Quando um casal se ama e resolve se casar, ou viver junto, os dois começam a colocar em andamento um enorme projeto: um projeto de vida – na realidade um projeto de vida a dois. (Se um projeto de “vida a um” já é complicado, um projeto de “vida a dois” certamente se qualifica como um mega-projeto!) Um projeto desse porte é extremamente complexo e sua implementação provavelmente vai durar a vida toda (pelo menos é assim que a gente espera quando está apaixonado!).

Felizmente, esse enorme projeto pode ser desmembrado em vários “projetos menores”:
 


E assim vai. Não é simples. Mas quebrar o grande projeto em projetos menores facilita muito.

Na verdade, a mera complexidade de um projeto já, de início, nos ensina uma importante lição sobre projetos: quase sempre, para conseguir executar um projeto de grande porte, é necessário quebrá-lo em projetos menores. Um projeto que de início parecia irrealizável muitas vezes deixa de parecer impossível se nós o dividimos em projetos menores e estes em projetos ainda menores – até chegar a tarefas executáveis. Não podemos nos esquecer disso.

Em geral, se a gente não sabe por onde iniciar um projeto, isto já é sinal de que ele deve ser quebrado em projetos menores.

Poderíamos, de forma totalmente correta, chamar esses projetos menores de “sub-projetos” do projeto maior. Contudo, não podemos nos esquecer de que, se eles forem isolados do contexto, podem ser vistos como projetos independentes, não raro de porte também razoável (como o projeto de construir uma casa), que, quase sempre, também precisam ser quebrados em projetos ainda menores.


3. Projetos, Tarefas Executáveis e Atividades


De qualquer maneira, falemos em projetos menores ou em sub-projetos, um grande projeto precisa ser quebrado em projetos menores (sub-projetos), que, por sua vez, provavelmente também precisam ser quebrados em projetos ainda menores (sub-sub-projetos?), e assim por diante, até que, em um determinado ponto os projetos se tornam tarefas executáveis – executáveis por uma pessoa ou uma equipe determinada (recursos humanos), com ou sem a ajuda de recursos materiais (equipamentos, materiais de várias naturezas, etc.), em um determinado tempo (cronograma), sem que seja ultrapassado o dinheiro previsto ou disponível para a sua execução (orçamento).

Quando chamo algo de “tarefa executável” não quero dizer que ela seja executável de uma só vez, num só momento. Tarefas executáveis freqüentemente precisam, por sua vez, se desdobrar em várias atividades específicas no processo de sua execução.

Digamos que, em determinado projeto, haja uma tarefa executável “obter a aprovação do cliente para o orçamento proposto”. Chamo isso de uma tarefa executável porque não há maior dificuldade em se entender o que está implícito na sua execução, nem em atribuí-la, digamos, a uma só pessoa, para execução dentro de um prazo bem delimitado. Mesmo assim, porém, essa tarefa pode se desdobrar em várias atividades específicas, como:
 


Pode ser que haja até outras atividades que deixei de mencionar. Além disso, é inegável que cada uma dessas atividades pode ser desdobrada em atividades ainda menores. A atividade “imprimir o orçamento” pode ser quebrada em várias atividades menores, como:
 


Chega um ponto, porém, em que não faz sentido ficar quebrando atividades, ou mesmo tarefas, em unidades menores. Fica evidente o que tem que ser feito, por quem, como, quando e com que recursos materiais.


4. A Seqüenciação


Voltemos, portanto, ao nosso exemplo.

O grande projeto de viver o resto da vida “a dois” envolve, em geral, o projeto (menor) de se casar, isto é, de começar a viver junto. E “quem casa”, diz o ditado, “quer casa”. O projeto de se casar, ou de viver junto, envolve, portanto, em geral, o projeto (ainda menor) de construir a própria casa.

Assim, um dos projetos envolvidos no projeto de construir uma vida a dois pode ser o projeto se casar, ou de viver junto, e um dos projetos envolvidos no projeto de se casar, ou de viver junto, pode ser a construção de “uma casinha branca lá no pé da serra pra nós dois morar” – não é verdade? (As alternativas seriam alugar uma casa ou mesmo morar com os pais – mas vou deixá-las de lado: se as pessoas têm recursos, em geral preferem construir sua própria casa, ainda que pequena).

(Um parêntese. Aqui entre nós, é possível pensar num projeto de vida a dois que não envolva o casamento ou o viver junto, não é? Esse projeto pode implicar uma razoável quantidade de criatividade e frustração, mas não deixa de ser um projeto. Digo isso só para que ninguém pense que casar, ou viver junto na mesma casa, seja a única forma que um projeto de vida a dois pode assumir. Fim de parêntese).

Dois outros projetos que podem estar envolvidos no projeto de se casar, ou de viver junto, podem ser:
 


E por aí vai.

Em geral, para que tudo aconteça de forma eficiente, sem grandes perturbações, esses projetos menores devem ser executados em uma determinada seqüência – fato nem sempre levado muito a sério hoje em dia... Se os filhos chegam antes do casamento ou antes da construção da casa, por exemplo, muitas coisas podem ser atropeladas – e os projetos menores de os dois completarem a sua educação formal, de os dois arrumarem um emprego, de os dois terem tempo um para outro, podem nem chegar a ser executados... (afinal de contas, alguém tem que ganhar dinheiro para sustentar os filhos, alguém tem que cuidar deles, e tudo isso consome um tempo enorme!).

Aqui temos uma outra lição importante: a ordem em que os projetos menores, as tarefas executáveis, e as atividades são colocados em andamento às vezes faz muita diferença. É por isso que projetos, especialmente quando grandes e complexos, em geral precisam ser cuidadosamente planejados, o resultado do planejamento geralmente sendo um ou mais planos (afinal de contas, planejar é fazer planos, não é?).


V. As Etapas de um Projeto


Porque isso é importante, vou discutir o conceito de projeto de maneira tão ordenada quanto possível. Vou analisar em mais detalhe o projeto de construção de uma casa, isolando-o, temporariamente, do fato de que ele é parte de um projeto maior, o de se casar, ou viver junto, que, por sua vez, é parte de um projeto ainda maior, o de construir uma vida a dois “até que a morte nos separe” (ou, mais realisticamente, “enquanto o amor dure”), porque o projeto de construção de uma casa é um projeto que todos conhecem em suas linhas mais gerais.

Um projeto é desenvolvido, basicamente, em três grandes etapas:
 


Essas etapas devem normalmente acontecer nesta ordem. Por isso, vamos discuti-las em seqüência.


1. A Etapa de Planejamento do Projeto


Já vimos, atrás, em linhas gerais, o porquê de o ser humano fazer projetos. Mas vamos retomar a questão em um pouco mais de detalhe na seção a seguir.


A. Realizar Sonhos e Resolver Problemas


O projeto de construção de uma casa começa com quê?

Se se trata de um casalzinho apaixonado, o projeto da construção de uma casa começa com o sonho de viver junto, não é verdade? A casa é o lugar “prá nós dois morar”, como a linda canção citada atrás deixa claro. Por que isso é importante?

Quem já procurou uma casa para comprar certamente sabe a resposta. Raramente encontramos a casa de nossos sonhos pronta, acabada.

Há casas que são construídas em série para serem vendidas a terceiros. Quem as planeja e constrói não pretende, nesse caso, morar nelas. Por isso, essas casas em geral são construídas “de forma burocrática” – não como resposta a um sonho. Umas têm banheiros em que a gente não consegue nem se virar – tem que entrar “de fasto” [de “marcha à ré”], não é mesmo? (Desculpem-me se essa observação provocou em alguns leitores imagens mentais não muito edificantes, mas é a vida...). Outras têm acabamento de extremo mau gosto. Outras foram construídas com material de terceira categoria... Nós conhecemos bem esse tipo de casa. Alguns de nós, infelizmente, podemos até ter sido obrigados, pelas circunstâncias, a morar numa delas. A realidade pode até ter nos imposto isto: mas a casa certamente estará longe de ser “a casa dos nossos sonhos”, não é?

Há outras casas, porém, que o proprietário construiu para morar nelas. Essas são, em geral, bem melhores. O material de construção usado geralmente é de (ou mesmo da) melhor qualidade, o acabamento é de bom gosto (ou pelo menos do gosto de quem vai morar na casa), e há espaços adequados para a maior parte das coisas que os futuros moradores vão querer, ou ter necessidade de, fazer na casa.

Voltemos agora à nossa pergunta: o projeto de construção de uma casa começa com quê? Se se trata da casa em que vamos morar com a pessoa a quem amamos, a construção da casa começa com um sonho... o sonho de morar junto. Isso pode parecer poesia demais, mas não é: é para viabilizar a realização desse sonho que a casa vai ser construída. O sonho está no ponto de partida do projeto e explica o porquê do projeto: porque nós queremos investir na realização desse projeto.

Por isso, é importante dar concretude a esse sonho, imaginar onde a casa seria construída (tem que ser um lugar bonito: “lá no pé da serra, perto da barranca do rio Paraná”!), como ela seria, quando pronta (“uma casinha branca”)... Poetas sabem dessas coisas – arquitetos e engenheiros civis nem sempre. É por isso que o poeta diz: “Fiz uma casinha branca, lá no pé da serra, pra nós dois morar: fica perto da barranca do Rio Paraná! O lugar é uma beleza, eu tenho certeza você vai gostar...”

Quem constrói casas para vender, pode-se dizer, também as constrói a partir de um sonho: o sonho de ganhar dinheiro... Você pode até achar que esse é um sonho meio xinfrim, em branco e preto, mas lembre-se de que muitos projetos concretos, tangíveis, que a gente vê são, na realidade, projetos envolvidos em projetos maiores, que lidam com coisas intangíveis, que a gente não vê... Pode ser que o projeto de ganhar dinheiro de alguém que constrói casas para vender seja parte de um projeto maior de viabilizar a educação dos seus filhos, ou de seus netos, para que um dia sejam, um, um grande músico, a outra, uma bailarina clássica.... A gente nunca sabe! É bom não se deixar enganar pelas aparências, só porque algumas pessoas fazem do ganhar dinheiro um fim e não um meio!

Mas nem sempre o porquê de um projeto é caracterizável como um sonho. Muitas vezes, como vimos, um projeto precisa ser realizado para resolver um problema. Já mencionei o apagar de um incêndio.

Projetos de aprendizagem, como veremos, podem decorrer do fato de que realmente desejamos aprender alguma coisa (como, por exemplo, a nadar, ou a falar uma língua estrangeira), e podem, nesse caso, ser resultantes de um sonho. Ou podem decorrer da necessidade de resolver um problema, prático ou teórico. O ser humano é um animal curioso: quando confrontado por um problema ele em geral se sente desafiado a resolvê-lo. Até mesmo crianças bem pequenas se sentem assim desafiadas. Se você tem familiaridade com uma criança na faixa de um ano a dois anos e meio, notará que ela quer se comunicar com os outros na família mas encontra um problema sério: ela não sabe falar. Por algum tempo ela se comunica por linguagem corporal e por sinais: chora, aponta, sorri, faz que não com a cabeça, etc. – e os adultos se especializam em decifrar esses códigos. Mas a criança parece perceber que adultos se comunicam de forma bem mais eficiente, através da fala. E ela, em sua cabecinha ainda jovem, encasqueta que também vai falar. Começa a fazer ruídos sem sentidos. Os que estão perto dela a ajudam repetindo palavras que se referem a pessoas ou objetos (especialmente partes do corpo) familiares, ou a ações que a criança executa com freqüência. E assim vai até que a criança um dia começa a falar – começa a colocar em andamento o seu projeto de se comunicar através da fala. Esse projeto é em grande parte decorrente do seu problema inicial de comunicação.


B. Decisões e Propósitos


Notem que há muitos casais de namorados que sonham com uma casinha própria, mas que não passam disso. Seus sonhos permanecem sonhos, não se transformam em realidade. Para que um sonho se transforme em realidade, é preciso que, num determinado momento, ele deixe de ser um mero desejo, passe por um processo de tomada de decisão, e, mais, se torne um firme propósito. Um sonho se transforma em propósito quando a gente toma a decisão de não ficar só sonhando e firma o propósito de realizar as ações necessárias para transformar o sonho em realidade.

Essa decisão é mais difícil do que parece. Há pessoas que vivem a vida inteira sonhando, em alguns casos, sonhos lindos – mas que nunca tomam a decisão de transformar esses sonhos em realidade, e, portanto, não transformam seus sonhos em propósitos. Ao final de sua vida, “seus sonhos foram somente sonhos, e nada mais” (como diz uma linda canção antiga).

O mesmo pode ser dito de pessoas que enfrentam problemas. Há pessoas para as quais problemas são obstáculos intransponíveis que as paralisam. “Mas como é que vamos fazer isso? Não temos dinheiro!” – ou “Não temos acesso à Internet!”, ou ainda, “Ninguém aqui conhece informática!” Para outras pessoas, porém, problemas não são vistos como obstáculos, quanto mais intransponíveis: são vistos como desafios à sua criatividade, à sua engenhosidade, à sua capacidade de ação. São essas as pessoas que, confrontadas por um problema, partem imediatamente para a procura de uma forma de resolvê-lo. A forma de resolvê-lo em geral se caracteriza como um projeto (ainda que pequenino).

Se as crianças pequenas que ainda não falam se desanimarem diante do problema de comunicação que têm, ou se os pais são tão solícitos que procuram adivinhar tudo o que a criança deseja ou tudo o de que necessita, pode ser que a criança não se sinta tão desafiada a encontrar uma solução para o seu problema – vai custar a falar...


C. Projetos e Planos


Tomada a decisão de transformar o sonho em realidade, ou de resolver o problema, e firmado o propósito, precisamos de um plano.  (Projeto, propósito, plano – parece que tudo começa com “p” aqui, não? Ainda há outros “p”s importantes: paixão, persistência, paciência...).

Curiosamente, na área de construção civil o plano do projeto é geralmente chamado simplesmente de “projeto”, como se o mero plano se bastasse e exaurisse o projeto. Casas em construção em geral exibem, na frente, uma placa, com várias informações, entre elas a de quem é responsável pelo “projeto” (isto é, pelo plano, às vezes chamado também de “planta”) com base no qual a casa está sendo construída. (Não confundamos, portanto, o projeto, como um todo, com o plano de sua implementação. Aquilo que, na escola, a gente coloca no papel e envia para um possível agente financiador em geral é o “plano do projeto”, não o próprio projeto! Às vezes esse plano é apenas “o plano do plano”...).

O plano de uma casa pode, num determinado momento, começar com uma visão na cabeça de alguém: uma casinha branca, no pé da serra, perto da barranca de um rio.... Ou pode começar com um desenho, rabiscado com caneta Bic, num guardanapo de restaurante, daquilo que gostaríamos que fosse a aparência do prédio, visto de fora.

Creio que a genialidade de Oscar Niemeyer está no fato de que é capaz de desenhar, em material desse tipo (guardanapos de papel), edifícios extremamente arrojados, do ponto de vista arquitetônico, como o Palácio da Alvorada ou a Catedral de Brasília. Consta que alguns dos “rabiscos” originais que acabaram se tornando esses famosos edifícios foram preservados.

Para que possamos começar a construção da casa, porém, essa visão ou esse esboço inicial precisa passar por vários estágios de refinamento, especificação e detalhamento. Por exemplo: uma casa não é apenas a sua aparência externa – ela tem (entre outras coisas) uma divisão interna de cômodos e ambientes, que uma planta normalmente especifica. As fundações da casa também são extremamente importantes: se os alicerces não forem bem construídos, a casa inteira pode eventualmente ruir.

Vamos nos concentrar no plano para a construção de uma casa – a planta. Para fazer uma planta, são necessárias várias coisas, como, por exemplo:
 


Essa lista certamente não é exaustiva.

Para a elaboração da planta é necessário saber também se o proprietário aceita uma casa com dois pavimentos, se os pavimentos podem estar em desnível, se a casa deve ter estilo clássico ou ser em formato colonial ou de chalé suíço, etc. (Se houver alguém em cadeira de rodas na família que vai morar na casa, ela provavelmente não deve ter dois pavimentos ou vários níveis, a menos que se preveja um elevador, que vai encarecer consideravelmente o custo total de construção).

Mas, além da planta chamada de baixa, é necessário fazer a planta hidráulica, que vai especificar por onde passarão os canos que vão trazer água para a casa e levar embora os dejetos gerados pelos seus habitantes. É importante lembrar (embora seja razoavelmente óbvio) que não é possível elaborar a planta hidráulica antes de estar concluída a planta baixa, porque a água, numa residência, precisa chegar a determinados cômodos e ambientes, como a cozinha, a área de serviço, os banheiros, o jardim, a piscina, podendo certamente passar ao largo da sala de visitas, do escritório, etc. E os esgotos devem estar presentes em todos os lugares a que a água chega – e a outros, como os locais externos em que a água da chuva, por exemplo, poderia se acumular se não houvesse aberturas, convenientemente situadas em locais com a devida inclinação, por onde ela se escoasse.

Além da planta hidráulica, é necessária, naturalmente, a planta de fiação, que vai especificar por onde entrarão, por exemplo, os fios elétricos, como eles chegarão a todos os cômodos da casa, onde serão necessários interruptores e tomadas, e quantos de cada um, que tipo de tomadas serão necessárias (aterradas, três pinos), etc., onde poderão ser necessárias entradas de energia elétrica de 220 v (secadora, por exemplo), e assim por diante.

Hoje em dia, a planta de fiação precisa também contemplar outros fios e cabos que entrarão na casa, além dos elétricos, ou nela precisarão ser distribuídos, como, por exemplo, os fios telefônicos (haverá a instalação de uma pequena central de PABX? haverá tomadas telefônicas em todos os cômodos? etc.), os da televisão a cabo, os do interfone e do portão eletrônico, os dos alarmes, os do sistema de som ambiente, etc. (Notem que estou pensando em uma casa razoavelmente sofisticada...).

E há, naturalmente, que se detalhar também o acabamento a ser dado à casa, o tipo de material a ser usado em toda a construção, e assim por diante.

O plano de um projeto especifica, portanto, o que vai ser feito.


D. Recursos Humanos e Materiais


Você pode estar pensando: mas como é que eu, que comecei pensando na construção de um local romântico para curtir a minha vida com a pessoa amada, estou agora discutindo encanamento para esgotos, local dos alarmes contra ladrões, coisas tão pouco românticas?

Na vida, em geral precisamos saber misturar bem nossos sonhos e a realidade. Não podemos ficar só no nível dos sonhos – mas também não podemos ficar tão enquadrados na realidade que nunca nos perguntamos “por que não?” Se desprezarmos a realidade, nossos sonhos nunca se realizarão. Se desprezarmos os sonhos, construiremos casas em que as pessoas não conseguem nem se virar no banheiro.

E vêm mais questões que são parte da dura realidade da vida. Parte importante de um plano é a especificação dos recursos envolvidos. Aqui estamos lidando com as seguintes questões: com quem, por quem, com que e onde o projeto será realizado.

Num projeto, os recursos em geral se classificam em recursos humanos e recursos materiais. (Os chamados recursos financeiros são, como veremos adiante, “meta-recursos”: recursos que nos permitem contratar recursos humanos e adquirir recursos materiais).

No tocante a recursos humanos, será necessário especificar todos os profissionais que deverão trabalhar na obra, em qualquer modalidade: engenheiros, mestres de obras, pedreiros, carpinteiros, encanadores, eletricistas, etc. – e os respectivos ajudantes.

No tocante a recursos materiais, será necessário, no caso de uma casa, especificar tudo o que, não sendo recurso humano, deverá ser utilizado na sua construção: instalações (locais em que o projeto será desenvolvido), equipamentos (se for o caso, máquinas de terraplanagem, máquinas de fincar estacas, etc.), materiais de consumo: tijolos, telhas, cimento, areia, fios e cabos, canos e  conduítes, peças de cozinha e banheiro, etc.

Com base nessas informações e numa avaliação da quantidade de cada recurso e do preço desses recursos no mercado, é possível fazer uma primeira estimativa do custo geral da obra – isto é, da quantidade de recursos financeiros que precisamos ter para construir o imóvel...

Recursos financeiros, porém, são de um tipo diferente dos outros dois recursos. Eles representam uma variável que interage bastante com uma outra variável, ainda não mencionada, o tempo. Falaremos disso num instante.

Mas é quando lidamos com dinheiro que os sonhos muitas vezes colidem com a realidade e precisam ser revistos, reduzidos um pouco em escala, espichados no tempo – ou, então, postergados até que consigamos os recursos financeiros necessários para sua completa realização.


E. Cronogramas: A Variável Tempo


Nesse processo todo, é preciso definir o cronograma da obra. Aqui entra no quadro a variável tempo. Se houver necessidade de que a construção seja feita em pouco tempo (i.e., num ritmo acelerado), pode ser que os custos, especialmente com pessoal, aumentem (as pessoas geralmente cobram mais quando se deseja que seu trabalho seja feito mais rapidamente do que elas acham natural). O cronograma define o “quando” das várias atividades.

Ao analisar o cronograma, é preciso prestar a atenção ao fato, já assinalado, de que há, até certo ponto, uma seqüência natural a ser seguida no desenvolvimento de um projeto – no caso, na construção de uma casa. Não há como começar a levantar as paredes se as fundações não estão concluídas; não há como começar a cobrir a casa se as paredes não estão levantadas; não há como começar a passar a fiação se os conduites não estão nos locais devidos. E assim por diante.

Fica claro, do que foi dito, que, para que demos início a determinadas atividades, é necessário que outras estejam concluídas ou, pelo menos, bem avançadas.

É verdade, porém, que, há muitas atividades que podem ser realizadas em paralelo. Mas a regra é que, por exemplo, saiam os pedreiros e carpinteiros para entrar os pintores – e da mesma forma com os outros profissionais.

Por isso, no plano de um projeto (no caso, da construção da casa) precisamos levar em conta possíveis “gargalos” – tarefas que prendem outras, porque precisam estar encerradas para que as outras comecem. Há tarefas que são tão críticas, e prendem tantas outras, que um pequeno atraso na sua conclusão pode fazer com que a implementação do projeto com um todo seja seriamente prejudicada – e encarecida!

Ainda em relação ao cronograma é preciso registrar que as pessoas envolvidas num projeto importante geralmente colocam no cronograma alguns marcos, ou acontecimentos importantes, do processo. Na construção de uma casa, a hora em que ela é coberta é geralmente considerada um desses marcos: as pessoas se reúnem e celebram, porque se alcançou, no processo de sua construção, um ponto extremamente significativo. Dentre outros significados, é possível, de agora em diante,  trabalhar na casa mesmo quando chove, porque ela já está coberta... Por isso, na fase do planejamento, quando procuramos elaborar um primeiro cronograma, é importante definir quais serão os marcos, nesse cronograma, que justificarão comemoração.


F. Orçamentos: A Variável Dinheiro


Já tocamos na variável dinheiro alguns parágrafos atrás.

Há uma relação importante entre as variáveis tempo e dinheiro. Tempo, se diz, é dinheiro. Em geral, quanto menor o tempo em que se quer construir uma casa, maior o custo. Se não houver um prazo muito rígido para ela ser construída, provavelmente seu custo será menor.

A relação entre tempo e dinheiro pode ser ilustrada com um exemplo que nada tem que ver com o projeto que vimos discutindo. Suponhamos que você não possua nem bicicleta, nem carro, nem helicóptero e queira ir do centro de Campinas (a Catedral do Carmo) para o centro de São Paulo (a Catedral da Sé). Você pode ir a pé (e levar uns bons três dias), alugar uma bicicleta (e levar várias horas), ir de ônibus (e levar cerca de três horas, ponto a ponto), tomar um taxi (e levar uma hora e meia), ou fretar um helicóptero (e levar quinze minutos). Cada uma dessas opções envolve um certo uso de tempo e um determinado dispêndio de dinheiro. Se você tem pouco tempo e bastante dinheiro, pode decidir gastar mais dinheiro e fretar o helicóptero. Se você tem pouco dinheiro e bastante tempo, pode decidir ir a pé, apreciando a paisagem. Dependendo da "mistura", você pode escolher uma das opções intermediárias.

No caso do projeto de construção de uma casa, se eu mantiver constante o número de pessoas que trabalham na construção, mas desejar terminar a construção mais rapidamente, eu terei que pagar hora extra a essas pessoas – e hora extra custa mais caro.

No entanto, se eu aumentar o número de pessoas que trabalham na construção (até um certo limite), eu poderei construí-la mais rapidamente mesmo sem aumentar o custo (ou sem um aumento significativo). Mas há limites. Por mais gente que eu coloque na construção, dificilmente vou conseguir concluir a construção, digamos, em um dia – e isto pela razão já mencionada: há tarefas que, para serem iniciadas, precisam aguardar o término de outras tarefas – ou, pelo menos, precisam esperar que outras tarefas estejam bem avançadas.


o O o
 

Chegamos ao fim da discussão da primeira etapa de um projeto: a etapa de planejamento do projeto. Quando terminamos de elaborar o plano – ou os planos – necessários para construir a nossa casa, teremos concluído o planejamento da construção.

As escolas do Programa “Sua Escola a 2000 por Hora” que estão aqui em Faxinal do Céu elaboraram, para enviar ao Instituto Ayrton Senna, um projeto – na realidade, o plano de um projeto. Às vezes o que foi enviado foi realmente um plano; outras vezes, um esboço do plano – ou “o plano do plano”.

Aqui na Semana de Imersão, terão uma oportunidade de “reler” ou “rever” os planos de seus projetos, para adequá-los, se for necessário, aos recursos disponíveis este ano na escola (que podem não ser os mesmos do ano passado), ao tempo disponível para realizá-lo, e a outros fatores que podem ter alterado desde que esse plano foi inicialmente elaborado. Entre esses fatores, estão os princípios básicos do “Programa Sua Escola a 2000 por Hora”.

Ao voltarem para casa, as escolas deverão levar uma proposta de adequação do plano, visando o início imediato de sua implementação.

Passemos, agora, portanto, à etapa seguinte do processo de desenvolvimento de um projeto: a fase da implementação do projeto.


2. A Etapa de Implementação do Projeto


Depois de planejado o projeto e de redigido(s) o(s) plano(s) de sua implementação, a etapa seguinte é implementar aquilo que foi planejado. A etapa de implementação do projeto inclui vários tipos de tarefa, dos quais os principais são:


A. Organização


Para que possamos implementar um projeto é necessário, em primeiro lugar, definir a equipe que vai implementá-lo e organizar essa equipe, atribuindo as várias tarefas do projeto aos diferentes membros da equipe. Dependendo da complexidade do projeto, pode-se elaborar um organograma, que especifica “quem é quem” no projeto, em sua fase de implementação. Aqui, portanto, o foco principal estará no quem vai fazer o que no projeto.

Um dos membros importantes da equipe é o coordenador do projeto – mais especificamente, o coordenador da implementação do projeto. (Às vezes essa pessoa também foi responsável pela etapa de planejamento do projeto, mas nem sempre). Outros membros da equipe terão diferentes funções, dependendo da natureza do projeto, mas a maior parte deles estará encarregada de realmente executar o que precisa ser feito.

B. Coordenação

Coordenar a implementação do projeto é garantir que todos os membros da equipe trabalhem de maneira harmônica e integrada. Esse trabalho nem sempre é fácil, porque as pessoas muitas vezes têm uma percepção própria do que deve ser feito, de como as coisas devem ser realizadas, e de quando as diferentes ações devem ser executadas – e essas percepções nem sempre coincidem. O resultado é que membros da equipe freqüentemente deixam de trabalhar em função do projeto em si para lutar por suas percepções e, não raro, agendas pessoais.

O trabalho de coordenação envolve principalmente:


Dispenso-me de comentar em mais detalhe cada uma dessas funções, porque o seu sentido é evidente.


C. Execução


A etapa de execução, propriamente dita, do projeto é a etapa em que as coisas previstas vão ser, de fato, executadas.


3. A Etapa de Avaliação do Projeto


A etapa seguinte é a de avaliação daquilo que foi implementado, para verificar se está de acordo com o planejado. A etapa de avaliação do projeto inclui vários tipos de tarefa, dos quais os principais são:

 


A. Definição de Indicadores

 


B. Monitoramento

 


C. Controle / Replanejamento

 

o O o

 

Por fim, a razão pela qual elaboramos plano e estabelecemos um cronograma é que queremos realizar algo – no caso, construir uma casa – dentro de um determinado tempo.

Isso nos mostra que um projeto é algo que, normalmente, tem começo, meio e fim. Ao iniciar um projeto, devemos, em condições normais, ser capazes de dizer, com razoável precisão, quando ele vai terminar – mesmo que seja um projeto cuja implementação é longa. Se uma atividade é recorrente, tem que ser realizada o tempo todo, e nunca termina, é preciso verificar bem se realmente é um projeto.

(Se meu projeto profissional é me capacitar para me tornar médico especializado em pediatria, pode ser que esse projeto leve de até nove anos para ser concluído. Mas, em princípio, quando eu entro na Faculdade de Medicina eu já devo ser capaz de dizer quando vou me formar, quando vou começar a fazer Residência Médica, e quando vou concluí-la – se tudo der certo, naturalmente).

Comparando a etapa de planejamento com a etapa de execução, propriamente dita, de um projeto, fica evidente que planejar o projeto de uma casa é uma atividade mais criativa do que simplesmente construir a casa. O construtor da casa não tem muito espaço para a criatividade: ele tem que seguir as especificações (em geral elaboradas por outrem...). Quem cria é quem planeja...


VI. Projetos de Vida


É importante chamar a atenção, aqui, para o fato de que não é apenas a construção de objetos físicos, tangíveis, como casas, automóveis, aviões, que precisam ser objeto de um projeto. Se quisermos ter controle sobre nossas próprias vidas, temos que saber elaborar um projeto de vida – caso contrário estaremos sendo apenas, na melhor das hipóteses, executores eficientes de projetos elaborados por outrem (por nossos pais, por nosso cônjuge, por nosso empregador...).

Para elaborar um projeto de vida, é preciso que aprendamos a especificar, agora, como desejamos que venha a ser a nossa vida no futuro (no plano pessoal, profissional, público). Para que possamos fazer isso, é preciso que descubramos ou decidamos, primeiro, o que queremos na vida, e, depois, como é que podemos alcançar aquilo que desejamos...

O primeiro passo na elaboração de um projeto é um sonho – um exercício da imaginação. É esse sonho que coloca diante de nós uma imagem (donde o termo “imaginação”) daquilo que queremos ser, do destino a que queremos chegar em nossas vidas.

Sonhos, envolvendo, como envolvem, a imaginação, devem ter uma certa concretude. Dizer simplesmente “meu sonho é ser feliz”, ou “meu sonho é ser famoso”, ou “meu sonho é ser bem-sucedido”, ou “meu sonho é ser rico”, não é suficiente. Essas frases expressam mais um desejo (bastante indefinido), do que um sonho. O sonho deve ter um nível suficiente de concretude para engajar a vontade, motivar, nos indicar o caminho a seguir.

Se ficarmos apenas nos sonhos não teremos um projeto de vida. Para que um sonho se transforme em projeto é necessário, portanto, em segundo lugar, que ele seja tão motivador que gere em nós o firme propósito de transformá-lo em realidade. Um projeto é, assim, mais do que um mero desejo de ver se transformar em realidade alguma coisa que, até aqui, é apenas idéia, apenas sonho: é um propósito, que exprime uma firme decisão anterior.

Definido o norte a seguir, é preciso procurar descobrir como chegar lá. Em geral há várias maneiras de conseguir algo que se deseja, mas algumas delas podem ser extremamente demoradas, outras onerosas demais (em termos financeiros, emocionais, ou em outros termos). É aqui que entra o terceiro elemento de um projeto de vida: o plano de ação. É o plano de ação que vai nos indicar como

Para quem não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve... Mas para quem sabe onde quer chegar, é muito importante escolher o caminho certo – pois caso contrário pode-se chegar em algum outro lugar... ou pode-se chegar no lugar certo, mas apenas quando já estamos muito velhos, ou doentes, ou cansados, para realmente usufruir o momento da vitória...

Em quarto lugar, é preciso ir à luta: partir para a execução do plano. Aqui vai ser necessário muita paciência e persistência, porque muitas vezes a coisa não dá certo da primeira vez – ou mesmo da segunda.

Diante de eventuais fracassos ou de elementos novos que não haviam sido contemplados no planejamento, é preciso, em quinto lugar, proceder a uma avaliação constante do plano e da execução do projeto. Estamos conseguimos chegar aonde desejávamos, dentro do cronograma e do orçamento previstos?

Às vezes não estamos conseguindo executar o que foi planejado, e precisamos nos esforçar mais. Outras vezes podemos concluir que o plano inicialmente definido continha falhas, que é mister corrigir – fazer ajustes na rota prevista. Será necessário eliminar alguns elementos do plano original? Foram acrescentados elementos aos que originalmente haviam sido imaginados?

O importante é se lembrar de que esse processo de avaliação constante constante pode levar a revisões, seja das ações que estão sendo realizadas, seja do plano originalmente definido.


o O o


Há muita gente que não se interessa por projetos porque não tem sonhos. A capacidade de sonhar com coisas que não existem e se perguntar “Por que não?” tem sido a mola propulsora das grandes transformações da vida aqui na terra.

Outros não se interessam por projetos porque, apesar de sonharem, se contentam em deixar que seus sonhos permaneçam apenas sonhos: nao os tentam transformá-los em realidade. Seus sonhos não são acompanhados do firme propósito de transformá-los em realidade.

Outros até tentam transformar seus sonhos em realidade, mas não sabem exatamente como, não conseguem encontrar os caminhos certos que vão levá-los aonde querem chegar. É preciso muita criatividade e inteligência para imaginar planos de ação que realmente nos levem de onde nós estamos até onde nós queremos chegar – o lugar dos nossos sonhos.

Gostaria aqui de reiterar (pois já foi mencionada) a importância de um elemento crucial na implementação de um projeto bem sucedido: persistência. Muitas vezes o plano de ação inicialmente elaborado não dá certo – e muitos se desanimam e eventualmente desistem de executar o projeto. Persistência é a característica daqueles que não se deixam abater porque o plano de ação não deu certo, mas tentam de novo, e de novo, até conseguirem transformar em realidade o que era apenas sonho...

Para que tenhamos persistência é necessário que o nosso sonho, o objeto do nosso projeto, seja perseguido com paixão!

Estão notando que nós estamos encontrando vários “p”s importantes a que fizemos referência no início?

Projeto = propósito + plano de ação + persistência + paixão

Para o indivíduo que tem um projeto de vida, quase qualquer coisa é suportável, se ele acredita que pode ajudar a alcançar o seu propósito.

 

Eduardo Chaves
Campinas, Abril de 2001
(c) Eduardo O C Chaves

 

[Texto redigido para servir de apoio para a discussão de projetos nos Onze Grupos e nos Encontros das Escolas para rever seus projetos na Semana de Imersão em Faxinal do Céu, de 16 a 22 de abril de 2001]



02-May-2004 19:41