------------------------------------------------------------------------ There are 25 messages in this issue. Topics in this digest: 1. Re: Sobre idearios e praticarios From: "Celso Vallin" 2. Re: Educacao Negativa From: "Celso Vallin" 3. Todo ponto de vista e' a vista de um ponto From: "Eduardo O C Chaves" 4. Conceito de Arte From: "Eduardo O C Chaves" 5. Protagonistas, Diretores e Roteiristas From: "Eduardo O C Chaves" 6. Re: Protagonistas, Diretores e Roteiristas From: "Otoniel Niccolini" 7. Re: Protagonistas, Diretores e Roteiristas From: "Otoniel Niccolini" 8. RE: Protagonistas, Diretores e Roteiristas From: "Eduardo O C Chaves" 9. Re: Protagonistas, Diretores e Roteiristas From: "Otoniel Niccolini" 10. Re: Definicao de educacao de Schofield From: "Celso Vallin" 11. RE: Definicao de educacao de Schofield From: "Eduardo O C Chaves" 12. Re: Sobre idearios e praticarios From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" 13. Educacao Negativa e Felicidade From: "Eduardo O C Chaves" 14. Ensino e Educacao From: "Eduardo O C Chaves" 15. Educacao Negativa (de novo) From: "Eduardo O C Chaves" 16. Aprendizagem e Educacao From: "Eduardo O C Chaves" 17. Visao de mundo e de homem From: "Eduardo O C Chaves" 18. Pensando um pouco mais.... From: "Luciana Salgado" 19. O Professor From: "Eduardo O C Chaves" 20. Reflexoes submetidas From: "Eduardo O C Chaves" 21. Re: Educacao Negativa (de novo) From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" 22. Re: Educacao Negativa From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" 23. RE: Educacao Negativa (de novo) From: "Eduardo O C Chaves" 24. Re: Aprendizagem e Educacao From: "Luciana Salgado" 25. Re: Educacao Negativa (de novo) From: "Luciana Salgado" ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 1 Date: Fri, 4 Jan 1980 23:39:04 -0200 From: "Celso Vallin" Subject: Re: Sobre idearios e praticarios Lu. Achei ótimo. Sábias suas palavras. A pergunta ainda é por onde começar? E como conseguir agir à distância? Um dos maiores problemas nas escolas é o acumulo de problemas e de tarefas. O cotidiano passa na frente do racional e do reflexivo. Como trazer bastante gente de uma escola para perto de nós, para que possamos ajuda-los? Um abraço, Celso Vallin - Sao Jose dos Campos (SP) ---------------------------------------------------- -----Mensagem Original----- De: Luciana Salgado Para: escola2000@courses.yahoo.com Enviada em: Domingo, 3 de Fevereiro de 2002 14:11 Assunto: Re: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Oi Eduardo, olá pessoal! Há muito tempo venho refletindo sobre essa questão que você nos trás, mas até agora eu não havia conseguido colocá-la no papel, o que você fez de forma muito clara e que, sem dúvida, deve ser o ponto de partida para nossas discussões: "Como transformar o ideário em praticário?" Difícil, não? Mas, não impossível.... . . . Bom, acho que é isso... O que vocês acham? Beijos Lu ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: eac@escola2000.net Sent: Sunday, February 03, 2002 11:51 AM Subject: [escola2000] Sobre idearios e praticarios No chat, nós combinamos continuar a discussão, na lista, de algumas das questões levantadas. Deixei o sabado inteiro para que isso acontecesse. Como nao aconteceu, estou comecando a provocar... Sugestões? . . . Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 2 Date: Tue, 5 Feb 2002 07:58:04 -0200 From: "Celso Vallin" Subject: Re: Educacao Negativa Legal Lenise. É isso ai. Um abraço, Celso Vallin - Sao Jose dos Campos (SP) ---------------------------------------------------- -----Mensagem Original----- De: Lenise Aparecida Martins Garcia Para: escola2000@courses.yahoo.com Enviada em: Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2002 10:43 Assunto: Re: [escola2000] Educacao Negativa Eduardo, todos Vou optar por comecar respondendo aa mensagem do Eduardo, mais tarde espero fazer alguns comentarios aa do Celso. > Uma das coisas que me levou a gostar de filosofia é exatamente uma das > coisas que leva muita gente a não gostar de filosofia: o fato de que idéias > que foram pensadas há mais de mil e quinhentos anos ainda estão sendo > discutidas com toda seriedade hoje em dia! Voce sabe que estou no time dos que tambem gostam de Filosofia :-). E tenho muita pena quando uma discussao e' jogada para escanteio com o argumento de que "e' filosofica", como se isso a tornasse desinteressante ou desnecessaria. Fico pensando, por exemplo, como podemos "aprender a ser" sem saber o que somos, e "o que somos" e' certamente uma pergunta filosofica. Uma mensagem da Lu tambem tocou nisto. > Agostinho, por outro lado, levava a doutrina da queda do homem muito no > Jardim do Éden a sério. Ele acreditava que o homem, como criado por Deus, > era basicamente bom, mas que, com a queda, sua natureza, que originalmente > era boa (como tudo o que Deus faz), se corrompeu irremediavelmente. Assim, > ao nascer, um bebê humano, apesar da aparência tão pura, já é um ser > totalmente depravado. Voce esta' colocando a leitura protestante de Agostinho... :-) Eu nao diria "totalmente depravado", mas me coloco em um "meio caminho", vendo o homem com a mistura de tendencias boas e mas a que me referi. Acho que o nosso enfoque de discussao aqui na lista nao pode ser o teologico, mas ja' que voce colocou por ai' e' interessante notar que a doutrina catolica fala em "natureza ferida", e nao em "depravada". > Há crianças, Lenise, que já nascem basicamente ruins? Que já nascem com > uma predisposição genética que as incline predominantemente para o mal? > Que, se se desenvolverem natural e espontaneamente, vão provavelmente dar > errado? Que precisam ter suas tendências naturais "corrigidas" pela educação? Penso que todos temos o nosso "lado bom" e o nosso "lado mau". [Essa nao e' apenas uma visao catolica, penso que e' nossa observacao cotidiana, nos outros e em nos mesmos; aparece em diferentes culturas, veja por exemplo o yin e yan chineses... :-)]. Muitas vezes sao coisas que aparecem como 2 faces de uma mesma moeda, no nosso modo de ser. Em muitos casos nao e' questao de ser "corrigidos", mas de ser "modulados", ou melhor de "modular-se", pois e' algo que tem que ir de dentro para fora e nao vice-versa [embora o estimulo externo tambem seja importante]. A visao genetica tem muitos exemplos. Aas vezes a gente le que "foi descoberto o gene do alcoolismo", em noticias que tem um enfoque mecanicista, se voce tem o gene vai ser alcoolico. Nao concordo com esse tipo de postura [que envolve inclusive uma negacao da liberdade humana]. Mas e' verdade que existem genes que mostram uma TENDENCIA para o alcoolismo. Uma pessoa com esse gene vai ter mais dificuldade para moderar-se na bebida. E' ate' possivel que tenha que renunciar a ela, como acao preventiva para o vicio. A renuncia, neste caso, viria a favor ou contra a liberdade dessa pessoa? A meu ver ela seria um ato de liberdade: faz uso de sua liberdade [mesmo impondo-se uma limitacao] para nao tornar-se escrava da bebida. > Que, nesse caso, a educação serie uma espécie de violência feita à > natureza da criança? Penso que faz parte da natureza humana a capacidade de agir inteligentemente, fazendo opcoes na vida e com isso aperfeicoando-se a si mesma. Isso faz parte, no meu entender, dos objetivos da educacao. O nosso temperamento e' inato, nosso carater e' construido ao longo da vida [por nos mesmos, mas sem duvida com influencias de nosso entorno social, com destaque para pais, professores...] Abracos, Lenise ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 3 Date: Tue, 5 Feb 2002 09:43:21 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Todo ponto de vista e' a vista de um ponto Só uma observação menor. No texto do Ney ele menciona, duas vezes, que a frase acima (no Assunto) é de autoria do Frei Betto. Acho que houve um equívoco (ou, pelo menos, uma incrível coincidência). Embora eu não tenha o livro comigo, estou analisando uma dissertação de mestrado que cita Leonardo Boff, A Águia e a Galinha: Uma Metáfora da Condição Humana (Vozes, Petrópolis, 1997), p.9, como dizendo: "Todo ponto de vista é a vista de um ponto. (. . .) A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha". Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 4 Date: Tue, 5 Feb 2002 10:26:58 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Conceito de Arte Achei bastante interessante a análise da arte que o Celso fez. Fez-me lembrar de duas coisas. Em 9/11/97 vi, no Globo News, uma entrevista do Vargas Llosa (dada ao Pedro Bial - que, por sinal é um jornalista muito culto que agora fica perdendo tempo com as besteiras do BBB e da Magda), em que ele definiu literatura de ficção como a tentativa de dar à realidade alguns aspectos que não nos conformamos que ela não tenha. O que ele disse sobre a ficção claramente se aplica às demais artes. Achei muito instigante essa caracterização da arte (que tem paralelos em algumas das coisas que o Celso destaca). Se todos os autores vissem assim a arte não teríamos tanto lixo que apenas descreve, e, às vezes, exagera, os piores aspectos da nossa realidade - e não como denúncia. A literatura, por exemplo, descreveria um mundo diferente, daqueles que a gente vê descritos e pergunta "por que não?" A segunda coisa de que me lembrei foi da teoria estética de Ayn Rand. Eis como ela caracteriza a arte: "A arte é a recriação seletiva da realidade de acordo com os valores mais básicos do artista". Ela descreve sua teoria da arte como "Realismo Romântico". "Sou romântica", diz ela, "no sentido de que apresento o homem como ele deveria ser. E sou realista porque o coloco aqui na terra, agora, como uma possibilidade real". Ou seja, sua visão do ideal não é a de um ideal impossível: é a de um ideal que pode se tornar real, (1) se o desejarmos e (2) se estivermos dispostos a pagar o preço. As duas visões, de Vargas Llosa e de Ayn Rand, se não idênticas, são muito próximas. Rand procura apresentar, através de sua ficção, o homem como ele deveria ser, o homem ideal. Se ela fosse escultora ou pintora, tenho certeza de que faria obras de arte que procurariam ser mais perfeitas do que os modelos que ela iria usar. Em um de seus livros ela diz que muita gente olha alguma coisa feita pelo homem, e, portanto, artificial, e diz: "que bonito, parece natural!" Ela, porém, quando vê algo bonito na natureza, tende a pensar: "que bonito, parece artificial!" -- isto é, parece arte, parece algo feito pelo homem em seus melhores momentos! A arte, para ela, representa o ideal, a perfeição que a realidade muitas vezes não tem. A arte é a corporificação dos valores mais básicos do artista, a realização daquilo que ele (como disse Vargas Llosa) não se conforma que não exista na realidade. Se a tese de Vargas Llosa e de Ayn Rand for aplicada ao que hoje passa como arte -- na literatura, nas artes plásticas -- podemos ter uma idéia de quais sejam os valores dos artistas que as produziram. Basta ir à Bienal. Numa das últimas havia um artista exibindo, de um lado, flores reais em vasos com fezes artificiais, e, do outro, flores artificiais em vasos com fezes reais. Não é difícil imaginar o que o artista tinha na cabeça... Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 5 Date: Tue, 5 Feb 2002 10:46:25 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Protagonistas, Diretores e Roteiristas Nas Reflexões do Ney encontrei um parágrafo que me fez ficar pensando... Eis o que ele disse: "Creio que há um momento certo para ser cada uma dessas coisas. Utilizando a metáfora do teatro, onde os jovens devem ser encarados como 'protagonistas' de suas próprias existências, o papel desses terceiros pode – e deve – variar conforme o 'script' que está sendo vivenciado pelos atores no palco do aprendizado." Valorizamos muito o papel dos atores principais. Eles ficam famosos, no cinema ganham Oscars, e, como a talentosa Julia Roberts, chegam a faturar 40 milhões de dólares por filme. Sem dúvida alguma, é bom ser ator ou atriz principal (protagonista). Mas o protagonista, a despeito de todo seu talento, está, no fundo, fazendo o que o diretor manda, e o diretor, por sua vez, precisa seguir um roteiro ou "script" (embora muitos diretores tenham autoridade para alterar o roteiro). Em outras palavras: apesar de todo o seu glamour, o protagonista não tem tanta liberdade e autonomia. Minha pergunta é: ok, que seja bom ser protagonista, mas eu preferiria estar também escrevendo o meu próprio roteiro e dirigindo a peça inteira... Feliz mesmo é a Barbara Streisand, em Yentl, que foi Produtora, Diretora, Roteirista e Protagonista... Ou o Clint Eastwoord, em As Pontes de Madison... (Dois filmes lindos, por sinal). Não dá pra pensar se nossa metáfora favorita não estaria a requerer alguma revisão? Um abraço Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 6 Date: Tue, 5 Feb 2002 11:20:59 -0200 From: "Otoniel Niccolini" Subject: Re: Protagonistas, Diretores e Roteiristas Eduardo, Me parece que você esta juntando dois conceitos diferentes e por isso está pensando em rever nosso termo favorito. A Julia Roberts não é uma protagonista na vida real - na vida real ela é uma atriz, que segue as instruções do diretor, roteirista, etc. Ela é protagonista da estória, onde interpreta uma linda mulher que vivencia romances sem ter regras a seguir. Na estória do filme - onde ela é protagonista - não há um diretor ou chefe obrigando ela a fazer isso ou aquilo. Sobre arte, ao ler os emails trocados hoje, lembrei de uma frase do Oscar Wilde, "A vida imita a arte." Toni ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: Sent: Tuesday, February 05, 2002 10:46 AM Subject: [escola2000] Protagonistas, Diretores e Roteiristas Nas Reflexões do Ney encontrei um parágrafo que me fez ficar pensando... Eis o que ele disse: "Creio que há um momento certo para ser cada uma dessas coisas. Utilizando a metáfora do teatro, onde os jovens devem ser encarados como 'protagonistas' de suas próprias existências, o papel desses terceiros pode - e deve - variar conforme o 'script' que está sendo vivenciado pelos atores no palco do aprendizado." Valorizamos muito o papel dos atores principais. Eles ficam famosos, no cinema ganham Oscars, e, como a talentosa Julia Roberts, chegam a faturar 40 milhões de dólares por filme. Sem dúvida alguma, é bom ser ator ou atriz principal (protagonista). Mas o protagonista, a despeito de todo seu talento, está, no fundo, fazendo o que o diretor manda, e o diretor, por sua vez, precisa seguir um roteiro ou "script" (embora muitos diretores tenham autoridade para alterar o roteiro). Em outras palavras: apesar de todo o seu glamour, o protagonista não tem tanta liberdade e autonomia. Minha pergunta é: ok, que seja bom ser protagonista, mas eu preferiria estar também escrevendo o meu próprio roteiro e dirigindo a peça inteira... Feliz mesmo é a Barbara Streisand, em Yentl, que foi Produtora, Diretora, Roteirista e Protagonista... Ou o Clint Eastwoord, em As Pontes de Madison... (Dois filmes lindos, por sinal). Não dá pra pensar se nossa metáfora favorita não estaria a requerer alguma revisão? Um abraço Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 7 Date: Tue, 5 Feb 2002 11:20:59 -0200 From: "Otoniel Niccolini" Subject: Re: Protagonistas, Diretores e Roteiristas Eduardo, Me parece que você esta juntando dois conceitos diferentes e por isso está pensando em rever nosso termo favorito. A Julia Roberts não é uma protagonista na vida real - na vida real ela é uma atriz, que segue as instruções do diretor, roteirista, etc. Ela é protagonista da estória, onde interpreta uma linda mulher que vivencia romances sem ter regras a seguir. Na estória do filme - onde ela é protagonista - não há um diretor ou chefe obrigando ela a fazer isso ou aquilo. Sobre arte, ao ler os emails trocados hoje, lembrei de uma frase do Oscar Wilde, "A vida imita a arte." Toni ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: Sent: Tuesday, February 05, 2002 10:46 AM Subject: [escola2000] Protagonistas, Diretores e Roteiristas Nas Reflexões do Ney encontrei um parágrafo que me fez ficar pensando... Eis o que ele disse: "Creio que há um momento certo para ser cada uma dessas coisas. Utilizando a metáfora do teatro, onde os jovens devem ser encarados como 'protagonistas' de suas próprias existências, o papel desses terceiros pode - e deve - variar conforme o 'script' que está sendo vivenciado pelos atores no palco do aprendizado." Valorizamos muito o papel dos atores principais. Eles ficam famosos, no cinema ganham Oscars, e, como a talentosa Julia Roberts, chegam a faturar 40 milhões de dólares por filme. Sem dúvida alguma, é bom ser ator ou atriz principal (protagonista). Mas o protagonista, a despeito de todo seu talento, está, no fundo, fazendo o que o diretor manda, e o diretor, por sua vez, precisa seguir um roteiro ou "script" (embora muitos diretores tenham autoridade para alterar o roteiro). Em outras palavras: apesar de todo o seu glamour, o protagonista não tem tanta liberdade e autonomia. Minha pergunta é: ok, que seja bom ser protagonista, mas eu preferiria estar também escrevendo o meu próprio roteiro e dirigindo a peça inteira... Feliz mesmo é a Barbara Streisand, em Yentl, que foi Produtora, Diretora, Roteirista e Protagonista... Ou o Clint Eastwoord, em As Pontes de Madison... (Dois filmes lindos, por sinal). Não dá pra pensar se nossa metáfora favorita não estaria a requerer alguma revisão? Um abraço Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 8 Date: Tue, 5 Feb 2002 11:28:37 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: RE: Protagonistas, Diretores e Roteiristas Longe de mim pensar em rever "nosso termo favorito", Toni! De vez em quando posso ser meio hereGe (obrigado, DriP...), mas não chego a tanto... Quis apenas que a gente refletisse um pouco sobre a metáfora. Mesmo deixando o teatro e o cinema de lado, para sermos protagonistas de nossas próprias vidas, precisamos ser capazes de escrever o seu roteiro (donde a idéia de sonhos, de projetos de vida) e devemos ser capazes de dirigi-la (donde a idéia de competências para transformar os sonhos em realidade)... Só isso. Quis dizer que é importante ser protagonista, mas que ser protagonista de uma vida roteirizada e dirigida por outrem é pouco: é preciso também escrever o roteiro e dirigir a peça / o filme da nossa vida. Por isso coloquei na linha de assunto: Protagonistas, Diretores e Roteiristas. Precisamos ser tudo isso. Eduardo -----Original Message----- From: Otoniel Niccolini [mailto:oniccolini@ias.org.br] Sent: Tuesday, February 05, 2002 11:21 AM To: escola2000@courses.yahoo.com; eac@escola2000.net Subject: Re: [escola2000] Protagonistas, Diretores e Roteiristas Eduardo, Me parece que você esta juntando dois conceitos diferentes e por isso está pensando em rever nosso termo favorito. A Julia Roberts não é uma protagonista na vida real - na vida real ela é uma atriz, que segue as instruções do diretor, roteirista, etc. Ela é protagonista da estória, onde interpreta uma linda mulher que vivencia romances sem ter regras a seguir. Na estória do filme - onde ela é protagonista - não há um diretor ou chefe obrigando ela a fazer isso ou aquilo. Sobre arte, ao ler os emails trocados hoje, lembrei de uma frase do Oscar Wilde, "A vida imita a arte." Toni ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: Sent: Tuesday, February 05, 2002 10:46 AM Subject: [escola2000] Protagonistas, Diretores e Roteiristas Nas Reflexões do Ney encontrei um parágrafo que me fez ficar pensando... Eis o que ele disse: "Creio que há um momento certo para ser cada uma dessas coisas. Utilizando a metáfora do teatro, onde os jovens devem ser encarados como 'protagonistas' de suas próprias existências, o papel desses terceiros pode - e deve - variar conforme o 'script' que está sendo vivenciado pelos atores no palco do aprendizado." Valorizamos muito o papel dos atores principais. Eles ficam famosos, no cinema ganham Oscars, e, como a talentosa Julia Roberts, chegam a faturar 40 milhões de dólares por filme. Sem dúvida alguma, é bom ser ator ou atriz principal (protagonista). Mas o protagonista, a despeito de todo seu talento, está, no fundo, fazendo o que o diretor manda, e o diretor, por sua vez, precisa seguir um roteiro ou "script" (embora muitos diretores tenham autoridade para alterar o roteiro). Em outras palavras: apesar de todo o seu glamour, o protagonista não tem tanta liberdade e autonomia. Minha pergunta é: ok, que seja bom ser protagonista, mas eu preferiria estar também escrevendo o meu próprio roteiro e dirigindo a peça inteira... Feliz mesmo é a Barbara Streisand, em Yentl, que foi Produtora, Diretora, Roteirista e Protagonista... Ou o Clint Eastwoord, em As Pontes de Madison... (Dois filmes lindos, por sinal). Não dá pra pensar se nossa metáfora favorita não estaria a requerer alguma revisão? Um abraço Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 9 Date: Tue, 5 Feb 2002 11:48:38 -0200 From: "Otoniel Niccolini" Subject: Re: Protagonistas, Diretores e Roteiristas Dr Keys wrote: >Quis dizer que é importante ser protagonista, mas que ser protagonista >de uma vida roteirizada e dirigida por outrem é pouco: é preciso também >escrever o roteiro e dirigir a peça / o filme da nossa vida. Por isso >coloquei na linha de assunto: Protagonistas, Diretores e Roteiristas. >Precisamos ser tudo isso. Mas o que eu estou tentando dizer é que o protagonista realmente é tudo isso - ele é diretor, roteirista. Pense no protagonista de um filme, ele (o personagem da estória), normalmente é quem está em controle de sua vida, resolve seus conflitos e pensa por si. A Julia Roberts é protagonistas dos filmes, na ficção, na vida real ela é somente uma atriz. O Clint Eastwood protagonista é na vida real. Toni ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 10 Date: Fri, 4 Jan 1980 12:25:59 -0200 From: "Celso Vallin" Subject: Re: Definicao de educacao de Schofield Oi Eduardo e todos. Gostei de suas respostas às questões. Eu não sabia onde você queria chegar com aquelas definições, mas confesso que fiquei um pouco contrariado. Não escrevi nada com medo de criar algum mal estar. Gosto de definições, mas elas precisam ser construídas com nossa prática. Em cada momento percebemos mais um pedaço ou aspecto que não percebíamos antes. Mudamos de opinião em alguns lugares. O documento da Unesco define o que se pode pensar sobre educação, nestes nossos dias, de forma mais apropriada. Mesmo assim, conforme o interlocutor, sua história, seu estado atual, talvez aquelas folhas não signifiquem muita ajuda. Na verdade a tensão criada entre teoria e prática, e no nosso caso, a prática são as escolas e os alunos que tentamos ajudar, é o que nos da condições de construir, ou de reconstruir a teoria sobre a educação. Você está planejando que conversemos sobre nossas experiencias (práticas) no ano passado? Vamos interlaçar essa teoria com aquelas práticas? Eu sei muito pouco sobre o que todos fizeram e conseguiram com suas escolas em 2001. Isso não seria um material rico para o seu trabalho conosco? Um abraço, Celso Vallin - Sao Jose dos Campos (SP) ---------------------------------------------------- -----Mensagem Original----- De: Eduardo O C Chaves Para: eac@escola2000.net Enviada em: Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2002 13:42 Assunto: [escola2000] Definicao de educacao de Schofield Nas primeiras Questoes Desafiadoras há a seguinte observação, de Harry Schofield, sobre o conceito de educação: "Se verificarmos que os dois grandes oponentes no pensamento educacional, os 'formalistas' (que acreditavam que a educação era uma disciplina e que as crianças aprendem o que é bom para elas, são para ser vistas e não ouvidas, e são tornadas em pessoas específicas pela sua educação) e os 'naturalistas' (que criam que a educação deve meramente 'deixar a criança se desenvolver'), ambos reivindicam a correção de suas definições em termos etimológicos, veremos quão fútil é fazer apelo à etimologia". [H. Schofield] A Lenise corretamente observou que fica meio difícil tomar posição sobre essa passagem, fora de contexto. Por isso estou acrescentando o contexto em que ela foi feita. Essa passagem foi retirada do livro The Philosophy of Education: An Introduction, de Harry Schofield (George Allen and Unwin, Londres, 1972). A passagem foi retirada da p.32 (tradução minha): "Foi moda, há algum tempo, usar definições 'etimológicas'. Essas são definições de uma palavra em termos do sentido de uma outra palavra, geralmente do grego ou do latim, da qual ela se deriva. Fizemos isso, no Capítulo 1, quando dissemos que o termo 'filosofia' vem de um termo grego 'philosophia' que significa 'amor à sabedoria' ou 'amor ao conhecimento'. Ducasse nos dá a seguinte definição étimológica de 'educação': 'Etimologicamente, educar é trazer de dentro para fora'. Esta é a primeira definição de educação (dentre as que já vimos) que afirma, categoricamente, o que a educação é [em vez do que 'deve ser']. Infelizmente, essa teoria é particularmente estéril, porque uma outra escola de pensamento nega que educação venha de 'educere' [trazer para fora], afirmando que vem de 'educare', que significa 'dar forma a'." A seguir vem a passagem que eu citei. Agradeço à Lenise a sua leitura atenta. Um abraço. Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 11 Date: Tue, 5 Feb 2002 13:42:50 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: RE: Definicao de educacao de Schofield Diz o Celso: >Você está planejando que conversemos sobre nossas experiências (práticas) no ano passado? Vamos interlaçar essa teoria com aquelas práticas? Eu sei muito pouco sobre o que todos fizeram e conseguiram com suas escolas em 2001. Isso não seria um material rico para o seu trabalho conosco?< Na "Comunicação Inicial", em que esclareço os objetivos desta nossa experiência de aprendizagem virtual, escrevi o seguinte: "Assim sendo, nossos objetivos específicos, em relação aos objetivos, aos princípios e à estratégia de ação do Sua Escola, nesta nossa experiência de aprendizagem colaborativa, são: • Entender corretamente os objetivos, os princípios básicos e a estratégia de ação do Instituto Ayrton Senna e do Sua Escola; • Descobrir como podemos ajudar as escolas parceiras a traduzir os princípios do programa em prática pedagógica concreta (plano do Fazer) • Identificar, registrar e sistematizar as práticas pedagógicas das escolas que aplicam os princípios do programa e, que, portanto, levam à consecução de seus objetivos, de modo a desenvolver uma tecnologia social que possa ser utilizada em escolas que não participam do programa (plano do Influir)." Por isso, Celso, o que você menciona está perfeitamente dentro do que foi planejado para este nosso exercício aqui, desde que, obviamente, a ênfase não fique na simples descrição da experiência, mas, sim, na experiência como tradução para a prática dos princípios do programa. Um abraço. Eduardo -----Original Message----- From: Celso Vallin [mailto:celsovallin@yahoo.com] Sent: Friday, January 04, 1980 12:26 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: Re: [escola2000] Definicao de educacao de Schofield Oi Eduardo e todos. Gostei de suas respostas às questões. Eu não sabia onde você queria chegar com aquelas definições, mas confesso que fiquei um pouco contrariado. Não escrevi nada com medo de criar algum mal estar. Gosto de definições, mas elas precisam ser construídas com nossa prática. Em cada momento percebemos mais um pedaço ou aspecto que não percebíamos antes. Mudamos de opinião em alguns lugares. O documento da Unesco define o que se pode pensar sobre educação, nestes nossos dias, de forma mais apropriada. Mesmo assim, conforme o interlocutor, sua história, seu estado atual, talvez aquelas folhas não signifiquem muita ajuda. Na verdade a tensão criada entre teoria e prática, e no nosso caso, a prática são as escolas e os alunos que tentamos ajudar, é o que nos da condições de construir, ou de reconstruir a teoria sobre a educação. Você está planejando que conversemos sobre nossas experiências (práticas) no ano passado? Vamos interlaçar essa teoria com aquelas práticas? Eu sei muito pouco sobre o que todos fizeram e conseguiram com suas escolas em 2001. Isso não seria um material rico para o seu trabalho conosco? Um abraço, Celso Vallin - Sao Jose dos Campos (SP) ---------------------------------------------------- -----Mensagem Original----- De: Eduardo O C Chaves Para: eac@escola2000.net Enviada em: Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2002 13:42 Assunto: [escola2000] Definicao de educacao de Schofield Nas primeiras Questoes Desafiadoras há a seguinte observação, de Harry Schofield, sobre o conceito de educação: "Se verificarmos que os dois grandes oponentes no pensamento educacional, os 'formalistas' (que acreditavam que a educação era uma disciplina e que as crianças aprendem o que é bom para elas, são para ser vistas e não ouvidas, e são tornadas em pessoas específicas pela sua educação) e os 'naturalistas' (que criam que a educação deve meramente 'deixar a criança se desenvolver'), ambos reivindicam a correção de suas definições em termos etimológicos, veremos quão fútil é fazer apelo à etimologia". [H. Schofield] A Lenise corretamente observou que fica meio difícil tomar posição sobre essa passagem, fora de contexto. Por isso estou acrescentando o contexto em que ela foi feita. Essa passagem foi retirada do livro The Philosophy of Education: An Introduction, de Harry Schofield (George Allen and Unwin, Londres, 1972). A passagem foi retirada da p.32 (tradução minha): "Foi moda, há algum tempo, usar definições 'etimológicas'. Essas são definições de uma palavra em termos do sentido de uma outra palavra, geralmente do grego ou do latim, da qual ela se deriva. Fizemos isso, no Capítulo 1, quando dissemos que o termo 'filosofia' vem de um termo grego 'philosophia' que significa 'amor à sabedoria' ou 'amor ao conhecimento'. Ducasse nos dá a seguinte definição étimológica de 'educação': 'Etimologicamente, educar é trazer de dentro para fora'. Esta é a primeira definição de educação (dentre as que já vimos) que afirma, categoricamente, o que a educação é [em vez do que 'deve ser']. Infelizmente, essa teoria é particularmente estéril, porque uma outra escola de pensamento nega que educação venha de 'educere' [trazer para fora], afirmando que vem de 'educare', que significa 'dar forma a'." A seguir vem a passagem que eu citei. Agradeço à Lenise a sua leitura atenta. Um abraço. Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 12 Date: Tue, 5 Feb 2002 13:56:40 -0200 From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" Subject: Re: Sobre idearios e praticarios Oi, pessoal Vou comentar neste mesmo subject a proposta do Celso, de trazermos experiencias. Acabo de ler tambem a resposta do Eduardo e acho que e' bem interessante tentar levar conjuntamente as coisas, teoria/pratica. Vou sugerir uma outra possibilidade de abordagem. Se comecarmos a relatar diferentes experiencias, acho que podemos cair realmente em muita descricao e pouco fruto, mesmo porque nunca uma experiencia se repete do mesmo modo. Mas acho que seria muito interessante termos alguns "casos" para discutir. Uma situacao concreta [que pode ser real, ter acontecido no ano passado com alguem, ou ficticia] e discutirmos como atuariamos, seguindo os principios. O que acham? Abracos, Lenise > A pergunta ainda é por onde começar? E como conseguir agir à > distância? Um dos maiores problemas nas escolas é o acumulo de > problemas e de tarefas. O cotidiano passa na frente do racional > e do reflexivo. > > Como trazer bastante gente de uma escola para perto de nós, para que > possamos ajuda-los? ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 13 Date: Tue, 5 Feb 2002 14:20:55 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Educacao Negativa e Felicidade Diz o Ney, em suas Reflexões, a propósito de Summerhill (com a gurizada pelada aprendendo matemática na beira da piscina...): "Não creio que um lugar que ensinasse crianças a serem potencialmente felizes e capazes pudesse estar fazendo educação negativa". Ao ler isso, lembrei-me de Emílio, de Rousseau. Fui procurar minha cópia velha, toda rabiscada, e achei umas passagens interessantes, que a seguir cito (usando a edição "Clássicos Garnier" da DIFEL - Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1968 - eis o que a DIFEL estava publicando naquele 1968 fatídico para o Brasil!): [DEFINIÇÕES, CONCEITUAÇÕES, TESES] "Expondo com liberdade meu sentimento, tenho tão pouco em vista ser ele irrespondível que junto sempre minhas razões, a fim de que as pesem e me julguem: mas, embora não queira obstinar-me em defender minhas idéias, não me creio por isso menos obrigado a propô-las, porquanto as máximas acerca das quais sou de opinião contrária à dos outros não são indiferentes. São máximas cuja verdade ou falsidade importa conhecer e que fazem a felicidade ou a infelicidade do gênero humano" (pp.6-7, Prefácio). [APRENDER A SER] "Na ordem natural, sendo os homens todos iguais, sua vocação comum é o estado de homem: e quem quer seja bem educado para esse, não pode desempenhar-se mal dos que com esse se relacionam. (. . .) Antes da vocação dos pais, a natureza chama-o para a vida humana. Viver é o ofício que lhe quero ensinar. Saindo de minhas mãos, ele não será, concordo, nem magistrado, nem soldado, nem padre; será primeiramente um homem. Tudo o que um homem deve ser, ele o saberá, se necessário, tão bem quanto quem quer que seja; e por mais que o destino o faça mudar de situação, ele estará sempre em seu lugar" (p.15). [CRÍTICA À IDEIA DE EDUCAÇÃO COMO DAR FORMA, MODELAR] "Dizem que muitas parteiras pretendem, com massagens na cabeça das crianças recém-nascidas, dar-lhe uma forma mais conveniente, e aceita-se isso! (. . .) As parteiras modelam as cabeças por fora, os filósofos por dentro. Mal a criança sai do seio da mãe, mal goza a liberdade de se mexer e distender seus membros, já lhe dão novas cadeias." (p.17, com pequenas alteração na tradução). [A CIDADE E O CAMPO] "Os homens não foram feitos para se amontoarem em formigueiros e sim para serem espalhados pela terra que devem cultivar. Quanto mais se juntam, mais se corrompem. As enfermidades do corpo, bem como os vícios da alma, são a conseqüência infalível dessa aglomeração excessiva. De todos os animais, o homem é o que menos pode viver em rebanho. (. . .) O hálito do homem é mortal para os seus semelhantes; isso não é menos verdadeiro no sentido próprio do que no figurado. As cidades são os báratros da espécie humana. Ao fim de algumas gerações as raças morrem ou se degeneram; é preciso renová-las e é sempre o campo que procede a essa renovação. Mandai, portanto, vossos filhos renovarem-se, por assim dizer, a si mesmos, recuperando nos campos o vigor perdido no ar malsão dos lugares demasiado povoados. As mulheres grávidas que se encontram nos campos apressam-se em ir ter seus filhos na cidade: deveriam fazer exatamente o contrário... " (p.38). [APRENDIZAGEM] "A educação começa com a vida. Ao nascer a criança já é discípulo, não do governante, e, sim, da natureza. (. . .) Nascemos capazes de aprender, mas não sabendo nada, não conhecendo nada. Repito-o, a educação do homem começa com seu nascimento: antes de falar, antes de compreender, já ele se instrui. A experiência adianta-se às lições. (. . .) No princípio da vida, quando a memória e a imaginação são ainda inativas, a criança só presta atenção àquilo que afeta seus sentidos no momento, sendo suas sensações o primeiro material de seus conhecimentos. (. . .) Como ela só presta atenção a suas sensações, basta primeiramente mostrar-lhe bem distintamente a ligação dessas sensações com os objetos que as provocam. Ela quer meter a mão em tudo, tudo manejar; não contrarieis essa inquietação. Ela lhe sugere um aprendizado muito necessário. Assim é que ela aprende a sentir o calor, o frio, a dureza, a moleza, o peso, a leveza dos corpos, a julgar de seu tamanho, de sua forma e de todas as suas qualidades sensíveis, a olhando, apalpando, ouvindo e principalmente comparando a vista ao tato, estimando pelo olhar a sensação que provocariam em seus dedos. É somente pelo movimento que sabemos que há coisas que não são nós; e é somente pelo nosso próprio movimento que adquirimos a idéia da extensão. (. . .) Cuidai, portanto, de passeá-la amiúde, de transportá-la de um lugar para outro, de fazê-la sentir essa mudança, a fim de ensiná-la a julgar as distâncias." (p.40-45 - pequenas variações na tradução). [ENSINO E AUTO-APRENDIZAGEM] "Nossa mania pedante de educar é sempre a de ensinar às crianças o que aprenderiam muito melhor sozinhas e esquecer o que somente nós lhe poderíamos ensinar. Haverá coisa mais tola do que o cuidado que tomamos para ensinar-lhes a andar, como se tivéssemos visto alguém que, por negligência de sua ama, não soubesse a andar quando grande? E, ao contrário, quanta gente vemos andando mal porque lhe ensinaram mal a andar?" (p.59) [EDUCAÇÃO, LIBERDADE E FELICIDADE] "Que pensar então dessa educação bárbara que sacrifica o presente a um futuro incerto, que cumula a criança de cadeias de toda espécie e começa por torná-la miserável a fim de preparar-lhe, ao longe, não sei que pretensa felicidade de que provavelmente não gozará nunca? Ainda que supusesse essa educação razoável em seu objetivo, como ver sem indignação pobres desgraçados condenados a trabalhos contínuos, como forçados, sem ter certeza de que tantos cuidados lhes serão úteis algum dia! (. . .) Homens, sejais humanos, é vosso primeiro dever. (. . .) Amai a infância; favorecei seus jogos, seus prazeres, seu amável instinto. (. . .) Por que arrancar desses pequenos inocentes o gozo de um tempo tão curto, que lhes escapa, de um bem tão precioso de que não podem abusar? (. . .) Fazei com que, a qualquer hora que Deus a chame, não morram sem ter gozado a vida. (. . .) Em que consiste a sabedoria humana ou o caminho da felicidade verdadeira? Não consiste precisamente em diminuir nossos desejos, pois se se encontrassem abaixo de nossas forças, parte de nossas faculdades permaneceria ociosa e não gozaríamos de todo o nosso ser. Nem consiste tampouco em ampliar nossas faculdades, pois, se estas se ampliassem nas mesmas proporções, mais miseráveis ainda seríamos. Ela consiste, certo, em diminuir o excesso dos desejos sobre as faculdades e a por em perfeita igualdade o poder e a vontade. (. . .) É somente em um estado primitivo que o equilíbrio do poder e do desejo se encontra e que o homem não é infeliz. Logo que suas faculdades virtuais se põem em ação, a imaginação a mais ativa de todas, desperta e se coloca à frente delas. É a imaginação que nos apresenta a medida das possibilidades, no bem como no mal, e que por conseguinte excita e alimenta os desejos pela esperança de satisfazê-los. (. . .) Quanto mais o homem permanece perto de sua condição natural, mais a diferença de suas faculdades com seus desejos se faz pequena e menos, por conseguinte, ele se acha longe de ser feliz. Ele não é nunca menos miserável do que quando parece desprovido de tudo; pois a miséria não consiste na privação das coisas e sim na necessidade que delas se faz sentir. O mundo real tem seus limites; o mundo imaginário é infinito. Não podendo alargar um, restrinjamos o outro, pois é de sua diferença que nascem todas as penas que nos tornam, realmente desgraçados. (. . .) Quando se diz que o homem é fraco, que se quer dizer? Essa palavra fraqueza indica uma relação, uma relação de ser a que é aplicada. Aquele cuja força ultrapassa as necessidades, inseto ou verme, é um ser forte; aquele cujas necessidades ultrapassam a força, elefante ou leão, conquistador ou herói, - ou um deus - é um ser fraco. O anjo rebelde que menosprezou sua natureza era mais fraco do que o feliz mortal que vive em paz segundo a sua. O homem é muito forte quando se contenta com ser o que é; é muito fraco quando quer erguer-se acima da humanidade. (. . .) Todos os animais têm exatamente as qualidades necessárias para se conservarem. Só o homem as têm supérfluas. Não é estranho que esse supérfluo seja o instrumento de sua desgraça? (. . .) É à força de trabalhar para aumentar nossa felicidade que a transformamos em miséria. Todo homem que só quisesse viver, viveria feliz; conseguintemente seria bom, pois que vantagem teria em seu mau? (. . .) O único indivíduo que faz o que quer é aquele que não tem necessidade, para fazê-lo, de por os braços de outro na ponta dos seus; do que se depreende que o maior de todos os bens não é a autoridade e sim a liberdade. O homem realmente livre só quer o que pode e faz o que lhe apraz. Eis minha máxima fundamental. Trata-se apenas de aplicá-la à infância, e todas as regras da educação vão dela decorrer" (pp. 60-67). [LIBERDADE] "Ninguém tem o direito, nem mesmo o pai, de mandar a criança fazer algo que não lhe seja útil. Antes que os preconceitos e as instituições humanas alterem nossas tendências naturais, a felicidade das crianças, bem como a dos homens, consiste no emprego de sua liberdade. Mas essa liberdade, nas primeiras, é limitada pela sua fraqueza. Quem quer que faça o que deseja é feliz, se se bastar a si mesmo: é o caso do homem vivendo em seu estado natural. Quem quer que faça o que deseja não será feliz se suas necessidades ultrapassarem as suas forças: é o caso da criança no mesmo estado. As crianças não gozam, mesmo em seu estado natural, senão de uma liberdade imperfeita, semelhante a de que gozam os homens em sociedade." (p.68) "A natureza tem, para fortalecer o corpo e fazê-lo crescer, meios que nunca devemos contrariar. Cumpre não obrigar uma criança a ficar parada quando quer andar, nem a andar quando quer ficar parada. Quando a vontade da criança não é viciada por nossa culpa, ela não quer nada inutilmente. É preciso que pule, que corra, que grite quando tem vontade." (p.69) "Sabeis qual o meio mais sguro de tornar vosso filho desgraçado? Acostumá-lo a tudo conseguir; pois, crescendo incessantemente os seus desejos com a facilidade de satisfazê-los, mais cedo ou mais tarde a impossibilidade de atendê-los vos forçará à recusa; e esse recusa, não sendo habitual, lhe dará mais aborrecimento do que a própria privação de que ele deseja. . . . Portanto a criança, a quem baste querer para conseguir, se imaginará dona do universo e encarará todos os homens como escravos". (p. 71) [O HOMEM NATURALMENTE BOM] "Ponhamos como máxima incontestável que os primeiros movimentos da natureza são sempre retos: não existe perversão original no coração humano; não se encontra neste nenhum só vício que não se possa dizer como e por onde entrou". (p. 78) [EDUCAÇÃO NEGATIVA] "A educação primeira deve portanto ser puramente negativa. Ela consiste, não em ensinar a virtude ou a verdade, mas em preservar o coração do vício e o espírito do erro. (. . .) Começando por nada fazer, teríeis feito um prodígio de educação. Fazei o contrário do uso e fareis quase sempre bem. (. . .) Mas onde poremos essa criança para educá-la assim (. . .)? Na lua, numa ilha deserta? Afastada de todos os humanos? (. . .) Essa objeção é séria e sólida. Mas vos terei dito porventura que uma educação natural fosse uma empresa fácil? Ó homens, será culpa minha se tornastes difícil tudo o que é certo? Sinto tais dificuldades, e confesso: talvez sejam insuperáveis. Mas o fato é que, procurando aplicadamente preveni-las, até certo ponto as prevenimos. Mostro a meta que é preciso atingir, não digo que se possa consegui-lo; mas digo que quem dela mais se aproximar terá tido o maior êxito" (p. 81) "Quanto a meu aluno, ou melhor, o da natureza, exercitado desde cedo a bastar-se a si mesmo na medida do possível, não se acostuma a recorrer sem cessar aos outros e menos ainda a exibir-lhes seu grande saber. Em compensação, julga, prevê, raciocina em tudo que se relaciona de perto consigo. Não discursa, age.; não sabe uma palavra do que se faz na sociedade, mas sabe muito bem o que lhe convém. Como está sempre em movimento, é forçado a observar muitas coisas e a conhecer muitos efeitos; adquire rapidamente uma grande experiência; toma lições da natureza e não dos homens; e tanto mais bem se instrui, quanto não vê nenhuma intenção de instruí-lo. Assim, seu corpo e seu espírito se exercitam ao mesmo tempo. Agindo sempre segundo seu pensamento e não segundo o de outrem, une continuamente duas operações: quanto mais se faz forte e robusto, mais se torna sensato e judicioso. É o meio de ter um dia aquilo que julgam incompatível, e o que quase todos os grandes homens reuniram em si, a força do corpo e a da alma, a razão de um sábio e o vigor de um atleta. Jovem institutor, eu vos prego uma arte difícil, a de governar sem preceitos e de tudo fazer não fazendo nada" (p. 113) [A FUNÇÃO DO PROFESSOR "NEGATIVO"] "Tornai vosso aluno atento aos fenômenos da natureza, muito breve o tornareis curioso. Mas, para alimentar sua curiosidade, não vos apresseis nunca em satisfazê-la. Ponde os problemas ao seu alcance e deixai-o que os resolva. Que nada saiba porque vós lho dissestes, e sim porque o compreendeu sozinho. (. . .) Quereis ensinar-lhe geografia e ides procurar globos, esferas, mapas: quanta estória! Por que todas essas representações? Por que não começais mostrando-lhe o próprio objeto...? Uma bela tarde vamos passear num lugar favorável, onde o horizonte bem descoberto deixa ver em cheio o sol morrendo e observam-se os objetos que tornam reconhecível o lugar de seu crepúsculo. ( . . .) Educado no espírito de nossas máximas, acostumado a tirar todos os seus instrumentos de si mesmo, a não recorrer nunca a ninguém, senão depois de ter reconhecido sua insuficiência, a cada novo objeto que vê, ele o examina muito tempo sem nada dizer. Ele é pensativo e não perguntador. Contentai-vos com apresentar-lhes os objetos no momento certo; depois, quando virdes sua curiosidade suficientemente ocupada, proponde alguma pergunta lacônica que o ponha no caminho de responder. (. . .) Apesar disso será preciso, sem dúvida, guiá-la [à criança] um pouco, mas muito pouco e sem que o pareça. Se se enganar, deixai-a fazer, não corrijais seus erros, esperai em silêncio que ela esteja em condição de vê-los e de corrigi-los ela própria. Quando muito, numa ocasião favorável, imaginai alguma operação que a faça senti-los. Se ela não se enganasse nunca, não aprenderia tão bem. (. . .) Não se trata de ensinar-lhe as ciências e sim de dar-lhe inclinação para as amar e métodos para as aprender, quando a inclinação se tiver desenvolvido bastante. Eis um princípio fundamental da boa educação." (pp. 176-181) "Pensai bem em que raramente vos cabe propor-lhe o que deve aprender; ele [o menino] é que deve desejá-lo, procurá-lo, encontrá-lo; a vós a tarefa de fazer nascer habilmente o desejo de fornecer-lhe os meios de satisfazê-lo. Disso se deduz que vossas perguntas devem ser pouco freqüentes, mas bem escolhidas, e como ele terá muito mais a fazer-vos do que vós a ele, vós estareis sempre menos desprevenido e o mais das vezes no caso de lhe dizer: Em que o que me perguntais é útil a saber?" (p. 192) ===== Será que terei incentivado alguns a se interessar por ler Emílio, de Rousseau, publicado pela primeira vez em 1762, ou seja, há 242 anos? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 14 Date: Tue, 5 Feb 2002 14:29:47 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Ensino e Educacao Diz o Ney em suas Reflexoes: >O ensino seria uma forma mais sistemática de transmitir, intercambiar e buscar conhecimentos, particularmente em escolas. Os conceitos quase se confundem, mas há hoje muita gente ENSINANDO sem EDUCAR. Na minha opinião, é viável definir “ensinar” como “ajudar a aprender”, buscar meios e métodos eficazes (sistemáticos) para a transmissão e troca de “saberes”.< Creio não haver dúvida de que há muita gente ensinando sem educar. Mas vamos procurar identificar algumas práticas concretas de quem educa sem ensinar? O que vocês identificaram, nas escolas, que pudesse se encaixar nessa categoria, de educação sem ensino? Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 15 Date: Tue, 5 Feb 2002 14:38:37 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Educacao Negativa (de novo) Diz a Lenise em suas Reflexões: >Discordo da idéia de "educação negativa", por vários motivos. Colocarei aqui 2 deles: 1. Acho que ela presume uma noção de que o ser humano "nasce bom". Assim, o seu "desenvolvimento natural e espontâneo" levaria a atingir os objetivos da educação. Não penso que seja assim, e sim que todos temos tendências positivas e negativas dentro de nós. Um aspecto importante do "aprender a ser" é justamente buscar o desenvolvimento dos aspectos positivos e, de algum modo, um "domínio" e superação das tendências negativas. 2. Ela presume também que e' possível uma "não interferência". Mas qualquer pessoa que vive em um meio social esta' sofrendo interferências o tempo todo. Boa parte da tarefa do educador é entender como são essas interferências e fazer a sua própria.< O meu resumo da educação negativa de Rousseau levou você a reconsiderar seu ponto de vista, Lenise? Ou fica tudo como está? Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 16 Date: Tue, 5 Feb 2002 14:45:28 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Aprendizagem e Educacao Diz a Luciana: > Então, podemos dizer que a aprendizagem é condição necessária, mas não suficiente para o processo educacional de um indivíduo.< Para que tenhamos educação, então, é necessário ter aprendizagem, mas ter também algo mais. Qual é o "algo mais", ou quais são os "algo mais", que acrescentado(s) à aprendizagem produzem educação? A Luciana sugere: "Para que a aprendizagem se torne uma Educação, é necessário que ambientes dinâmicos permitam a reflexão com o objetivo de se pensar em como introduzi-los como práticas do dia-a-dia." Confesso que fiquei meio perdidinho... Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 17 Date: Tue, 5 Feb 2002 14:50:59 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Visao de mundo e de homem A Bel, em resposta à questão "Você acha que conceituações desse tipo podem ser consideradas definições objetivas ou serão elas nada mais do que manifestações de persuasões subjetivas (“definições persuasivas”), formulada sobre a conceituação de educação como "em seu sentido mais amplo, é o processo mediante o qual as pessoas se tornam capazes de [desenvolvem as competências necessárias para] viver suas vidas, tanto no plano individual (privado) como no social (público), de forma livre e responsável, autônoma e solidária, competente e produtiva", disse: > À primeira vista, me pareceu bastante objetiva. Mas, se pensarmos que nessa conceituação está embutida uma visão de mundo e de homem, poderíamos dizer que é uma definição subjetiva. Para mim, isso não faz com que seja considerada inadequada, uma vez que, além de compartilhar dessa visão de mundo e de homem, acredito que, ao definirmos educação, é importante esclarecer o que realmente esperamos que aconteça com o indivíduo, ator dessa educação. < Qual é a visão de mundo e de homem que você encontrou embutida nessa conceituação de educação, Bel? Você até mesmo diz que compartilha dessa visão. Dar para deixá-la mais explícita? Um abraço. Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 18 Date: Tue, 5 Feb 2002 15:52:23 -0200 From: "Luciana Salgado" Subject: Pensando um pouco mais.... Olá pessoal! Lendo os trabalhos colocados pelo Ney, Bel, Lenise, Celso e comentários do Eduardo, percebi que, em muitos momentos, as respostas foram semelhantes, o que achei interessante, levando em conta que temos diferentes formações e construirmos nossas idéias a partir de diferentes fontes de informações e interações (apesar de uma delas ser comum a todos nós: a nossa lista). Acho que essa constatação pode levar a uma reflexão: será que nossa troca de idéias no virtual interferiu na nossa formação fazendo com que tenhamos idéias semelhantes? E outra, será que podemos dizer que estamos afinados em relação aos princípios do programa? Bom, esse início foi somente uma "viagem", mas o que me trás realmente aqui é a vontade de discutir mais sobre uma questão que para mim não ficou tão clara, apesar que tenho as minhas hipóteses, e que se confirmadas, podem levar a uma outra reflexão também bem interessante. A questão a que me refiro é a nº 2 onde é perguntado se o conceito de Educação apresentado é uma definição objetiva ou somente uma manifestação de persuasão subjetiva. Vejam as respostas de cada um: - Citando Frei Beto, "todo ponto de vista é a vista de um ponto". Toda definição é uma tentativa de objetivação, mas toda conceituação atende a um determinado tempo, lugar, ocasião e vontade dos definidores. O olhar que hoje define uma determinada realidade, à medida que se conhece mais esta realidade tende a incorporar elementos em uma definição ou até mesmo a buscar novas formas de ver e de compreender esta realidade. Basta ver o que tínhamos como definições iniciais do programa Sua Escola (ainda enquanto concurso) e hoje, passados dois anos. É certo que o conceito de educação que teremos daqui a cinco anos terá incorporado valores mais densos, expandindo-se, ganhando em qualidade e grau de certeza. (Ney) - Acho que no caso nem uma coisa nem outra. Eu diria que é uma tentativa de expressar, o mais objetivamente possível, o que efetivamente ocorre quando se educa. (Lenise) - À primeira vista, me pareceu bastante objetiva. Mas, se pensarmos que nessa conceituação está embutida uma visão de mundo e de homem, poderíamos dizer que é uma definição subjetiva. Para mim, isso não faz com que seja considerada inadequada, uma vez que, além de compartilhar dessa visão de mundo e de homem, acredito que, ao definirmos educação, é importante esclarecer o que realmente esperamos que aconteça com o indivíduo, ator dessa educação. (Bel) - E a minha hipótese: Eu acho que são manifestações de persuasões subjetivas, pois permitem que o sujeito expresse suas idéias e interfira na formação do aluno. É na oportunidade de expor suas opiniões, trabalhar em grupo, respeitar as diferenças que os sujeitos poderão persuadir e ser persuadidos levando ao desenvolvimento de competências que o tornem capaz de viver suas vidas, enquanto que na definição objetiva o sujeito é isento do processo, só recebendo informação. (Luciana) Afinal, o que podemos realmente concluir? É uma definição objetiva ou somente uma manifestação de persuasão subjetiva.? No caso de ser uma persuasão subjetiva, o que a minha hipótese me leva a crer, vamos pensar na avaliação: será que o problema da avaliação é por que os professores querem fazer uma avaliação objetiva enquanto a educação é uma manifestação de persuasão subjetiva? Aguardo, ansiosa respostas para essa minha dúvida. Beijos Luciana ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 19 Date: Tue, 5 Feb 2002 18:04:12 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: O Professor *** NÃO DEIXE DE LER, APESAR DE LONGO *** Encontrei, no livro O Professor Como Educador, do Antonio Carlos, um texto muito desafiador. Em especial o primeiro capítulo pode ser usado como texto base para nossas reflexões sobre o papel do professor na nova escola. O texto em questão padece de algumas falhas que o revisor deixou passar. Transcrevo como está no livro. A digitação é gentileza (remunerada) de minha filha Patrícia. Digo gentileza, porque mesmo me propondo a pagar às vezes não consigo esses favores... Eduardo ================= Quem sou eu (*) Antonio Carlos Gomes da Costa 1) O Educador como Pessoa Contam os historiadores da Filosofia que no frontispício do templo de Apolo, em Delphos, estava escrito: “Conhece-te a ti mesmo”. Este foi e continua sendo o ponto de partida todas as vezes que buscamos nos confrontar conosco mesmos à procura da nossa identidade, ou seja, daquilo que nos torna únicos, daquilo que nos faz ser que somos. Milton Nascimento imortalizou essa busca nos versos de uma linda canção: “Eu, caçador de mim”. Onde, porém, devemos começar essa “caça” de nossa identidade? Será que devemos melhorar em nosso próprio interior e perscrutar os abismos da alma? Creio, sinceramente, que não é preciso tanto. Há outro meio mais simples e objetivo de realizarmos essa tarefa. Jean Paul Sartre, o mais famoso filósofo francês do pós-guerra, cunhou uma sentença lapidar a respeito desta questão: “o homem é aquilo que ele faz”. Portanto, em vez de mergulhar nos abismos da alma, pense um pouco em sua na sua vida, na sua trajetória, nos caminhos que você percorreu para chegar até aqui. Procure lembrar-se de tudo o que foi mais importante, mais significativo para a sua vida, aquilo que mais contribuiu para que você seja o que é hoje. Apenas para ajudar em seu itinerário, é interessante lembrar uma das bases do paradigma do desenvolvimento humano, que pode ser resumida assim: “Aquilo que uma pessoa se torna ao longo da vida depende fundamentalmente de duas coisas: das oportunidades que teve e das escolhas que fez”. De fato, se pensarmos bem, cada um de nós é fruto das oportunidades que tivemos e das escolhas que fomos fazendo ao longo da vida. E algumas escolhas são determinantes em nossa trajetória pessoal. Como a escolha daquela ou daquele com quem vamos compartilhar nossa vida ou a escolha da profissão que vamos seguir. Fazer escolhas, tomar decisões, definir o rumo de nossa própria existência, é o que faz o homem, no dizer de Erich Fromm, “o parteiro de si mesmo”, isto é, as nossas decisões na vida e as ações delas decorrentes é que nos fazem ser o que somos. Muitas vezes, porém, quando a gente se debruça sobre este tema e se faz estas indagações, temos a irreprimível tendência de ficar procurando os responsáveis pelo aquilo que aconteceu ou deixou de acontecer em nossas vidas. É sempre mais fácil a gente responsabilizar alguma pessoa ou circunstância e, assim, tirar a responsabilidade de cima de nossos ombros e colocá-las no de outras pessoas. Esta é uma tentação muito freqüente, não só hoje, mas em todos os tempos. Não é verdade? É o mesmo Sartre, no entanto, que nos dá uma orientação precisa a esse respeito, quando afirma: “O importante não é o que fizeram de nós, mas o que nós próprios faremos com aquilo que fizeram de nós”. Quando a gente olha o nosso passado, o nosso presente e as nossas opções futuras por esta ótica, as coisas assumem outra forma e a vida parece nos dizer: Vai nessa! A bola é sua! Assuma a condução do seu próprio destino! O melhor lugar é aqui. A melhor hora é agora. Comece com aquilo que você já sabe, construa sobre aquilo que você já tem. Não deixe passar a flor do mundo que, a cada manhã, desabrocha em nossas vidas. Colha-a! É muito importante que a gente se compreenda e se aceite como realmente é. Sem isso, não podemos falar de identidade, que é a continuação de nossa personalidade, daquilo que nos faz únicos e irrepetíveis, no tempo. É a clareza a cerca de nossa identidade que nos permite mudar sem deixar de ser a gente mesmo. Sem deixar de ser aquilo que se é. É muito importante, professor ou professora, no início de nossa caminhada ao longo do trajeto contido neste livro, que você pare um pouco e pense em si mesmo como pessoa, como indivíduo, como ser humano que ocupa lugar neste mundo. Alguém, que tem uma história de vida, alguém que, neste momento, está confrontado com um conjunto de situações em sua existência e, sobretudo, alguém que tem ideais, projetos, sonhos e esperanças. Portanto, pare um pouco, e se pergunte: quem sou eu? Responder claramente a esta pergunta é sempre um importante primeiro passo no caminho de mudança em nossas vidas. E é por aí que pretendemos começar a construção de um novo caminho na sua trajetória de educador. Não podemos mudar, porém, a nossa atitude básica diante do nosso trabalho se, antes, não formos capazes de mudar nossa atitude básica diante da vida. Por isso, decidimos começar pelo começo de tudo, que é a sua relação consigo mesmo. 2) O Professor como Profissional Existe uma grande empresa brasileira, uma de nossas poucas multinacionais, onde todos os líderes empresariais e seus colaboradores fazem periodicamente seu P.A., ou seja, o seu Programa de Ação. Quando cada pessoa vai discutir esse programa com o dirigente máximo da organização, três perguntas são comuns a todos: Qual seu plano de vida? Qual seu plano de carreira? Qual seu programa de ação para o próximo período? A idéia por detrás destas perguntas é de que uma pessoa deve ter um projeto de vida, ou seja, todos devemos ser capazes de ter uma visão de como queremos que nossa vida venha ser dentro de um número definido de anos. Para que indagar sobre o projeto de vida das pessoas? É que o plano de carreira de uma pessoa só tem verdadeiramente sentido para sua vida, quando a sua realização contribui para a realização do seu projeto de vida. Se o plano de carreira está desvinculado do plano de vida, nós sabemos que a vida daquela pessoa não está centrada em objetivos coerentes. O programa de ação da pessoa é o que nos diz, por exemplo, o que ela pretende fazer no próximo ano. Esse programa de ação só tem sentido pleno, se for capaz de contribuir verdadeiramente para a realização do plano de carreira da pessoa e, este, para a realização do seu plano de vida. Quando isto ocorre, é como se o sol, a lua e a terra estivessem alinhados, enfileirados no espaço. O magistério publico é a carreira que conta com o maior número de profissionais em todo país. É a nossa maior categoria de trabalhadores. Estes profissionais, todos os dias, mantêm contato direto com milhões e milhões de crianças e adolescentes na educação infantil e nos ensinos fundamental e médio, sem falar na educação profissional. A escola pública é o equipamento social mais difundido em todo território nacional. Ao contrário de outras categorias profissionais, o trabalho dos professores está longe de ser ameaçado pelas novas tecnologias, como a telemática, a informática e a robótica. No entanto é muito freqüente nos depararmos com um mar de queixas e reclamações, quando ouvimos os professores acerca de sua profissão e das suas perspectivas diante da vida. De fato, poucas categorias reclamam tanto como a nossa. Os motivos de tanta queixa giram invariavelmente em torno de alguns eixos básicos: salários, carreira, condições precárias de trabalho e desprestígio social do magistério. Estas percepções freqüentemente estão entranhadas de modo tão profundo no senso comum do professorado, que ninguém mais se preocupa em comparar essa relação com a de outras categorias e aquilatar, realmente, o que há de verdadeiro e ilusório em tudo isto. Mais do que constatarmos as origens e as causas de tais problemas, é a nossa atitude básica diante deles que contará de modo decisivo para o seu correto equacionamento e solução. E, aqui, nos defrontamos com dois modelos de atuação diante dos quais devemos fazer uma opção: o modelo do dano e o modelo do desafio. O modelo do dano ocorre quando optamos por nos deter nos aspectos negativos de uma situação e nele nos fixamos de tal maneira, que fica muito difícil para nós identificarmos os pontos positivos, ou seja, nossas vantagens comparativas, aquilo que conta a nosso favor para termos condições de enfrentar e vencer as situações que temos pela frente. O modelo do dano opera o paradigma da inércia, da lamentação e da desesperança. Já o modelo do desafio é convite permanente ao pensamento e à ação transformadores diante da realidade, ou seja, é o modo de entender e agir que nos possibilita não nos deixarmos abater pela adversidade e, até mesmo, utilizá-la para crescer. Quem adota esta perspectiva diante da vida sabe a importância de se ter um projeto, de não enxergar apenas o lado escuro, o lado negativo da realidade. Sabe da importância do senso de humor diante das situações difíceis, sabe que para atingir as metas distantes devemos dar pequenos passos todos os dias, saber admirar sinceramente o que há para ser admirado nas pessoas, e assim, ir assimilando o bem em sua própria vida, em sua própria pessoa. Hoje, existe na educação brasileira uma questão do tipo “o ovo e a galinha”. Todos temos consciência de que é preciso ressignificar, isto é, revestir de novo valor, de novo sentido e de novo significado a educação, a escola, o professor e o aluno. Todos nós sabemos que o Brasil precisa mudar profundamente o seu modo de ver, entender e agir diante da educação. Disto depende a solução de todos os demais problemas: salário, carreira, condições de trabalho, formação inicial, capacitação em serviço e prestígio social do magistério. Para os que atuam no modelo do dano, tudo isso deve ocorrer antes, para que, só depois, as escolas comecem a mudar para melhor. Para os que operam no modelo do desafio, a escola é que deve sair na frente e começar a mudar, para que, então, a sua ressignificação ampla e profunda pelo governo e pelo conjunto da sociedade comece a ocorrer fora da retórica das campanhas políticas e do blá-blá-blá de sempre a que todos já nos acostumamos. Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Operar no modelo do dano ou no modelo do desafio não é uma decisão que deva ser tomada em conjunto por centenas de milhares de profissionais do magistério em todo país. Esta, meu caro professor ou professora, é uma decisão que você deve tomar diante de sua própria consciência. Ninguém poderá fazê-lo em seu lugar. Pois, ao fazer isto, você esta fazendo a escolha do profissional que você pretende tornar-se, ou seja, você pretende seguir as tendências como um objeto na correnteza ou, ao contrário, pretende chamar a si a responsabilidade pelas as suas ações no dia-a-dia da escola, na construção de sua carreira e na consecução dos objetivos maiores de sua vida? A decisão é sua. 3) O Professor como Cidadão A história da cidadania e a história da educação pública praticamente se confundem. Darcy Ribeiro costumava dizer que o Brasil é um país que sabe fabricar carros, submarinos, computadores, televisores, videocassetes, aviões e até mesmo satélites, mas que tem, historicamente, fracassado na tarefa de fabricar cidadãos. E por que isso ocorre? Segundo ele, a razão desse fracasso reside no fato de que “a fábrica de cidadãos”, que é a escola pública, não está funcionando como devia. Nós, professores, somos produtos e também produtores desta escola. E é dentro deste quadro que devemos pensar a nossa categoria e o papel que ela desempenha na vida do país como um todo. O Brasil chega aos 500 anos do encontro de povos que deu início ao processo histórico que resultou no que somos hoje, como um povo nação, convocado a enfrentar três grandes desafios. O primeiro, é de nos tornarmos uma economia verdadeiramente competitiva, numa economia internacional cada dia mais globalizada. Este é um desafio de desenvolvimento econômico. O segundo, é a erradicação das desigualdades sociais intoleráveis, que tanto nos envergonham como pessoas e como Nação. Este é um desafio de desenvolvimento social. O terceiro, é a elevação dos níveis de respeito aos direitos humanos e de participação democrática da população em questões relativas ao bem comum. Este é um desafio de natureza política. Se repararmos bem, o enfrentamento a todos estes grandes desafios do Brasil começa na sala de aula do ensino fundamental. De fato, uma economia competitiva, uma sociedade mais justa e um estado democrático de direito forte e consolidado dependem quase que totalmente da qualidade de educação recebida pelas novas gerações (crianças e adolescentes) no início de suas vidas. Realmente, sem educação de qualidade para todos, será praticamente impossível termos uma economia competitiva. Hoje em dia, diz o professor Vicente Falconi, “nosso sistema de ensino disputa com o sistema de ensino de outros países nas prateleiras de nossas lojas e nas gôndolas de nossos supermercados”, ou seja, os produtos e serviços produzidos são, cada vez mais, o reflexo da educação básica de sua força de trabalho. Quando pensamos em nossas gritantes desigualdades sociais, a mesma situação se repete. Cada brasileiro que vai à escola e repete uma, repete duas, repete três vezes a mesma série e sai da escola sem ter aprendido o que devia, depois de perder ali vários anos, torna-se um brasileiro a mais despreparado para a vida. Ele estará condenado a ser um cliente dos programas de renda mínima, de cesta básica, das frentes de trabalho e outros nesta linha, ou seja, será sempre dependente do Estado ou da sociedade. Por outro lado, por maior que sejam a pobreza e a ignorância dos pais, se uma criança ou adolescente consegue ir adiante nos estudos, ali, naquela vida, rompe-se o ciclo de reprodução da pobreza, a pobreza não passa de uma geração para outra. E a situação não é outra, quando nos voltamos para a brutalidade, que, desde os primórdios coloniais, tem sido marcas das relações do Estado e da nossa elite social com a maioria empobrecida da população deste país. O desrespeito sistemático a todos os direitos humanos (civis, políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais) da população e a falta de transparência e de participação dos cidadãos nas questões relativas a seus interesses só podem ser rompidos se a escola for capaz de gerar um cidadão de tipo novo. Um cidadão capaz de conhecer os seus direitos e lutar por eles, fazendo as conquistas da democracia funcionarem a seu favor. Como se vê, o professor é mais do que um simples cidadão, é um cidadão produtor de cidadania, que atua na “fábrica” onde se produz a esmagadora maioria dos cidadãos deste país, que é a escola pública. Por tudo isso, mais do que ensinar cidadania, o professor está chamado a viver a cidadania dentro e fora da sala de aula. Para isso é imprescindível que tenhamos a consciência límpida e madura do papel que devemos ter diante dos educandos, de suas famílias e de toda a comunidade onde a escola está inscrita. O ministro Hélio Beltrão costumava dizer que o via Brasil mais como um país de súditos do que como um país de cidadãos, ou seja, um país marcado pela timidez, a insegurança, a passividade e o conformismo das pessoas e das organizações em fase de um poder público que, em vez de servir, julga-se no direito de ser servido pelos cidadãos. Diante desse quadro, você acha que a responsabilidade do cidadão professor é a mesma dos demais cidadãos? Da resposta amadurecida e clara a esta questão dependerá o modo com que você, enquanto cidadão responsável pela formação de outros cidadãos, lidará com esta questão dentro da sala de aula e fora dela. Reflita bastante sobre isso. 4) Como Vejo o Mundo O mundo está mudando e isso está ocorrendo a uma velocidade sem precedentes na evolução histórica da humanidade. Alguns dinamismos, algumas forças estruturadoras de uma nova ordem mundial estão agindo em escala planetária e o resultado disso tem sido realmente fazer com que, de repente, “tudo que é sólido se desmanche no ar”. A globalização dos mercados tem forçado países como o Brasil a abrirem seus portos e exporem seus produtos e serviços a uma concorrência com produtos e serviços de outros países, que freqüentemente são mais baratos e de melhor qualidade devido ao maior avanço tecnológico de nossos concorrentes. Para competir com eles de igual para igual, nosso país terá de realizar mudanças muito profundas na estrutura e no funcionamento da produção e do Estado. Se não fizermos isso, mais uma vez, perderemos o trem da história. No entanto, a globalização dos mercados não vem sozinha. Ela se faz acompanhar pelas mudanças decorrentes do ingresso na era pós-industrial, ou seja, o surgimento de novas tecnologias, como a robótica, a telemática e a informática, que estão mudando inteiramente as feições do mundo do trabalho que conhecemos ao longo do século XX. As novas máquinas já não substituem apenas o esforço muscular dos homens e dos animais. Elas substituem boa parte das atividades que antes dependiam do cérebro dos trabalhadores. Este novo mundo do trabalho está a exigir da escola um novo trabalhador, polivalente, flexível, motivado, criativo, apto à participação e à interação com seus pares na geração de soluções para os problemas do cotidiano na produção de bens e serviços em quantidade cada vez maior, de qualidade cada vez melhor e a um custo cada vez mais reduzido. No plano da política internacional, estamos assistindo ao fracasso dos países que abraçaram o modelo socialista de organização econômica, social e política, e, ao mesmo tempo, o triunfo histórico sem precedentes do capitalismo e da democracia. A queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética fizeram com que o mundo voltasse a ser unipolar, ou seja, os Estados Unidos da América são hoje a grande superpotência econômica, política e militar de nosso tempo. No que diz a respeito à cultura, muitos pensadores importantes estão apontando o fim da modernidade e o início da chamada cultura pós-moderna, uma visão da vida caracterizada pela crise dos grandes sistemas explicativos do homem e do mundo, pelo individualismo exacerbado, pelo consumismo, pelo hedonismo (busca do prazer acima de outros valores), pelo narcisismo e pelo relativismo ético e religioso. Diante desse vasto elenco de transformações, como você se situa em termos de visão de mundo? Que posição assumir diante de tantas e tão fundamentais mudanças, que afetam diretamente o modo como vivemos, trabalhamos e criamos nossa famílias? Mais do que nunca, o que fomos e fazemos dependerá de nossa capacidade de discernir o que é essencial do que é acessório, aquilo que é permanente daquilo que pode e deve mudar com o tempo e as circunstâncias. Trata-se de ter claro o modo como percebemos o mundo à nossa volta e o nosso posicionamento frente à compreensão que construímos da realidade em nossas mentes. Uma consideração que deve ser feita, quando a gente se dispõe a indagar sobre a nossa visão do mundo, é situarmos e datarmos a posição em que nos encontramos ao buscar nossa resposta. Estamos situados no Brasil, um país que, como diz um dos seus maiores educadores e pensadores, o professor Darcy Ribeiro, ainda não deu certo. Somos uma economia situada na periferia do capitalismo moderno, nossos indicadores sociais (inclusive os da educação) estão melhorando, mas ainda deixam muito a desejar, as relações do Estado e das elites sociais e econômicas com a maioria da população são ainda marcadas pela indiferença, a manipulação e a brutalidade, tanto em termos de denegação como de violação sistemática dos direitos básicos da maioria empobrecida. Como professor público, você atua no quadro de agentes de uma política social que foi capaz de expandir-se notavelmente em termos quantitativos nas últimas décadas, mas que ainda não se mostrou em condições de assegurar a qualidade necessária para fazer realmente do ingresso na vida escolar um fator de mudança efetiva e real no curso da trajetória de milhões de crianças e adolescentes, que todos os dias freqüentam as nossas escolas. Qual deve ser o nosso posicionamento ético-politico como educadores, em face desse quadro? Podemos e devemos lutar por nossos direitos e pelos direitos de nossos educandos, mas não devemos nos esquecer de que a melhor forma de compromisso político com nossos educandos, com suas famílias e com o Brasil, é sermos, como diz a profª Guiomar Namo de Melo, tecnicamente competentes na realização do nosso trabalho. A competência técnica é verdadeiramente uma forma de compromisso político. E disto nós não podemos abrir mão. 5) Como Vejo a Educação Jacques Delors, o coordenador do grupo de notáveis educadores de âmbito mundial que redigiu o relatório Educação, um Tesouro a Descobrir, afirma, no prólogo dessa obra fundamental de nosso tempo, as origens do título, cujas raízes remontam a uma das fábulas de La Fontaine chamada “O lavrador e os filhos”: Evitai, disse o lavrador, vender a herança Que de nossos pais nos veio Esconde um tesouro em seu seio Educação é tudo que a humanidade aprendeu a cerca de si mesma. Atraiçoando um pouco o poeta, que pretendia fazer o elogio do trabalho, podemos pôr na sua boca estas palavras: Mas ao morrer o sábio pai Fez-lhe esta confissão: O tesouro está na educação Por que, no limiar de um novo século e de um novo milênio, a Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, ao produzir um relatório apontando as novas tendências, dá-lhe o título de Educação, um Tesouro a Descobrir? Se soubermos responder de maneira precisa a esta indagação, teremos certamente uma visão lúcida do significado da educação no mundo de hoje. Jacques Delors, no prefácio do relatório, afirma: “Face aos múltiplos desafios do futuro, a educação surge como um trunfo indispensável da humanidade na construção dos ideais de paz, liberdade e justiça social”. Em seguida ele nos fala da sua “fé inabalável no papel indispensável da educação no desenvolvimento contínuo das pessoas e das sociedades. Não como um remédio milagroso, não como ‘abre-te, Sésamo’ de um mundo que atingiu a realização de todos seus ideais, mas, entre outros caminhos e para além deles, como uma via que conduz ao desenvolvimento humano mais harmonioso, mais autêntico, de modo a fazer recuar a pobreza, a exclusão social, as incompreensões, as opressões e as guerras”. Se a educação, na era industrial, foi um fator de crescimento individual e de ascensão social, na era do conhecimento, ela está se tornando cada vez mais um fator de inclusão social. Com isto, queremos dizer que, sem educação básica de qualidade, as pessoas simplesmente não entrarão no jogo, não terão condições sequer de competir no novo mercado de trabalho transformado pelas novas tecnologias e novas formas de organização da produção. Não chegarão a ser desempregados, pessoas que conseguiram ingressar no mercado de trabalho regular e, depois, foram dispensadas. Elas serão simplesmente inempregáveis no setor moderno da economia, ou seja, pessoas que nunca conseguirão ter o primeiro emprego. E o que é essa educação básica de qualidade? É aquela capaz de oferecer a todos os cidadãos, crianças, adolescentes, jovens e adultos, aquelas condições que Bernardo Toro chama de Códigos da Modernidade, que configuram os requisitos mínimos para se trabalhar e viver numa sociedade moderna. O desenvolvimento das nações já não se mede apenas pelo seu PIB (Produto Interno Bruto). Desde do início dos anos noventa, o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) vem adotando um jeito novo de medir o progresso dos povos. Trata-se do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O IDH é formado por três indicadores: expectativa de vida ao nascer, nível educacional e capacidade econômica (renda). Esses três indicadores, quando considerados em conjunto, nos permitem medir a qualidade de vida de uma população. O Brasil, se considerarmos apenas o PIB, é um país que figura entre as dez maiores economias industriais do mundo. Já quando olhado sob ótica da qualidade de vida da população, nosso país cai para um lastimável 63º lugar, ficando atrás de países muito mais pobres e atrasados do que o nosso, o que é verdadeiramente uma vergonha para todos nós. O índice de desenvolvimento humano não é apenas um número. Por trás dele existe uma bem estruturada visão ética e política, que se expressa por um elenco de princípios articulados entre si, que, quando considerados conjuntamente, se constituem no que se convencionou chamar de Paradigma do Desenvolvimento Humano: 1) ter como base do desenvolvimento o universalismo do direito à vida, considerado o mais básico e universal dos valores; 2) a consciência de que nenhuma vida humana vale mais do que a outra; 3) a convicção de que todas as pessoas nascem com um potencial e têm direito a desenvolvê-lo; 4) a afirmação de que, para desenvolver o seu potencial, as pessoas precisam de oportunidades; 5) a percepção de que aquilo que uma pessoa se torna ao longo de sua vida depende de duas coisas: das oportunidades que teve e das escolhas que fez; 6) a consciência de que as pessoas, além de terem acesso a oportunidades, precisam ser preparadas para fazer escolhas fundadas numa visão racional da vida e nos valores incorporados ao longo de sua formação; 7) a certeza de que, para ocorrer o desenvolvimento humano, as pessoas, grupos e comunidades devem ser dotados de poder, isto é, de ter o seu ponto de vista levado em conta e de participar ativamente das decisões que as afetam; 8) a consciência de que cada geração deve deixar para as gerações vindouras um meio ambiente igual ou melhor do que o recebido das gerações anteriores; 9) a convicção de que o caminho para a construção de uma sociedade com base nesses princípios passa pela promoção e garantia dos direitos humanos básicos: direitos civis, políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais; 10) a certeza de que a afirmação da cidadania, enquanto direito de ter direitos e dever de ter deveres, é o caminho para fazer valer os direitos reconhecidos na ordem jurídica nacional e internacional. Como se vê, a educação pulsa no coração de cada um dos princípios que constituem o Paradigma do Desenvolvimento Humano. Na medida em que esse paradigma for se afirmando, a educação deixará de ser vista como política setorial, para ser assumida pelas nações como política estratégica da qual depende cada vez mais o desenvolvimento econômico, social e político dos povos no século XXI. 6) Como me vejo neste novo mundo Como pessoa, como profissional e como cidadão, como eu me situo frente às novas realidades de um mundo que se transforma com uma rapidez, uma profundidade e uma abrangência jamais vistas na história humana? Quantos de nós, com outras palavras, já não se indagaram sobre esta mesma questão? Como ver, entender e agir frente às novas realidades? Uma coisa todos nós já sabemos muito bem: não adianta mais continuar fazendo as coisas do mesmo jeito e querer, no final, resultados diferentes. A busca incessante do aperfeiçoamento, ou seja, da melhoria da qualidade do que fazemos, tornou-se um imperativo de sobrevivência. Não existe mais idade de formação. Qualquer profissional e, mais do que outros, nós educadores, deveremos estar conscientes de que a idade de formação começa nos primeiros anos de vida e não termina nunca. Portanto, é necessário que estejamos dispostos, se quisermos ensinar, a seguir aprendendo ao longo de toda a nossa vida. Não basta, no entanto, que estejamos dispostos a aprender mais e a incorporar isso no que fazemos, aprimorando nosso trabalho. Precisamos estar dispostos a mudar nossos paradigmas. Mudar paradigmas é mudar a nossa compreensão e a nossa ação diante a realidade. Por exemplo, deixar de agir no modelo do dano e passar a agir no modelo do desafio é uma mudança de paradigma. Deixar de ver nossos adolescentes como problemas e passar a vê-los como solução é outro exemplo importante de mudança paradigmática. Uma decisão muito importante frente às novas realidades é chamar a si a responsabilidade pelo seu próprio processo de educação permanente. É uma temeridade, nos dias de hoje, uma pessoa deixar a sua atualização humana e profissional nas mãos da área de recursos humanos da organização para qual trabalha. O novo entendimento é que esta é uma função indelegável no novo mundo do trabalho. A idéia é que cada pessoa administre ela própria o desenvolvimento de suas habilidades. Se esta é uma regra que vale para todos, para o professor ela é particularmente verdadeira. No que diz respeito às novas tecnologias é importante que o professor esteja aberto para elas e saiba utilizá-las no desenvolvimento de sua ação educativa. É preciso, no entanto, deixar claro que elas não substituem uma relação interpessoal de qualidade com seus educandos. Se os alunos não se sentem compreendidos e aceitos pela escola, sua relação com ela será marcada pela ambigüidade, quando não pela hostilidade pura e simples. Como já dissemos, se a questão relacional na escola não for bem resolvida e encaminhada, a própria transmissão dos conteúdos acaba se inviabilizando. Se compreendido como uma ação educativa, fica claro que o papel do professor vai além da docência. Sua atuação em outros âmbitos do espaço escolar, extrapolando a sala de aula, é de fundamental importância, como veremos mais adiante, para a ampliação dos momentos e das oportunidades para o exercício de uma influência construtiva sobre os educandos. As práticas e vivências, um nome mais digno para o que se convencionou chamar de atividades extraclasse, são um espaço privilegiado para que os educandos possam aprender pelo curso dos acontecimentos e não apenas pelo discurso das palavras. A comunidade ou o entorno sóciofamiliar da escola não deve ser vista apenas como espaço de ir e vir dos educandos, ela deve ser entendida como agente educativo comprometido com o desenvolvimento pessoal e social dos adolescentes. Cabe ao professor explorar essas possibilidades, buscando, não apenas recursos materiais e espaços na vida comunitária, mas também e fundamentalmente as suas riquezas não-materiais, que estão incorporadas nas pessoas, nos grupos e nas organizações, em termos de sabedoria, arte, cultura e tecnologia. Nesta perspectiva, o professor torna-se uma ponte entre o educando e seu entorno, possibilitando-lhe o estabelecimento de uma relação pedagogicamente qualificada com o mundo natural e humano que o rodeia. O professor, como acabamos de ver, situa-se no centro de um nó de relações. Ele ou ela se relaciona com seus alunos e com os familiares destes, com a direção da escola e com o sistema de ensino, com a comunidade onde a escola se situa e com a sociedade no sentido mais amplo. Em cada uma destas relações sempre alguma coisa de importante está em jogo. Por isso, o professor, ao situar-se nesse contexto, deve fazê-lo indagando acerca de seu papel e da sua responsabilidade enquanto pessoa, enquanto profissional e enquanto cidadão. Reflita sobre tudo isto e tire, você próprio, suas conclusões. 7) A Escola, meu Espaço de Atuação A escola é o espaço da realização do educador, como pessoa, como profissional, como educador. A visão de si mesmo e a visão do mundo que tem o educador se revestem de concretude e de autenticidade, na medida em que transparecem na sua atuação junto aos educandos. Lugar de aprendizado, a escola é um espaço de crescimento, tanto para o educando, como para o próprio educador. Gosto de pensar em uma boa escola como um educador coletivo estruturado subjetiva (pessoas) e objetivamente (espaços e materiais) para empreender a ação educativa. A estrutura subjetiva da escola são as pessoas. Todo adulto que trabalha na escola, mesmo que não seja um docente, um dirigente ou um técnico em educação é um educador, pois, pode com as suas atitudes exercer deliberadamente uma influência construtiva sobre os educandos. Porém, a estrutura subjetiva da escola não se resume às pessoas. Ela se refere também àquilo que as une, ou seja, ao propósito educativo comum expresso no projeto pedagógico daquela comunidade educativa. O projeto pedagógico tem dupla natureza. Ele é um plano de trabalho e também um pacto. Enquanto plano de trabalho, contém objetivos, metas, estratégias, prazos e responsabilidades e concatena os esforços de toda a equipe para a obtenção dos resultados estabelecidos no plano. Enquanto pacto, o projeto pedagógico concretiza e expressa a aliança dos membros daquela comunidade educativa em torno de um conjunto de princípios e concepções, que têm a finalidade de sustentar a ação cotidiana de cada educador em sua disciplina ou setor de atuação. A estrutura objetiva do educador coletivo é constituída pela estrutura física: o prédio e os espaços escolares e por todos os móveis e outros materiais que co-habitam esses espaços. Se repararmos bem, veremos que na própria arquitetura do prédio escolar já existe uma proposta de estruturação da interação das pessoas no cotidiano, que pode ou não ser coerente com a proposta educativa que ali se desenvolve num momento dado. Quando visito uma escola, sempre penso que o banheiro dos alunos e também aqueles usado pelos os professores irão me dizer mais sobre aquele educador coletivo do que o gabinete do diretor, a biblioteca ou as salas destinadas à equipe técnica. Cláudio Moura Castro, também ele um visitador atento e amoroso das escolas, há algum tempo, escreveu na revista “Veja” que raramente visita uma boa escola, em termos administrativos e acadêmicos, em que o banheiro não exiba um padrão correspondente de higiene, de organização e de respeito pela dignidade dos usuários. Da mesma forma, escolas com banheiros sujos e desorganizados raramente apresentarão resultados administrativos e acadêmicos de primeira linha. Um tapete para limpar os pés, coletores de lixo, vasos de plantas e gravuras e cartazes bonitos e criativos nas paredes são, todos eles, o que chamo de educadores subjetivos, materiais de uso diários, objetos dispostos estrategicamente nos espaços; sem dúvida alguma, exercem uma influência construtiva sobre todos que convivem em um determinado ambiente. A sala de aula é o coração da escola, pois é neste espaço que os alunos e professores passam a maior parte de seu tempo. A sala de aula foi inventada para ser o espaço de aula expositiva. Todas as outras atividades que ali possam ocorrer, como as atividades em pequenos grupos, o grande círculo ou as atividades desenvolvidas com os alunos de pé ou sentados diretamente no piso são fruto dos esforços de gerações e gerações de professores empenhados em reinventar o uso deste espaço que tanto tem de quadrado como de enquadrador do olhar, do tempo, dos corpos e -- se não tomarmos muito cuidado – também das idéias e emoções das pessoas que nele convivem. O educador deve estar consciente das potencialidades e também dos limites da sala de aula como espaço educativo e deve pensá-lo na sua incompletude. Procurando suprir suas limitações com o uso mais criativo de seus espaços e equipamentos, não se esquecendo de “completá-la” com atividades na biblioteca, no pátio, nos laboratórios, nas quadras e mesmo em espaços da comunidade, quando a atividade que se pretende desenvolver assim o exigir. A maneira como os educadores e educandos se apropriam e utilizam os espaços e equipamentos existentes na escola são reveladores da concepção de educação, ou seja, da ação educativa vigente numa determinada comunidade escolar. O educador experiente pode visitar uma escola vazia, por exemplo, numa tarde de domingo. Pela simples observação do espaço físico e dos objetos nele dispostos, ele poderá nos dizer muita coisa sobre a realidade humana, pedagógica e organizacional daquela comunidade educativa. 8) Ser Professor: Significado e Sentido Para refletirmos sobre o significado e o sentido de ser professor, temos antes que refletir por um instante sobre estes dois termos – significado e sentido – em si mesmos e, somente depois disso, aplicá-los à condição do profissional do magistério nos dias de hoje. Significar alguém ou alguma coisa é assumir diante dessa pessoa ou objeto uma atitude de não-indiferença, atribuindo-lhe um determinado valor para a nossa existência. Quando assumimos, diante do que quer que seja, uma atitude de indiferença, isso significa que aquilo não tem para nós valor algum. Quando, ao contrário, significamos algo, essa significação poderá ser positiva (valor) ou negativa (contra-valor ou anti-valor). Significar, portanto, é valorizar alguma coisa positiva ou negativamente. O que é um valor? Ítalo Gastaldi define valor como tudo aquilo que é capaz de tirar o homem de sua indiferença e fazê-lo inclinar-se, fazê-lo dirigir-se nesta ou naquela direção. Os valores não existem objetivamente. Os valores funcionam em nossas vidas, não no momento em que falamos ou escrevemos sobre eles, mas nos momentos em que decidimos e agimos tomando-os por fundamento, por base em nossas ações. Por isso o filósofo alemão Max Scheller afirma que “as coisas existem, os valores valem”. Quando os valores valem? Os valores valem quando pesam na balança de nossas tomadas de decisão, os valores valem quando fazem inclinar nossas atitudes ou nossa conduta numa direção e, não, em outra. Os valores, ao fazerem nossas decisões e ações tomarem um determinado rumo, estão funcionando como a fonte do sentido de nossas opções e escolhas, de nossas decisões, atos, atitudes e ações. Em termos de existência humana, costumo dizer que o sentido é aquela linha pontilhada (caminho não percorrido) entre o ser e o querer-ser. O querer ser de todo ser humano normal é a sua auto-realização, a sua busca de plenitude humana. Como já disse Erich Fromm, a grande tarefa do ser humano é tornar-se o parteiro de si mesmo, realizando o seu potencial, ou seja, tornando realidade aquelas promessas que cada um de nós traz consigo ao vir a este mundo. Feitas estas considerações, podemos agora introduzir as questões fundamentais: Qual o significado da educação em sua vida? O que o fez optar pelo magistério? O que pesou no momento de sua escolha por esta profissão, por esta missão, por este caminho de vida? Em que momento você se sente realizado como educador? Por que isso ocorre? Penso que muitos educadores, ao lerem este trecho, estarão pensando: -- Ele não falou em salário, não está dizendo nada sobre plano de carreira, não mencionou as condições de trabalho nem a capacitação permanente em serviço e fora dele. Será que ele está se esquecendo de que o professor é um trabalhador e que estas questões não podem ser ignoradas? Respondo-lhes com um esquema, cuja a idéia central, de tão brilhante, jamais deixou de cintilar em minha mente, quando trato deste assunto. Trata-se da motivação para o trabalho. Trata-se da postura diante do trabalho vista pelo ângulo da motivação. Existem basicamente dois tipos de motivação no mundo do trabalho: as motivações materiais e as motivações não-materiais. As diversas formas como elas se combinam nos dão as atitudes básicas das pessoas no mundo do trabalho. Vejamos a representação gráfica das quatro combinações possíveis: Missionário Profissional não-material não-material material material Demissionário Mercenário não-material não-material material material [No vertical, de baixo para cima, aumentam as Motivações Não-Materiais; no horizontal, da esquerda para a direita, aumentam as Motivações Materiais] Demissionário – Tem motivações tanto materiais como não-materiais bastante baixas. Missionário – Tem motivações não-materiais altas e ambições materiais baixas. Mercenário – Tem baixo nível de motivações não-materiais e alto nível de motivações materiais. Profissional – Tem alto nível de motivação não-material e também um alto nível de motivações materiais. E você? Em quais destes perfis você melhor se enquadra? (*) Este texto é o Capítulo 1 do livro O Professor Como Educador, de Antonio Carlos Gomes da Costa (Fundação Luís Eduardo Magalhães, Salvador, 2001), pp. 18-59. ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 20 Date: Tue, 5 Feb 2002 18:20:36 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Reflexoes submetidas Há oito reflexões submetidas (o Celso submeteu duas). Quem ainda não teve oportunidade de lê-las, está perdendo a oportunidade de ler material de muito boa qualidade. Prometo deixá-los mais sossegados hoje à noite... Vou ler um livro sobre piscinas -- em especial tratamento de água -- para ver se aprendo um pouco de Química para poder conversar com o Castor... Um abraço. Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 21 Date: Tue, 5 Feb 2002 18:32:02 -0200 From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" Subject: Re: Educacao Negativa (de novo) Eduardo, Muito obrigada pelos trechos de Rousseau. E' sempre interessante ir aa fonte... Voce perguntou: > O meu resumo da educação negativa de Rousseau levou você a > reconsiderar seu ponto de vista, Lenise? Ou fica tudo como está? Eu diria que enriqueceu a minha visao, mas acho que basicamente nao a mudou. Parece-me que ele confirma a ideia de "natureza boa" e de uma educacao por "nao interferencia", embora nao absoluta. Gostei de algumas de suas colocacoes, como: "A educação começa com a vida. Ao nascer a criança já é discípulo, não do governante, e, sim, da natureza. (. . .) Nascemos capazes de aprender, mas não sabendo nada, não conhecendo nada. Repito-o, a educação do homem começa com seu nascimento: antes de falar, antes de compreender, já ele se instrui." Achei interessante uma colocacao: "O homem realmente livre só quer o que pode e faz o que lhe apraz. Eis minha máxima fundamental. Trata-se apenas de aplicá-la à infância, e todas as regras da educação vão dela decorrer" Nao seria esse um modo de "encurtar" os sonhos das pessoas? Que entende ele por "so' quer o que pode"? E como alguem fica sabendo o que pode e o que nao pode? Abracos, Lenise > >Discordo da idéia de "educação negativa", por vários motivos. > >Colocarei > aqui 2 deles: > > 1. Acho que ela presume uma noção de que o ser humano "nasce bom". > Assim, o seu "desenvolvimento natural e espontâneo" levaria a atingir > os objetivos da educação. Não penso que seja assim, e sim que todos > temos tendências positivas e negativas dentro de nós. Um aspecto > importante do "aprender a ser" é justamente buscar o desenvolvimento > dos aspectos positivos e, de algum modo, um "domínio" e superação das > tendências negativas. > > 2. Ela presume também que e' possível uma "não interferência". Mas > qualquer pessoa que vive em um meio social esta' sofrendo > interferências o tempo todo. Boa parte da tarefa do educador é > entender como são essas interferências e fazer a sua própria.< ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 22 Date: Tue, 5 Feb 2002 19:18:02 -0200 From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" Subject: Re: Educacao Negativa Celso e todos, Os textos de Rousseau enviados pelo Eduardo lembraram-me que ainda nao lhe havia respondido neste tema. Gostei muito da sua contribuicao. Achei interessante o que voce diz aqui: > O grande desafio a ser superado é conseguirmos equilibrar nossa > felicidade com a de todos que nos cercam. Concordo. E o interessante e' que quando buscamos a felicidade de outro, muitas vezes isso traz como consequencia a nossa propria. Acho que tem a ver com as "espirais" de que voce tambem falou: > Acho interessante imaginar que todos podemos entrar em espirais de realimentação negativa e em espirais de realimentação positiva. Assim, conforme a história de vida de cada um, podemos estar muito distantes do melhor caminho, ou, estar indo bem. Aquelas pessoas que estão usando drogas, vão mal na escola, ou já abandonaram a escola, tem uma vida conturbada em casa e mesmo com os amigos, se sentem muito mal e se sentem muito desencorajados a procurar caminhos de amor, são pessoas como nós, que podem melhorar se começarem a sentir os benefícios e a alegria que outro tipo de vida pode lhe dar. Lembrei-me de uma frase de S. Joao da Cruz: "onde nao ha' amor, poe amor e encontraras amor". E, ao lembrar-me dela, deu-me a impressao de que a palavra "amor" apareceu muito pouco ate' agora... Nao deveria aparecer mais, quando falamos em educacao? Abracos, Lenise ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 23 Date: Tue, 5 Feb 2002 19:53:12 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: RE: Educacao Negativa (de novo) Diz a Lenise: > Achei interessante uma colocacao: > "O homem realmente livre só quer o que pode e faz o que lhe apraz. Eis minha máxima fundamental. Trata-se apenas de aplicá-la à infância, e todas as regras da educação vão dela decorrer" < > Nao seria esse um modo de "encurtar" os sonhos das pessoas? Que entende ele por "so' quer o que pode"? E como alguem fica sabendo o que pode e o que nao pode? < Acho que o que Rousseau entende por "so' quer o que pode" está esclarecido em outra passagem dele, a que afirma: "O único indivíduo que faz o que quer é aquele que não tem necessidade, para fazê-lo, de por os braços de outro na ponta dos seus". Interpreto isso da seguinte forma: só é realmente livre a pessoa que não depende dos outros para a consecução daquilo que ela quer, porque ela quer apenas aquilo que ela mesma pode prover. Se eu desejo algo que eu mesmo não posso prover, e, portanto, dependo de outros (preciso "por os braços dos outros na ponta dos meus"), não sou livre para alcançar esse meu desejo, porque os outros podem não estar dispostos a contribuir para que eu realize o meu desejo. Profundas lições de filosofia política liberal nessas poucas frases (e olhem que Rousseau não era sempre liberal, não). Eduardo eduardo@chaves.com.br -----Original Message----- From: Lenise Aparecida Martins Garcia [mailto:lgarcia@unb.br] Sent: Tuesday, February 05, 2002 6:32 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: Re: [escola2000] Educacao Negativa (de novo) Eduardo, Muito obrigada pelos trechos de Rousseau. E' sempre interessante ir aa fonte... Voce perguntou: > O meu resumo da educação negativa de Rousseau levou você a > reconsiderar seu ponto de vista, Lenise? Ou fica tudo como está? Eu diria que enriqueceu a minha visao, mas acho que basicamente nao a mudou. Parece-me que ele confirma a ideia de "natureza boa" e de uma educacao por "nao interferencia", embora nao absoluta. Gostei de algumas de suas colocacoes, como: "A educação começa com a vida. Ao nascer a criança já é discípulo, não do governante, e, sim, da natureza. (. . .) Nascemos capazes de aprender, mas não sabendo nada, não conhecendo nada. Repito-o, a educação do homem começa com seu nascimento: antes de falar, antes de compreender, já ele se instrui." Achei interessante uma colocacao: "O homem realmente livre só quer o que pode e faz o que lhe apraz. Eis minha máxima fundamental. Trata-se apenas de aplicá-la à infância, e todas as regras da educação vão dela decorrer" Nao seria esse um modo de "encurtar" os sonhos das pessoas? Que entende ele por "so' quer o que pode"? E como alguem fica sabendo o que pode e o que nao pode? Abracos, Lenise > >Discordo da idéia de "educação negativa", por vários motivos. > >Colocarei > aqui 2 deles: > > 1. Acho que ela presume uma noção de que o ser humano "nasce bom". > Assim, o seu "desenvolvimento natural e espontâneo" levaria a atingir > os objetivos da educação. Não penso que seja assim, e sim que todos > temos tendências positivas e negativas dentro de nós. Um aspecto > importante do "aprender a ser" é justamente buscar o desenvolvimento > dos aspectos positivos e, de algum modo, um "domínio" e superação das > tendências negativas. > > 2. Ela presume também que e' possível uma "não interferência". Mas > qualquer pessoa que vive em um meio social esta' sofrendo > interferências o tempo todo. Boa parte da tarefa do educador é > entender como são essas interferências e fazer a sua própria.< ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 24 Date: Tue, 5 Feb 2002 20:37:17 -0200 From: "Luciana Salgado" Subject: Re: Aprendizagem e Educacao Oi Edu, Com certeza, você tem que estar "meio perdidinho", afinal eu te coloquei num labirinto de idéias :<) Vamos ver se eu consigo me expressar melhor e arrumar o segundo trecho que realmente não condiz com o que eu quis dizer... Continuo afirmando que a aprendizagem é condição necessária, mas não suficiente para que o indivíduo seja educado. A Lenise citou um exemplo que cabe aqui "do menino lobo". Ele aprendeu com os macacos, mas não teve educação, pois ele não foi capaz de desenvolver competências para viver em sociedade, de forma livre e responsável, autônoma e produtiva. Não precisamos ir tão longe, uma criança que nasce e vive sem as mínimas condições de sobrevivência, até pode aprender que não deve roubar, nem matar. Mas, devido as condições ambientais, de sobrevivência essa aprendizagem pode não ter nenhum significado e ela não ter educação, ou seja, não ter condições mínimas de viver suas vidas tanto no plano (individual).... Com isso, o que não ficou claro no meu texto, aliás claro não, mas realmente estava mal escrito, reescrevendo para: "Para que haja uma verdadeira educação, é preciso que haja aprendizagem, condições ambientais, qualidade de vida, etc. Pode continuar me arguindo. :<) Beijos Lu, agora bem mais tranquila :<) OBS: Para quem não sabe, o porque da minha tristeza ontem, aqui vai... Ontem entreguei minha dissertação na secretaria da pós-graduação e eles me avisaram que eu não havia feito matrícula no semestre passado, e com isso, fui considerada como se tivesse abandonado o curso. O que foi mais louco é que eu qualifiquei em outubro sem estar matriculada e ninguém falou nada. Eu não me matriculei, pois achei que a matricula só deveria ser feita quando houvesse interesse em alguma disciplina. Como não ia fazer (já tinha feito todos os créditos) fiquei tranquila, achei que minha única obrigação agora era terminar minha pesquisa e cumprir os prazos de entrega da dissertação. A senhora responsável pelo setor, me avisou que eu havia cometido um lamentável engano e que agora eu teria que entrar com um requerimento muito bem fundamentado para que fosse deferido ou poderia perder tudo que havia feito. Sentei com meu orientador, escrevemos e entreguei o meu pedido. A partir daí não tive mais ânimo para nada, só imaginando que todo meu trabalho pudesse ter sido em vão. Mas, agora a tarde, o Prof. Litto me ligou falando que tinha ido pessoalmente ao departamento e tudo se resolveu. Eles entenderam o engano. Agora, estou feliz novamente e com toda energia para continuar participando da discussão. Obrigada a todos aqueles que, de alguma forma, me deram uma força. Beijos Luciana ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: eac@escola2000.net Sent: Tuesday, February 05, 2002 2:45 PM Subject: [escola2000] Aprendizagem e Educacao Diz a Luciana: > Então, podemos dizer que a aprendizagem é condição necessária, mas não suficiente para o processo educacional de um indivíduo.< Para que tenhamos educação, então, é necessário ter aprendizagem, mas ter também algo mais. Qual é o "algo mais", ou quais são os "algo mais", que acrescentado(s) à aprendizagem produzem educação? A Luciana sugere: "Para que a aprendizagem se torne uma Educação, é necessário que ambientes dinâmicos permitam a reflexão com o objetivo de se pensar em como introduzi-los como práticas do dia-a-dia." Confesso que fiquei meio perdidinho... Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 25 Date: Tue, 5 Feb 2002 20:42:21 -0200 From: "Luciana Salgado" Subject: Re: Educacao Negativa (de novo) Você não ia ler o livro de piscinas? :<) ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: escola2000@courses.yahoo.com Sent: Tuesday, February 05, 2002 7:53 PM Subject: RE: [escola2000] Educacao Negativa (de novo) Diz a Lenise: > Achei interessante uma colocacao: < > "O homem realmente livre só quer o que pode e faz o que lhe apraz. Eis minha máxima fundamental. Trata-se apenas de aplicá-la à infância, e todas as regras da educação vão dela decorrer" < > Nao seria esse um modo de "encurtar" os sonhos das pessoas? Que entende ele por "so' quer o que pode"? E como alguem fica sabendo o que pode e o que nao pode? < Acho que o que Rousseau entende por "so' quer o que pode" está esclarecido em outra passagem dele, a que afirma: "O único indivíduo que faz o que quer é aquele que não tem necessidade, para fazê-lo, de por os braços de outro na ponta dos seus". Interpreto isso da seguinte forma: só é realmente livre a pessoa que não depende dos outros para a consecução daquilo que ela quer, porque ela quer apenas aquilo que ela mesma pode prover. Se eu desejo algo que eu mesmo não posso prover, e, portanto, dependo de outros (preciso "por os braços dos outros na ponta dos meus"), não sou livre para alcançar esse meu desejo, porque os outros podem não estar dispostos a contribuir para que eu realize o meu desejo. Profundas lições de filosofia política liberal nessas poucas frases (e olhem que Rousseau não era sempre liberal, não). Eduardo eduardo@chaves.com.br -----Original Message----- From: Lenise Aparecida Martins Garcia [mailto:lgarcia@unb.br] Sent: Tuesday, February 05, 2002 6:32 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: Re: [escola2000] Educacao Negativa (de novo) Eduardo, Muito obrigada pelos trechos de Rousseau. E' sempre interessante ir aa fonte... Voce perguntou: > O meu resumo da educação negativa de Rousseau levou você a > reconsiderar seu ponto de vista, Lenise? Ou fica tudo como está? Eu diria que enriqueceu a minha visao, mas acho que basicamente nao a mudou. Parece-me que ele confirma a ideia de "natureza boa" e de uma educacao por "nao interferencia", embora nao absoluta. Gostei de algumas de suas colocacoes, como: "A educação começa com a vida. Ao nascer a criança já é discípulo, não do governante, e, sim, da natureza. (. . .) Nascemos capazes de aprender, mas não sabendo nada, não conhecendo nada. Repito-o, a educação do homem começa com seu nascimento: antes de falar, antes de compreender, já ele se instrui." Achei interessante uma colocacao: "O homem realmente livre só quer o que pode e faz o que lhe apraz. Eis minha máxima fundamental. Trata-se apenas de aplicá-la à infância, e todas as regras da educação vão dela decorrer" Nao seria esse um modo de "encurtar" os sonhos das pessoas? Que entende ele por "so' quer o que pode"? E como alguem fica sabendo o que pode e o que nao pode? Abracos, Lenise > >Discordo da idéia de "educação negativa", por vários motivos. > >Colocarei aqui 2 deles: > > 1. Acho que ela presume uma noção de que o ser humano "nasce bom". > Assim, o seu "desenvolvimento natural e espontâneo" levaria a atingir > os objetivos da educação. Não penso que seja assim, e sim que todos > temos tendências positivas e negativas dentro de nós. Um aspecto > importante do "aprender a ser" é justamente buscar o desenvolvimento > dos aspectos positivos e, de algum modo, um "domínio" e superação das > tendências negativas. > > 2. Ela presume também que e' possível uma "não interferência". Mas > qualquer pessoa que vive em um meio social esta' sofrendo > interferências o tempo todo. Boa parte da tarefa do educador é > entender como são essas interferências e fazer a sua própria.< ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________