------------------------------------------------------------------------ There are 6 messages in this issue. Topics in this digest: 1. RE: PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] From: "Eduardo O C Chaves" 2. RES: PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] From: "Ney Mourao" 3. Re: PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] From: "Otoniel Niccolini" 4. RES: PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] From: "Ney Mourao" 5. atrasado (ideario e praticario) From: castorsilva2001@yahoo.com.br 6. Uma das propostas do momento presencial From: "Adriana Portella" ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 1 Date: Wed, 6 Feb 2002 17:44:17 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: RE: PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Vocês vêem o que está quietinho, lá no fundo das pessoas, só esperando uma cutucada? Obrigado pela crônica, Ney! Um abraço. Eduardo -----Original Message----- From: Ney Mourao [mailto:neymourao@neymourao.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 5:40 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: [escola2000] PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Não é lindo? Há palavras na língua portuguesa que, creio, deveríamos fazer piquetes para que fossem mais utilizadas. Sôfrego é uma delas. Seu sinônimo é outro proparoxítono simplesmente lindo: “ávido”... Não sei por que, ávido parece-me ter asas, não como de pássaros, mas de borboletas, leves, suaves, frágeis até... Sôfrego é um ávido que sofre, que tem ganas de saber, de ter retorno. Apaixono-me à primeira vista se alguém diz “ABRUPTO”. Mais ainda, se a pessoa diz como se deve dizer corretamente: AB - RUP (o R como em Rato...) - TO. Há quem diga : A – BRUP – TO. Não tem o mesmo encanto – nem a correção necessária. Um amigo disse-me que sua relação acabou de forma ab – rup - ta. Fiquei a contemplá-lo imerso em abruptas condolências, imaginando um amor que ainda acaba assim, cheio de salamaleques, tristezas e palavras fora de moda. Hoje em dia os amores acabam “de repente”. Não, Eduardo, não tem MESMO a mesma beleza. Quando o meu amor acabar, se for de forma abrupta, ficarei tão triste quanto, mas muito mais inebriado por sua beleza que se foi... Gosto de esplêndido... Não há como uma coisa de quem se diz esplêndida não ser deslumbrante. É um proparoxítono que ressoa. Que dá trabalho ao palato, que sibila. Quer outra? Girândola!!! Falem girândola sem que toda a sua face comemore a beleza de nossa língua... Impossível! Há, por certo, as feias. Não sei por que, acho “balde” uma delas! Já fiz de tudo para não ter implicâncias com balde... Até comprar um balde muito lindo, mas não deu... Detesto o relativo “cujo”. Não lembra um palavrão? Certa vez, briguei com uma professora de português. Ela, impassível, na minha frente, disse algo que magoou. Eu disse: “Sua... sua.... sua.... sua... CUJA!” Ela ficou me olhando, como se eu fosse completamente insano (outra palavra linda... Nem se parece com o sinônimo eu tem...). A dita cuja, hoje, é uma grande amiga minha; tem 71 anos e outro dia cruzei com ela em uma sala de bate-papo onde ela ostentava, com orgulho, o seu nick: “CUJA” . Juro que isso é verdade e dou fé... Na cozinha, acho horrível a palavra GRATINAR. Quando era mais jovem do que hoje sou, minha mãe dizia que iria gratinar o prato. Juro que eu pensava comigo: “Será que ela não podia separar a minha parte?” Imaginava uma coisa pisada, amassada, decomposta, “gratinada”, mesmo! Imaginava minha mãe, em seus acessos de raiva incontidos, pisando o prato, toda amalucada, gratinando tudo ao seu redor. Confesso que, ainda hoje, adoro o acepipe (linda essa, não? Qualquer gororoba chamada de acepipe é uma delícia...), mas prefiro que não falem a palavra tão feia... Certa vez, Mário Quintana disse, em um dos seus pequenos grande poemas, que não me lembro de forma literal, sobre a beleza dos cinamomos. Sabem o que é? A árvore da canela. Caneleiras, talvez? Mas, lembra bem Quintana: cinamomos não é muito mais lindo? Nossa! Até onde fui!!! Livre pensar.. É só pensar... Abraços, Eduardo... A todos, desculpem o arroubo vespertino... Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Enviada em: Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2002 15:34 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: RE: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Sôfrego, Ney? De onde você desenterrou essa??? Eduardo -----Original Message----- From: Ney Mourao [mailto:neymourao@neymourao.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 3:26 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RES: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Olá, Gostaria de acrescentar às questões aqui explanadas pela Luciana algumas outras. Creio que vou botar mais lenha na fogueira. Concordo plenamente com a Lu, quando ela fala da necessidade de que o “praticário” leve em consideração aspectos ligados à identidade e ao que ela chama de espiritualidade. Tenho trabalhado por aqui, em algumas experiências práticas coordenadas pelo Professor Antônio Carlos Gomes da Costa, onde ele aprofunda diversas questões ligadas às competências e, principalmente, às competências pessoais, relacionadas ao aprender a ser. Como um linha de raciocínio não-reducionista, mas apenas como norteadora da compreensão, o Professor, de forma brilhante, estabeleceu um fio condutor, onde sugere alguns passos práticos, uma “agenda” que poderia nos ajudar a lidar com o educando: necessidades e trilhas para contribuir com um “ser” em plenitude. De fato, Lu, no primeiro “degrau”, ou no “marco zero” de qualquer conversa, o Professor Antônio Carlos sugere que seja trabalhada a autoconsciência, como base para a compreensão e a aceitação de si mesmo. Outros “AUTOS” viriam, na seqüência de qualquer trabalho educativo: AUTOVALORIZAÇÃO: Atribuir-se uma significação positiva; AUTO-ESTIMA: Gostar de si mesmo, apreciar-se; AUTOPERCEPÇÃO: Identificar seus pontos fortes e fracos; AUTOCONCEITO: Formar uma idéia precisa de si mesmo; AUTOCONFIANÇA: Apoiar-se primeiro em suas próprias forças; AUTOPROJEÇÃO: Tornar-se autoproposto, ter um projeto de vida; AUTOTELIA: Estabelecer seus próprios fins, encontrar seu sentido na vida; AUTONOMIA: Reger-se por critérios próprios; AUTODETERMINAÇÃO: Posicionar-se a partir de seus próprios pontos de vista e interesses; AUTOPRESERVAÇÃO: Saber lidar com a adversidade de forma resiliente; AUTO-REALIZAÇÃO: Consciência de estar no caminho certo e de não estar parado. Notem que, apesar de não haver uma “ordem” no alcance destas coisas, os três primeiros itens, incluindo a autoconsciência, autovalorização e auto-estima, constituem-se em uma base, um começo de conversa imprescindível. Vimos, na prática, em trabalhos com jovens em conflito com a lei, que a pergunta que mais os magoa e irrita é sempre: “O que você vai ser quando crescer?” Não é raro que eles respondam, apenas para agredir: “Bandido!” Ora, a pergunta que fala sobre “ser quando crescer, normalmente está associada a um PROJETO DE VIDA. Isso, na cabeça desses meninos, está lá na frente, muito longe do básico que ainda não foi construído: entender-se, aceitar-se, gostar-se, ser confiante. A partir disso, sim, pode-se falar em projeto. Creio que muitas vezes, na nossa educação, falta levar o aluno PRIMEIRO a gostar-se, aceitar-se, para DEPOIS se falar em qualquer projeto de vida. É claro que estou sôfrego de vontade de ouvir os demais... ;-) Um abraço, Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Luciana Salgado [mailto:lsalgado@uol.com.br] Enviada em: Domingo, 3 de Fevereiro de 2002 14:12 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: Re: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Oi Eduardo, olá pessoal! Há muito tempo venho refletindo sobre essa questão que você nos trás, mas até agora eu não havia conseguido colocá-la no papel, o que você fez de forma muito clara e que, sem dúvida, deve ser o ponto de partida para nossas discussões: "Como transformar o ideário em praticário?" Difícil, não? Mas, não impossível.... A fórmula mágica eu não tenho, mas arrisco algumas hipóteses... O que senti, durante estes dois anos de acompanhamento presencial e virtual é que as pessoas (aí incluso alunos, professores, direção, coordenação, etc...) acreditam no ideário, mas enfrentam muitas dificuldades para torná-lo uma prática. Dentre as dificuldades, destaco duas que, a meu ver, são os maiores entraves: relações humanas e aspectos organizacionais iniciais, relacionados a três perguntas: "Começar por onde?", "Quem envolver?", "Como cativá-los?". - Relações Humanas Não existe projeto de vida, escolar, familiar que vá para frente se as relações humanas não tiverem muito bem resolvidas. Acho que cabe aqui comentar sobre o que o Eduardo falou em relação a entrevista de Toro na Nova Escola. Concordo com você, Eduardo, quando coloca que Toro simplificou muito ao apresentar somente as 8 competências. A meu ver ele esqueceu a mais importante: desenvolver sua espiritualidade e reconhecer sua identidade. O desenvolvimento dessa competência deve acontecer em todas as atividades vivenciadas pela comunidade escolar diariamente. Falo em comunidade escolar e não em aluno, pois se conseguirmos fazê-los refletir sobre essas questões, não precisamos, como propõe Rubem Alves criar uma nova escola. O que temos é que trabalhar nos recursos humanos, na auto-estima destas pessoas, no reconhecimento da sua identidade e na sua identificação como pertencendo aquele grupo e, que com suas competências e habilidades, pode de alguma forma contribuir com ele. Será que fui clara? A minha hipótese é que devemos começar com textos e atividades que leve a reflexão sobre papéis na comunidade e respeito mútuo. Seria o desenvolvimento da nona inteligência apresentada por Gadner: a inteligência espiritual. Ele afirma explicitamente que não está propondo uma inteligência espiritual, religiosa ou moral baseada em quaisquer "verdades" específicas propostas por diferentes indivíduos, grupos ou instituições. Em vez disso, ele está sugerindo que qualquer representação do espectro de inteligências humanas deveria incluir a busca tão antiga da humanidade das respostas às perguntas básicas da vida: "Quem somos nós?", "Qual é o sentido disso tudo?", "Por que existe o mal?", "Para onde está indo a humanidade?", "Existe significado na Vida?", e assim por diante. - Aspectos Organizacionais Iniciais O outro ponto é relacionado à questões organizacionais. Além das relações humanas, a comunidade escolar tem muita dificuldade em colocar as idéias em prática, sistematizar. Muitas vezes eles têm boa vontade, mas não sabem como se organizar. Pensar em um encontro para reflexão, como fazer as pessoas comprarem a idéia, qual o objetivo das reuniões, etc para eles é muito difícil. Precisamos investir com um apoio para que eles dêem o pontapé inicial. Imagino que textos de apoio e reflexões em grupo de como organizar um encontro, saber definir o objetivo do momento, como elaborar dinâmicas de sensibilização pode ajudá-los a estruturar o trabalho. Bom, acho que é isso... O que vocês acham? Beijos Lu ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: eac@escola2000.net Sent: Sunday, February 03, 2002 11:51 AM Subject: [escola2000] Sobre idearios e praticarios No chat, nós combinamos continuar a discussão, na lista, de algumas das questões levantadas. Deixei o sabado inteiro para que isso acontecesse. Como nao aconteceu, estou comecando a provocar... Lá no chat o Ney disse que a leitura do Ideário do Programa o comoveu - e perguntou o que a gente precisava / devia fazer para conseguir que ele, o ideário, comovesse o pessoal das escolas. Na minha resposta, eu disse que minha maior preocupação não era tanto com a emoção das pessoas (a Lu concordou comigo...). Em Faxinal, e, depois, em vários encontros regionais, e mesmo através de encontros pessoais (presenciais) e nas nossas listas, tenho visto muitas pessoas se emocionarem com idéias -- em especial, com as idéias que dão sustentação ao programa. Basta apresentá-las bem que as pessoas se emocionam. A capacidade de se emocionar com idéias é uma característica única do ser humano -- porque, afinal de contas, o ser humano é o único animal a lidar com idéias, e, portanto, com capacidade de se emocionar -- ou de se irritar! -- com elas. (Essa capacidade, embora potencialmente muito positiva, está também por detrás de fanatismos de diferentes espécies, inclusive religiosos. Mas não é nessa direção que desejo continuar). Minha maior preocupação no momento está em como transformar o ideário em "praticário". Pressupondo que a maior parte das pessoas com que vamos lidar, nas escolas, está de acordo quanto ao ideário, e mesmo se emocione com ele, como transformá-lo em prática pedagógica concreta? [Certamente não terá passado despercebido o fato de que o "praticário" nada mais é do que a nossa tão buscada "tecnologia social"]. Se não soubermos fazer isso, seremos meros "utopistas" (outro nome para "idearistas"), como bem ressaltou o diretor da Escola da Ponte. E de idearistas o mundo está cheio (o que, nem de longe, é mau). Precisamos, porém, saber transformar a nossa utopia (o nosso ideário) em prática pedagógica concreta (em praticário). O Rubem Alves, que também se emociona com essas idéias, acha que só criando uma escola nova, a partir do zero. Tentar transformar a velha, na opinião dele, não vai dar certo. Será? Se ele está certo, estamos perdendo tempo. Valeria mais a pena o IAS construir uma "escola modelo" e chamar o pessoal pra ver. O grande desafio é mudar os milhares de escolas que estão esparraramadas por aí. Dá para fazer? Como? Sugestões? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 2 Date: Wed, 6 Feb 2002 18:01:47 -0200 From: "Ney Mourao" Subject: RES: PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Olá, amigos. No meu e-mail anterior, respondendo à provocação do Eduardo, acabei, de forma abrupta, cometendo duas gafes (aliás, uma palavra neutra... Insossa – Essa, sim, uma palavra reverberativa e linda!): “Mário Quintana disse, em um dos seus pequenos grande poemas”. Perdoem-me! Leiam “grandes”... E “Nem se parece com o sinônimo eu tem”. Novamente, perdão. Leiam “que tem”. Todo o resto, mantenho... Um abraço, Ney -----Mensagem original----- De: Ney Mourao [mailto:neymourao@neymourao.com.br] Enviada em: Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2002 17:40 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: [escola2000] PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Não é lindo? Há palavras na língua portuguesa que, creio, deveríamos fazer piquetes para que fossem mais utilizadas. Sôfrego é uma delas. Seu sinônimo é outro proparoxítono simplesmente lindo: “ávido”... Não sei por que, ávido parece-me ter asas, não como de pássaros, mas de borboletas, leves, suaves, frágeis até... Sôfrego é um ávido que sofre, que tem ganas de saber, de ter retorno. Apaixono-me à primeira vista se alguém diz “ABRUPTO”. Mais ainda, se a pessoa diz como se deve dizer corretamente: AB - RUP (o R como em Rato...) - TO. Há quem diga : A – BRUP – TO. Não tem o mesmo encanto – nem a correção necessária. Um amigo disse-me que sua relação acabou de forma ab – rup - ta. Fiquei a contemplá-lo imerso em abruptas condolências, imaginando um amor que ainda acaba assim, cheio de salamaleques, tristezas e palavras fora de moda. Hoje em dia os amores acabam “de repente”. Não, Eduardo, não tem MESMO a mesma beleza. Quando o meu amor acabar, se for de forma abrupta, ficarei tão triste quanto, mas muito mais inebriado por sua beleza que se foi... Gosto de esplêndido... Não há como uma coisa de quem se diz esplêndida não ser deslumbrante. É um proparoxítono que ressoa. Que dá trabalho ao palato, que sibila. Quer outra? Girândola!!! Falem girândola sem que toda a sua face comemore a beleza de nossa língua... Impossível! Há, por certo, as feias. Não sei por que, acho “balde” uma delas! Já fiz de tudo para não ter implicâncias com balde... Até comprar um balde muito lindo, mas não deu... Detesto o relativo “cujo”. Não lembra um palavrão? Certa vez, briguei com uma professora de português. Ela, impassível, na minha frente, disse algo que magoou. Eu disse: “Sua... sua.... sua.... sua... CUJA!” Ela ficou me olhando, como se eu fosse completamente insano (outra palavra linda... Nem se parece com o sinônimo eu tem...). A dita cuja, hoje, é uma grande amiga minha; tem 71 anos e outro dia cruzei com ela em uma sala de bate-papo onde ela ostentava, com orgulho, o seu nick: “CUJA” . Juro que isso é verdade e dou fé... Na cozinha, acho horrível a palavra GRATINAR. Quando era mais jovem do que hoje sou, minha mãe dizia que iria gratinar o prato. Juro que eu pensava comigo: “Será que ela não podia separar a minha parte?” Imaginava uma coisa pisada, amassada, decomposta, “gratinada”, mesmo! Imaginava minha mãe, em seus acessos de raiva incontidos, pisando o prato, toda amalucada, gratinando tudo ao seu redor. Confesso que, ainda hoje, adoro o acepipe (linda essa, não? Qualquer gororoba chamada de acepipe é uma delícia...), mas prefiro que não falem a palavra tão feia... Certa vez, Mário Quintana disse, em um dos seus pequenos grande poemas, que não me lembro de forma literal, sobre a beleza dos cinamomos. Sabem o que é? A árvore da canela. Caneleiras, talvez? Mas, lembra bem Quintana: cinamomos não é muito mais lindo? Nossa! Até onde fui!!! Livre pensar.. É só pensar... Abraços, Eduardo... A todos, desculpem o arroubo vespertino... Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Enviada em: Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2002 15:34 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: RE: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Sôfrego, Ney? De onde você desenterrou essa??? Eduardo -----Original Message----- From: Ney Mourao [mailto:neymourao@neymourao.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 3:26 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RES: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Olá, Gostaria de acrescentar às questões aqui explanadas pela Luciana algumas outras. Creio que vou botar mais lenha na fogueira. Concordo plenamente com a Lu, quando ela fala da necessidade de que o “praticário” leve em consideração aspectos ligados à identidade e ao que ela chama de espiritualidade. Tenho trabalhado por aqui, em algumas experiências práticas coordenadas pelo Professor Antônio Carlos Gomes da Costa, onde ele aprofunda diversas questões ligadas às competências e, principalmente, às competências pessoais, relacionadas ao aprender a ser. Como um linha de raciocínio não-reducionista, mas apenas como norteadora da compreensão, o Professor, de forma brilhante, estabeleceu um fio condutor, onde sugere alguns passos práticos, uma “agenda” que poderia nos ajudar a lidar com o educando: necessidades e trilhas para contribuir com um “ser” em plenitude. De fato, Lu, no primeiro “degrau”, ou no “marco zero” de qualquer conversa, o Professor Antônio Carlos sugere que seja trabalhada a autoconsciência, como base para a compreensão e a aceitação de si mesmo. Outros “AUTOS” viriam, na seqüência de qualquer trabalho educativo: AUTOVALORIZAÇÃO: Atribuir-se uma significação positiva; AUTO-ESTIMA: Gostar de si mesmo, apreciar-se; AUTOPERCEPÇÃO: Identificar seus pontos fortes e fracos; AUTOCONCEITO: Formar uma idéia precisa de si mesmo; AUTOCONFIANÇA: Apoiar-se primeiro em suas próprias forças; AUTOPROJEÇÃO: Tornar-se autoproposto, ter um projeto de vida; AUTOTELIA: Estabelecer seus próprios fins, encontrar seu sentido na vida; AUTONOMIA: Reger-se por critérios próprios; AUTODETERMINAÇÃO: Posicionar-se a partir de seus próprios pontos de vista e interesses; AUTOPRESERVAÇÃO: Saber lidar com a adversidade de forma resiliente; AUTO-REALIZAÇÃO: Consciência de estar no caminho certo e de não estar parado. Notem que, apesar de não haver uma “ordem” no alcance destas coisas, os três primeiros itens, incluindo a autoconsciência, autovalorização e auto-estima, constituem-se em uma base, um começo de conversa imprescindível. Vimos, na prática, em trabalhos com jovens em conflito com a lei, que a pergunta que mais os magoa e irrita é sempre: “O que você vai ser quando crescer?” Não é raro que eles respondam, apenas para agredir: “Bandido!” Ora, a pergunta que fala sobre “ser quando crescer, normalmente está associada a um PROJETO DE VIDA. Isso, na cabeça desses meninos, está lá na frente, muito longe do básico que ainda não foi construído: entender-se, aceitar-se, gostar-se, ser confiante. A partir disso, sim, pode-se falar em projeto. Creio que muitas vezes, na nossa educação, falta levar o aluno PRIMEIRO a gostar-se, aceitar-se, para DEPOIS se falar em qualquer projeto de vida. É claro que estou sôfrego de vontade de ouvir os demais... ;-) Um abraço, Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Luciana Salgado [mailto:lsalgado@uol.com.br] Enviada em: Domingo, 3 de Fevereiro de 2002 14:12 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: Re: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Oi Eduardo, olá pessoal! Há muito tempo venho refletindo sobre essa questão que você nos trás, mas até agora eu não havia conseguido colocá-la no papel, o que você fez de forma muito clara e que, sem dúvida, deve ser o ponto de partida para nossas discussões: "Como transformar o ideário em praticário?" Difícil, não? Mas, não impossível.... A fórmula mágica eu não tenho, mas arrisco algumas hipóteses... O que senti, durante estes dois anos de acompanhamento presencial e virtual é que as pessoas (aí incluso alunos, professores, direção, coordenação, etc...) acreditam no ideário, mas enfrentam muitas dificuldades para torná-lo uma prática. Dentre as dificuldades, destaco duas que, a meu ver, são os maiores entraves: relações humanas e aspectos organizacionais iniciais, relacionados a três perguntas: "Começar por onde?", "Quem envolver?", "Como cativá-los?". - Relações Humanas Não existe projeto de vida, escolar, familiar que vá para frente se as relações humanas não tiverem muito bem resolvidas. Acho que cabe aqui comentar sobre o que o Eduardo falou em relação a entrevista de Toro na Nova Escola. Concordo com você, Eduardo, quando coloca que Toro simplificou muito ao apresentar somente as 8 competências. A meu ver ele esqueceu a mais importante: desenvolver sua espiritualidade e reconhecer sua identidade. O desenvolvimento dessa competência deve acontecer em todas as atividades vivenciadas pela comunidade escolar diariamente. Falo em comunidade escolar e não em aluno, pois se conseguirmos fazê-los refletir sobre essas questões, não precisamos, como propõe Rubem Alves criar uma nova escola. O que temos é que trabalhar nos recursos humanos, na auto-estima destas pessoas, no reconhecimento da sua identidade e na sua identificação como pertencendo aquele grupo e, que com suas competências e habilidades, pode de alguma forma contribuir com ele. Será que fui clara? A minha hipótese é que devemos começar com textos e atividades que leve a reflexão sobre papéis na comunidade e respeito mútuo. Seria o desenvolvimento da nona inteligência apresentada por Gadner: a inteligência espiritual. Ele afirma explicitamente que não está propondo uma inteligência espiritual, religiosa ou moral baseada em quaisquer "verdades" específicas propostas por diferentes indivíduos, grupos ou instituições. Em vez disso, ele está sugerindo que qualquer representação do espectro de inteligências humanas deveria incluir a busca tão antiga da humanidade das respostas às perguntas básicas da vida: "Quem somos nós?", "Qual é o sentido disso tudo?", "Por que existe o mal?", "Para onde está indo a humanidade?", "Existe significado na Vida?", e assim por diante. - Aspectos Organizacionais Iniciais O outro ponto é relacionado à questões organizacionais. Além das relações humanas, a comunidade escolar tem muita dificuldade em colocar as idéias em prática, sistematizar. Muitas vezes eles têm boa vontade, mas não sabem como se organizar. Pensar em um encontro para reflexão, como fazer as pessoas comprarem a idéia, qual o objetivo das reuniões, etc para eles é muito difícil. Precisamos investir com um apoio para que eles dêem o pontapé inicial. Imagino que textos de apoio e reflexões em grupo de como organizar um encontro, saber definir o objetivo do momento, como elaborar dinâmicas de sensibilização pode ajudá-los a estruturar o trabalho. Bom, acho que é isso... O que vocês acham? Beijos Lu ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: eac@escola2000.net Sent: Sunday, February 03, 2002 11:51 AM Subject: [escola2000] Sobre idearios e praticarios No chat, nós combinamos continuar a discussão, na lista, de algumas das questões levantadas. Deixei o sabado inteiro para que isso acontecesse. Como nao aconteceu, estou comecando a provocar... Lá no chat o Ney disse que a leitura do Ideário do Programa o comoveu - e perguntou o que a gente precisava / devia fazer para conseguir que ele, o ideário, comovesse o pessoal das escolas. Na minha resposta, eu disse que minha maior preocupação não era tanto com a emoção das pessoas (a Lu concordou comigo...). Em Faxinal, e, depois, em vários encontros regionais, e mesmo através de encontros pessoais (presenciais) e nas nossas listas, tenho visto muitas pessoas se emocionarem com idéias -- em especial, com as idéias que dão sustentação ao programa. Basta apresentá-las bem que as pessoas se emocionam. A capacidade de se emocionar com idéias é uma característica única do ser humano -- porque, afinal de contas, o ser humano é o único animal a lidar com idéias, e, portanto, com capacidade de se emocionar -- ou de se irritar! -- com elas. (Essa capacidade, embora potencialmente muito positiva, está também por detrás de fanatismos de diferentes espécies, inclusive religiosos. Mas não é nessa direção que desejo continuar). Minha maior preocupação no momento está em como transformar o ideário em "praticário". Pressupondo que a maior parte das pessoas com que vamos lidar, nas escolas, está de acordo quanto ao ideário, e mesmo se emocione com ele, como transformá-lo em prática pedagógica concreta? [Certamente não terá passado despercebido o fato de que o "praticário" nada mais é do que a nossa tão buscada "tecnologia social"]. Se não soubermos fazer isso, seremos meros "utopistas" (outro nome para "idearistas"), como bem ressaltou o diretor da Escola da Ponte. E de idearistas o mundo está cheio (o que, nem de longe, é mau). Precisamos, porém, saber transformar a nossa utopia (o nosso ideário) em prática pedagógica concreta (em praticário). O Rubem Alves, que também se emociona com essas idéias, acha que só criando uma escola nova, a partir do zero. Tentar transformar a velha, na opinião dele, não vai dar certo. Será? Se ele está certo, estamos perdendo tempo. Valeria mais a pena o IAS construir uma "escola modelo" e chamar o pessoal pra ver. O grande desafio é mudar os milhares de escolas que estão esparraramadas por aí. Dá para fazer? Como? Sugestões? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 3 Date: Wed, 6 Feb 2002 18:06:11 -0200 From: "Otoniel Niccolini" Subject: Re: PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Ney, Li sua crônica das palavras e gostei muito. Fiquei aqui repetindo a palavra "esplêndido" para entender o que seria o palato silibar, depois tentei falar "ab-rup-to" com "r" de "rato" mas meu Paulistanês está me impedindo... O mais engraçado foi que ao ler sobre o seu encontro no chat com a CUJA, eu pensei comigo "Isso já não pode ser verdade", mas a próxima linha do seu texto dizia "Juro que isso é verdade e dou fé..." - acho que conversamos virtual-assincronamente! Toni ----- Original Message ----- From: Ney Mourao To: Sent: Wednesday, February 06, 2002 6:01 PM Subject: RES: [escola2000] PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Olá, amigos. No meu e-mail anterior, respondendo à provocação do Eduardo, acabei, de forma abrupta, cometendo duas gafes (aliás, uma palavra neutra... Insossa - Essa, sim, uma palavra reverberativa e linda!): "Mário Quintana disse, em um dos seus pequenos grande poemas". Perdoem-me! Leiam "grandes"... E "Nem se parece com o sinônimo eu tem". Novamente, perdão. Leiam "que tem". Todo o resto, mantenho... Um abraço, Ney -----Mensagem original----- De: Ney Mourao [mailto:neymourao@neymourao.com.br] Enviada em: Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2002 17:40 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: [escola2000] PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Não é lindo? Há palavras na língua portuguesa que, creio, deveríamos fazer piquetes para que fossem mais utilizadas. Sôfrego é uma delas. Seu sinônimo é outro proparoxítono simplesmente lindo: "ávido"... Não sei por que, ávido parece-me ter asas, não como de pássaros, mas de borboletas, leves, suaves, frágeis até... Sôfrego é um ávido que sofre, que tem ganas de saber, de ter retorno. Apaixono-me à primeira vista se alguém diz "ABRUPTO". Mais ainda, se a pessoa diz como se deve dizer corretamente: AB - RUP (o R como em Rato...) - TO. Há quem diga : A - BRUP - TO. Não tem o mesmo encanto - nem a correção necessária. Um amigo disse-me que sua relação acabou de forma ab - rup - ta. Fiquei a contemplá-lo imerso em abruptas condolências, imaginando um amor que ainda acaba assim, cheio de salamaleques, tristezas e palavras fora de moda. Hoje em dia os amores acabam "de repente". Não, Eduardo, não tem MESMO a mesma beleza. Quando o meu amor acabar, se for de forma abrupta, ficarei tão triste quanto, mas muito mais inebriado por sua beleza que se foi... Gosto de esplêndido... Não há como uma coisa de quem se diz esplêndida não ser deslumbrante. É um proparoxítono que ressoa. Que dá trabalho ao palato, que sibila. Quer outra? Girândola!!! Falem girândola sem que toda a sua face comemore a beleza de nossa língua... Impossível! Há, por certo, as feias. Não sei por que, acho "balde" uma delas! Já fiz de tudo para não ter implicâncias com balde... Até comprar um balde muito lindo, mas não deu... Detesto o relativo "cujo". Não lembra um palavrão? Certa vez, briguei com uma professora de português. Ela, impassível, na minha frente, disse algo que magoou. Eu disse: "Sua... sua.... sua.... sua... CUJA!" Ela ficou me olhando, como se eu fosse completamente insano (outra palavra linda... Nem se parece com o sinônimo eu tem...). A dita cuja, hoje, é uma grande amiga minha; tem 71 anos e outro dia cruzei com ela em uma sala de bate-papo onde ela ostentava, com orgulho, o seu nick: "CUJA" . Juro que isso é verdade e dou fé... Na cozinha, acho horrível a palavra GRATINAR. Quando era mais jovem do que hoje sou, minha mãe dizia que iria gratinar o prato. Juro que eu pensava comigo: "Será que ela não podia separar a minha parte?" Imaginava uma coisa pisada, amassada, decomposta, "gratinada", mesmo! Imaginava minha mãe, em seus acessos de raiva incontidos, pisando o prato, toda amalucada, gratinando tudo ao seu redor. Confesso que, ainda hoje, adoro o acepipe (linda essa, não? Qualquer gororoba chamada de acepipe é uma delícia...), mas prefiro que não falem a palavra tão feia... Certa vez, Mário Quintana disse, em um dos seus pequenos grande poemas, que não me lembro de forma literal, sobre a beleza dos cinamomos. Sabem o que é? A árvore da canela. Caneleiras, talvez? Mas, lembra bem Quintana: cinamomos não é muito mais lindo? Nossa! Até onde fui!!! Livre pensar.. É só pensar... Abraços, Eduardo... A todos, desculpem o arroubo vespertino... Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Enviada em: Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2002 15:34 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: RE: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Sôfrego, Ney? De onde você desenterrou essa??? Eduardo -----Original Message----- From: Ney Mourao [mailto:neymourao@neymourao.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 3:26 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RES: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Olá, Gostaria de acrescentar às questões aqui explanadas pela Luciana algumas outras. Creio que vou botar mais lenha na fogueira. Concordo plenamente com a Lu, quando ela fala da necessidade de que o "praticário" leve em consideração aspectos ligados à identidade e ao que ela chama de espiritualidade. Tenho trabalhado por aqui, em algumas experiências práticas coordenadas pelo Professor Antônio Carlos Gomes da Costa, onde ele aprofunda diversas questões ligadas às competências e, principalmente, às competências pessoais, relacionadas ao aprender a ser. Como um linha de raciocínio não-reducionista, mas apenas como norteadora da compreensão, o Professor, de forma brilhante, estabeleceu um fio condutor, onde sugere alguns passos práticos, uma "agenda" que poderia nos ajudar a lidar com o educando: necessidades e trilhas para contribuir com um "ser" em plenitude. De fato, Lu, no primeiro "degrau", ou no "marco zero" de qualquer conversa, o Professor Antônio Carlos sugere que seja trabalhada a autoconsciência, como base para a compreensão e a aceitação de si mesmo. Outros "AUTOS" viriam, na seqüência de qualquer trabalho educativo: AUTOVALORIZAÇÃO: Atribuir-se uma significação positiva; AUTO-ESTIMA: Gostar de si mesmo, apreciar-se; AUTOPERCEPÇÃO: Identificar seus pontos fortes e fracos; AUTOCONCEITO: Formar uma idéia precisa de si mesmo; AUTOCONFIANÇA: Apoiar-se primeiro em suas próprias forças; AUTOPROJEÇÃO: Tornar-se autoproposto, ter um projeto de vida; AUTOTELIA: Estabelecer seus próprios fins, encontrar seu sentido na vida; AUTONOMIA: Reger-se por critérios próprios; AUTODETERMINAÇÃO: Posicionar-se a partir de seus próprios pontos de vista e interesses; AUTOPRESERVAÇÃO: Saber lidar com a adversidade de forma resiliente; AUTO-REALIZAÇÃO: Consciência de estar no caminho certo e de não estar parado. Notem que, apesar de não haver uma "ordem" no alcance destas coisas, os três primeiros itens, incluindo a autoconsciência, autovalorização e auto-estima, constituem-se em uma base, um começo de conversa imprescindível. Vimos, na prática, em trabalhos com jovens em conflito com a lei, que a pergunta que mais os magoa e irrita é sempre: "O que você vai ser quando crescer?" Não é raro que eles respondam, apenas para agredir: "Bandido!" Ora, a pergunta que fala sobre "ser quando crescer, normalmente está associada a um PROJETO DE VIDA. Isso, na cabeça desses meninos, está lá na frente, muito longe do básico que ainda não foi construído: entender-se, aceitar-se, gostar-se, ser confiante. A partir disso, sim, pode-se falar em projeto. Creio que muitas vezes, na nossa educação, falta levar o aluno PRIMEIRO a gostar-se, aceitar-se, para DEPOIS se falar em qualquer projeto de vida. É claro que estou sôfrego de vontade de ouvir os demais... ;-) Um abraço, Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Luciana Salgado [mailto:lsalgado@uol.com.br] Enviada em: Domingo, 3 de Fevereiro de 2002 14:12 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: Re: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Oi Eduardo, olá pessoal! Há muito tempo venho refletindo sobre essa questão que você nos trás, mas até agora eu não havia conseguido colocá-la no papel, o que você fez de forma muito clara e que, sem dúvida, deve ser o ponto de partida para nossas discussões: "Como transformar o ideário em praticário?" Difícil, não? Mas, não impossível.... A fórmula mágica eu não tenho, mas arrisco algumas hipóteses... O que senti, durante estes dois anos de acompanhamento presencial e virtual é que as pessoas (aí incluso alunos, professores, direção, coordenação, etc...) acreditam no ideário, mas enfrentam muitas dificuldades para torná-lo uma prática. Dentre as dificuldades, destaco duas que, a meu ver, são os maiores entraves: relações humanas e aspectos organizacionais iniciais, relacionados a três perguntas: "Começar por onde?", "Quem envolver?", "Como cativá-los?". - Relações Humanas Não existe projeto de vida, escolar, familiar que vá para frente se as relações humanas não tiverem muito bem resolvidas. Acho que cabe aqui comentar sobre o que o Eduardo falou em relação a entrevista de Toro na Nova Escola. Concordo com você, Eduardo, quando coloca que Toro simplificou muito ao apresentar somente as 8 competências. A meu ver ele esqueceu a mais importante: desenvolver sua espiritualidade e reconhecer sua identidade. O desenvolvimento dessa competência deve acontecer em todas as atividades vivenciadas pela comunidade escolar diariamente. Falo em comunidade escolar e não em aluno, pois se conseguirmos fazê-los refletir sobre essas questões, não precisamos, como propõe Rubem Alves criar uma nova escola. O que temos é que trabalhar nos recursos humanos, na auto-estima destas pessoas, no reconhecimento da sua identidade e na sua identificação como pertencendo aquele grupo e, que com suas competências e habilidades, pode de alguma forma contribuir com ele. Será que fui clara? A minha hipótese é que devemos começar com textos e atividades que leve a reflexão sobre papéis na comunidade e respeito mútuo. Seria o desenvolvimento da nona inteligência apresentada por Gadner: a inteligência espiritual. Ele afirma explicitamente que não está propondo uma inteligência espiritual, religiosa ou moral baseada em quaisquer "verdades" específicas propostas por diferentes indivíduos, grupos ou instituições. Em vez disso, ele está sugerindo que qualquer representação do espectro de inteligências humanas deveria incluir a busca tão antiga da humanidade das respostas às perguntas básicas da vida: "Quem somos nós?", "Qual é o sentido disso tudo?", "Por que existe o mal?", "Para onde está indo a humanidade?", "Existe significado na Vida?", e assim por diante. - Aspectos Organizacionais Iniciais O outro ponto é relacionado à questões organizacionais. Além das relações humanas, a comunidade escolar tem muita dificuldade em colocar as idéias em prática, sistematizar. Muitas vezes eles têm boa vontade, mas não sabem como se organizar. Pensar em um encontro para reflexão, como fazer as pessoas comprarem a idéia, qual o objetivo das reuniões, etc para eles é muito difícil. Precisamos investir com um apoio para que eles dêem o pontapé inicial. Imagino que textos de apoio e reflexões em grupo de como organizar um encontro, saber definir o objetivo do momento, como elaborar dinâmicas de sensibilização pode ajudá-los a estruturar o trabalho. Bom, acho que é isso... O que vocês acham? Beijos Lu ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: eac@escola2000.net Sent: Sunday, February 03, 2002 11:51 AM Subject: [escola2000] Sobre idearios e praticarios No chat, nós combinamos continuar a discussão, na lista, de algumas das questões levantadas. Deixei o sabado inteiro para que isso acontecesse. Como nao aconteceu, estou comecando a provocar... Lá no chat o Ney disse que a leitura do Ideário do Programa o comoveu - e perguntou o que a gente precisava / devia fazer para conseguir que ele, o ideário, comovesse o pessoal das escolas. Na minha resposta, eu disse que minha maior preocupação não era tanto com a emoção das pessoas (a Lu concordou comigo...). Em Faxinal, e, depois, em vários encontros regionais, e mesmo através de encontros pessoais (presenciais) e nas nossas listas, tenho visto muitas pessoas se emocionarem com idéias -- em especial, com as idéias que dão sustentação ao programa. Basta apresentá-las bem que as pessoas se emocionam. A capacidade de se emocionar com idéias é uma característica única do ser humano -- porque, afinal de contas, o ser humano é o único animal a lidar com idéias, e, portanto, com capacidade de se emocionar -- ou de se irritar! -- com elas. (Essa capacidade, embora potencialmente muito positiva, está também por detrás de fanatismos de diferentes espécies, inclusive religiosos. Mas não é nessa direção que desejo continuar). Minha maior preocupação no momento está em como transformar o ideário em "praticário". Pressupondo que a maior parte das pessoas com que vamos lidar, nas escolas, está de acordo quanto ao ideário, e mesmo se emocione com ele, como transformá-lo em prática pedagógica concreta? [Certamente não terá passado despercebido o fato de que o "praticário" nada mais é do que a nossa tão buscada "tecnologia social"]. Se não soubermos fazer isso, seremos meros "utopistas" (outro nome para "idearistas"), como bem ressaltou o diretor da Escola da Ponte. E de idearistas o mundo está cheio (o que, nem de longe, é mau). Precisamos, porém, saber transformar a nossa utopia (o nosso ideário) em prática pedagógica concreta (em praticário). O Rubem Alves, que também se emociona com essas idéias, acha que só criando uma escola nova, a partir do zero. Tentar transformar a velha, na opinião dele, não vai dar certo. Será? Se ele está certo, estamos perdendo tempo. Valeria mais a pena o IAS construir uma "escola modelo" e chamar o pessoal pra ver. O grande desafio é mudar os milhares de escolas que estão esparraramadas por aí. Dá para fazer? Como? Sugestões? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 4 Date: Wed, 6 Feb 2002 18:35:33 -0200 From: "Ney Mourao" Subject: RES: PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Tony, Falando sério, agora (meu Deus! Onde isso vai parar?!)... Há algumas culturas que dão muito valor à sonoridade das palavras. Isso acontece, por exemplo, em algumas culturas africanas, onde há palavras que são ditas com um objetivo específico. Os mantras indianos, também, são palavras que, segundo eles, provocariam a liberaÇão de determinadas “zonas” mentais e/ou espirituais para propósitos especiais. O “maha-mantra”, por exemplo: Hare Krshna, Hare Krshna, Krshna Krshna, Krshna Krshna, Hare Hare, Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare... Para quem não sabe (Nossa! Agora estou frito), fui devoto, morador do templo Hare Krshna, aqui em Belo Horizonte, durante alguns meses. Na época, repetindo estas palavras, de forma mecânica e quase exaustivamente, tive momentos de quase plenitude... ;-) O mantra “Om”, segundo a tradição védica, pronunciado no timbre correto e na altura correta, poderia até mesmo fazer uma montanha se mover do lugar. Junte a isso a fé (que, dizem, também remove montanhas), e uma boa dose de dinamite e, pronto! Olha a sua montanha no chão... Um abraço, Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Otoniel Niccolini [mailto:oniccolini@ias.org.br] Enviada em: Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2002 18:06 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: Re: [escola2000] PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Ney, Li sua crônica das palavras e gostei muito. Fiquei aqui repetindo a palavra "esplêndido" para entender o que seria o palato silibar, depois tentei falar "ab-rup-to" com "r" de "rato" mas meu Paulistanês está me impedindo... O mais engraçado foi que ao ler sobre o seu encontro no chat com a CUJA, eu pensei comigo "Isso já não pode ser verdade", mas a próxima linha do seu texto dizia "Juro que isso é verdade e dou fé..." - acho que conversamos virtual-assincronamente! Toni ----- Original Message ----- From: Ney Mourao To: Sent: Wednesday, February 06, 2002 6:01 PM Subject: RES: [escola2000] PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Olá, amigos. No meu e-mail anterior, respondendo à provocação do Eduardo, acabei, de forma abrupta, cometendo duas gafes (aliás, uma palavra neutra... Insossa - Essa, sim, uma palavra reverberativa e linda!): "Mário Quintana disse, em um dos seus pequenos grande poemas". Perdoem-me! Leiam "grandes"... E "Nem se parece com o sinônimo eu tem". Novamente, perdão. Leiam "que tem". Todo o resto, mantenho... Um abraço, Ney -----Mensagem original----- De: Ney Mourao [mailto:neymourao@neymourao.com.br] Enviada em: Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2002 17:40 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: [escola2000] PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Não é lindo? Há palavras na língua portuguesa que, creio, deveríamos fazer piquetes para que fossem mais utilizadas. Sôfrego é uma delas. Seu sinônimo é outro proparoxítono simplesmente lindo: "ávido"... Não sei por que, ávido parece-me ter asas, não como de pássaros, mas de borboletas, leves, suaves, frágeis até... Sôfrego é um ávido que sofre, que tem ganas de saber, de ter retorno. Apaixono-me à primeira vista se alguém diz "ABRUPTO". Mais ainda, se a pessoa diz como se deve dizer corretamente: AB - RUP (o R como em Rato...) - TO. Há quem diga : A - BRUP - TO. Não tem o mesmo encanto - nem a correção necessária. Um amigo disse-me que sua relação acabou de forma ab - rup - ta. Fiquei a contemplá-lo imerso em abruptas condolências, imaginando um amor que ainda acaba assim, cheio de salamaleques, tristezas e palavras fora de moda. Hoje em dia os amores acabam "de repente". Não, Eduardo, não tem MESMO a mesma beleza. Quando o meu amor acabar, se for de forma abrupta, ficarei tão triste quanto, mas muito mais inebriado por sua beleza que se foi... Gosto de esplêndido... Não há como uma coisa de quem se diz esplêndida não ser deslumbrante. É um proparoxítono que ressoa. Que dá trabalho ao palato, que sibila. Quer outra? Girândola!!! Falem girândola sem que toda a sua face comemore a beleza de nossa língua... Impossível! Há, por certo, as feias. Não sei por que, acho "balde" uma delas! Já fiz de tudo para não ter implicâncias com balde... Até comprar um balde muito lindo, mas não deu... Detesto o relativo "cujo". Não lembra um palavrão? Certa vez, briguei com uma professora de português. Ela, impassível, na minha frente, disse algo que magoou. Eu disse: "Sua... sua.... sua.... sua... CUJA!" Ela ficou me olhando, como se eu fosse completamente insano (outra palavra linda... Nem se parece com o sinônimo eu tem...). A dita cuja, hoje, é uma grande amiga minha; tem 71 anos e outro dia cruzei com ela em uma sala de bate-papo onde ela ostentava, com orgulho, o seu nick: "CUJA" . Juro que isso é verdade e dou fé... Na cozinha, acho horrível a palavra GRATINAR. Quando era mais jovem do que hoje sou, minha mãe dizia que iria gratinar o prato. Juro que eu pensava comigo: "Será que ela não podia separar a minha parte?" Imaginava uma coisa pisada, amassada, decomposta, "gratinada", mesmo! Imaginava minha mãe, em seus acessos de raiva incontidos, pisando o prato, toda amalucada, gratinando tudo ao seu redor. Confesso que, ainda hoje, adoro o acepipe (linda essa, não? Qualquer gororoba chamada de acepipe é uma delícia...), mas prefiro que não falem a palavra tão feia... Certa vez, Mário Quintana disse, em um dos seus pequenos grande poemas, que não me lembro de forma literal, sobre a beleza dos cinamomos. Sabem o que é? A árvore da canela. Caneleiras, talvez? Mas, lembra bem Quintana: cinamomos não é muito mais lindo? Nossa! Até onde fui!!! Livre pensar.. É só pensar... Abraços, Eduardo... A todos, desculpem o arroubo vespertino... Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Enviada em: Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2002 15:34 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: RE: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Sôfrego, Ney? De onde você desenterrou essa??? Eduardo -----Original Message----- From: Ney Mourao [mailto:neymourao@neymourao.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 3:26 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RES: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Olá, Gostaria de acrescentar às questões aqui explanadas pela Luciana algumas outras. Creio que vou botar mais lenha na fogueira. Concordo plenamente com a Lu, quando ela fala da necessidade de que o "praticário" leve em consideração aspectos ligados à identidade e ao que ela chama de espiritualidade. Tenho trabalhado por aqui, em algumas experiências práticas coordenadas pelo Professor Antônio Carlos Gomes da Costa, onde ele aprofunda diversas questões ligadas às competências e, principalmente, às competências pessoais, relacionadas ao aprender a ser. Como um linha de raciocínio não-reducionista, mas apenas como norteadora da compreensão, o Professor, de forma brilhante, estabeleceu um fio condutor, onde sugere alguns passos práticos, uma "agenda" que poderia nos ajudar a lidar com o educando: necessidades e trilhas para contribuir com um "ser" em plenitude. De fato, Lu, no primeiro "degrau", ou no "marco zero" de qualquer conversa, o Professor Antônio Carlos sugere que seja trabalhada a autoconsciência, como base para a compreensão e a aceitação de si mesmo. Outros "AUTOS" viriam, na seqüência de qualquer trabalho educativo: AUTOVALORIZAÇÃO: Atribuir-se uma significação positiva; AUTO-ESTIMA: Gostar de si mesmo, apreciar-se; AUTOPERCEPÇÃO: Identificar seus pontos fortes e fracos; AUTOCONCEITO: Formar uma idéia precisa de si mesmo; AUTOCONFIANÇA: Apoiar-se primeiro em suas próprias forças; AUTOPROJEÇÃO: Tornar-se autoproposto, ter um projeto de vida; AUTOTELIA: Estabelecer seus próprios fins, encontrar seu sentido na vida; AUTONOMIA: Reger-se por critérios próprios; AUTODETERMINAÇÃO: Posicionar-se a partir de seus próprios pontos de vista e interesses; AUTOPRESERVAÇÃO: Saber lidar com a adversidade de forma resiliente; AUTO-REALIZAÇÃO: Consciência de estar no caminho certo e de não estar parado. Notem que, apesar de não haver uma "ordem" no alcance destas coisas, os três primeiros itens, incluindo a autoconsciência, autovalorização e auto-estima, constituem-se em uma base, um começo de conversa imprescindível. Vimos, na prática, em trabalhos com jovens em conflito com a lei, que a pergunta que mais os magoa e irrita é sempre: "O que você vai ser quando crescer?" Não é raro que eles respondam, apenas para agredir: "Bandido!" Ora, a pergunta que fala sobre "ser quando crescer, normalmente está associada a um PROJETO DE VIDA. Isso, na cabeça desses meninos, está lá na frente, muito longe do básico que ainda não foi construído: entender-se, aceitar-se, gostar-se, ser confiante. A partir disso, sim, pode-se falar em projeto. Creio que muitas vezes, na nossa educação, falta levar o aluno PRIMEIRO a gostar-se, aceitar-se, para DEPOIS se falar em qualquer projeto de vida. É claro que estou sôfrego de vontade de ouvir os demais... ;-) Um abraço, Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Luciana Salgado [mailto:lsalgado@uol.com.br] Enviada em: Domingo, 3 de Fevereiro de 2002 14:12 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: Re: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Oi Eduardo, olá pessoal! Há muito tempo venho refletindo sobre essa questão que você nos trás, mas até agora eu não havia conseguido colocá-la no papel, o que você fez de forma muito clara e que, sem dúvida, deve ser o ponto de partida para nossas discussões: "Como transformar o ideário em praticário?" Difícil, não? Mas, não impossível.... A fórmula mágica eu não tenho, mas arrisco algumas hipóteses... O que senti, durante estes dois anos de acompanhamento presencial e virtual é que as pessoas (aí incluso alunos, professores, direção, coordenação, etc...) acreditam no ideário, mas enfrentam muitas dificuldades para torná-lo uma prática. Dentre as dificuldades, destaco duas que, a meu ver, são os maiores entraves: relações humanas e aspectos organizacionais iniciais, relacionados a três perguntas: "Começar por onde?", "Quem envolver?", "Como cativá-los?". - Relações Humanas Não existe projeto de vida, escolar, familiar que vá para frente se as relações humanas não tiverem muito bem resolvidas. Acho que cabe aqui comentar sobre o que o Eduardo falou em relação a entrevista de Toro na Nova Escola. Concordo com você, Eduardo, quando coloca que Toro simplificou muito ao apresentar somente as 8 competências. A meu ver ele esqueceu a mais importante: desenvolver sua espiritualidade e reconhecer sua identidade. O desenvolvimento dessa competência deve acontecer em todas as atividades vivenciadas pela comunidade escolar diariamente. Falo em comunidade escolar e não em aluno, pois se conseguirmos fazê-los refletir sobre essas questões, não precisamos, como propõe Rubem Alves criar uma nova escola. O que temos é que trabalhar nos recursos humanos, na auto-estima destas pessoas, no reconhecimento da sua identidade e na sua identificação como pertencendo aquele grupo e, que com suas competências e habilidades, pode de alguma forma contribuir com ele. Será que fui clara? A minha hipótese é que devemos começar com textos e atividades que leve a reflexão sobre papéis na comunidade e respeito mútuo. Seria o desenvolvimento da nona inteligência apresentada por Gadner: a inteligência espiritual. Ele afirma explicitamente que não está propondo uma inteligência espiritual, religiosa ou moral baseada em quaisquer "verdades" específicas propostas por diferentes indivíduos, grupos ou instituições. Em vez disso, ele está sugerindo que qualquer representação do espectro de inteligências humanas deveria incluir a busca tão antiga da humanidade das respostas às perguntas básicas da vida: "Quem somos nós?", "Qual é o sentido disso tudo?", "Por que existe o mal?", "Para onde está indo a humanidade?", "Existe significado na Vida?", e assim por diante. - Aspectos Organizacionais Iniciais O outro ponto é relacionado à questões organizacionais. Além das relações humanas, a comunidade escolar tem muita dificuldade em colocar as idéias em prática, sistematizar. Muitas vezes eles têm boa vontade, mas não sabem como se organizar. Pensar em um encontro para reflexão, como fazer as pessoas comprarem a idéia, qual o objetivo das reuniões, etc para eles é muito difícil. Precisamos investir com um apoio para que eles dêem o pontapé inicial. Imagino que textos de apoio e reflexões em grupo de como organizar um encontro, saber definir o objetivo do momento, como elaborar dinâmicas de sensibilização pode ajudá-los a estruturar o trabalho. Bom, acho que é isso... O que vocês acham? Beijos Lu ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: eac@escola2000.net Sent: Sunday, February 03, 2002 11:51 AM Subject: [escola2000] Sobre idearios e praticarios No chat, nós combinamos continuar a discussão, na lista, de algumas das questões levantadas. Deixei o sabado inteiro para que isso acontecesse. Como nao aconteceu, estou comecando a provocar... Lá no chat o Ney disse que a leitura do Ideário do Programa o comoveu - e perguntou o que a gente precisava / devia fazer para conseguir que ele, o ideário, comovesse o pessoal das escolas. Na minha resposta, eu disse que minha maior preocupação não era tanto com a emoção das pessoas (a Lu concordou comigo...). Em Faxinal, e, depois, em vários encontros regionais, e mesmo através de encontros pessoais (presenciais) e nas nossas listas, tenho visto muitas pessoas se emocionarem com idéias -- em especial, com as idéias que dão sustentação ao programa. Basta apresentá-las bem que as pessoas se emocionam. A capacidade de se emocionar com idéias é uma característica única do ser humano -- porque, afinal de contas, o ser humano é o único animal a lidar com idéias, e, portanto, com capacidade de se emocionar -- ou de se irritar! -- com elas. (Essa capacidade, embora potencialmente muito positiva, está também por detrás de fanatismos de diferentes espécies, inclusive religiosos. Mas não é nessa direção que desejo continuar). Minha maior preocupação no momento está em como transformar o ideário em "praticário". Pressupondo que a maior parte das pessoas com que vamos lidar, nas escolas, está de acordo quanto ao ideário, e mesmo se emocione com ele, como transformá-lo em prática pedagógica concreta? [Certamente não terá passado despercebido o fato de que o "praticário" nada mais é do que a nossa tão buscada "tecnologia social"]. Se não soubermos fazer isso, seremos meros "utopistas" (outro nome para "idearistas"), como bem ressaltou o diretor da Escola da Ponte. E de idearistas o mundo está cheio (o que, nem de longe, é mau). Precisamos, porém, saber transformar a nossa utopia (o nosso ideário) em prática pedagógica concreta (em praticário). O Rubem Alves, que também se emociona com essas idéias, acha que só criando uma escola nova, a partir do zero. Tentar transformar a velha, na opinião dele, não vai dar certo. Será? Se ele está certo, estamos perdendo tempo. Valeria mais a pena o IAS construir uma "escola modelo" e chamar o pessoal pra ver. O grande desafio é mudar os milhares de escolas que estão esparraramadas por aí. Dá para fazer? Como? Sugestões? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 5 Date: Wed, 06 Feb 2002 22:25:21 -0000 From: castorsilva2001@yahoo.com.br Subject: atrasado (ideario e praticario) Ola, Infelizmente as atividades da EAC coincidiram com o final da semana de planejamento da escola e o inicio do ano letivo – dois momentos cruciais. Somente hoje consegui um tempo razoavel para acessar o yahoo. No momento o placar do jogo é yahoo 4 x castor 0. Envergonhadamente, peço desculpas pelo atraso na participacao das discussoes, alias ricas e interessantes. Estou em casa e a conexao e´ horrivel – linha discada, via Mogi das Cruzes. Em outras palavras, de tempos em tempos a linha cai. A semana de planejamento do início do ano e´ um ritual cumprido em todas as escolas. Para que ele serve? A maioria dos professores dirá que para nada, pois os combinados durante a semana não se sustentam durante o ano. Talvez porque seja um momento "artificial", para cumprir tabela, ordens superiores, etc, não refletindo as necessidades e anseios da comunidade escolar. No entanto, acho que e um momento riquissimo que não pode ser desperdicado. E´ um dos poucos momento em que e possivel o encontro de docentes e não docentes – secretaria, bibliotecaria, pessoal da limpeza, porteiro, etc. Acho que a experiencia vivida nesse inicio de ano pode ilustrar o ideario e o praticario. Eis o que ocorreu. Há tempos temas como limite, (in)disciplina, respeito ao colega e a seus pertences, respeito aos professores e funcionários, tem sido alvo de discussões e reflexoes nas reunioes pedagogicas. Alem disso, o sumico de materiais e dinheiro dos alunos tem aumentado. Exemplos: dinheiro que some da mochila que estava na sala de aula; carteira que desaparece e que reaparece sem dinheiro. Para resolver a situacao sempre tentamos uma acao educativa e não policialesca. Mas não tem dado o resultado esperado. É claro que esta situação incomoda a todos: professores, funcionarios, alunos e pais. A partir dessa situacao, planejamos as atividades da semana de planejamento. Tinhamos algo a favor: um problema coletivo e a necessidade encontrar urgentemente caminhos para a sua solucao. Na realidade, vivenciamos uma semana de planejamento onde o assunto principal foi relacoes humanas. Conteudos e programas ficaram para segundo plano. Sem as relacoes claras, as regras definidas e divulgadas e o compromisso coletivo, os conteudos, os conceitos, as habilidades e as competencias de que tanto falamos e sonhamos não encontram solo fertil para germinar. Ou seja, se os adultos não se entendem, como podem trabalhar coletivamente com os alunos? E eles sacam rapidamente divergencias no corpo docente. E as aproveitam muito bem. São inteligentes. Pala segunda vez, todos os funcionarios administrativos participaram da semana de planejamento. Foi genial, pois percebemos que, depois de muito trabalho, eles se consideram educadores da escola (mais do que alguns professores). Pessoas, voces não imaginam o quanto um faxineiro pode contribuir para a educacao dos alunos e dos... professores. Pois e´! Durante a semana, deixamos muito bem claro (clarissimo) quais eram os objetivos da semana e o que as açoes ao longo do ano seriam planejadas e executadas coletivamente. Afinal de conta, acho que no nosso ramo de atividade faltam duas caracteristicas?/competencias? fundamentais: paciencia e metodo. Formamos grupos com igual numero de professores e funcionarios e os assuntos discutidos foram: a) quem e o nosso aluno, pois e com ele que trabalharemos; b) quem somos, pois somos os agentes do processo. Esta a atividade foi a mais rica. Pela primeira as relacoes entre professores e funcionariso foram passadas a limpo. Magoas, (des)respeito ao trabalho alheio, autoritarismo, desorganizacao, etc. foram tratados cruamente e sem anestesia. Foi excelente. De tempos em tempos limpar a área é fundamental; c) o que queremos e o que podemos. A partir dos dados levantados planejaremos o que faremos. A semana terminou com um churrasco preparado coletivamente. Se valeu a pena? Valeu demais. Acho que conseguimos contruir uma pinguela. Espero ter contribuido Castor ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 6 Date: Wed, 6 Feb 2002 23:04:29 -0200 From: "Adriana Portella" Subject: Uma das propostas do momento presencial Olá, pessoal! Cada vez mais nossa primeira EAC torna-se dinâmica e conta com o envolvimento da equipe! Comecei com a história das pontes e estou prometendo ao Ney que vai ter Hora do Conto de novo... Trarei a Galinha Ruiva, pode deixar! Só que hoje ela já foi dormir... Sabe aquela coisa de dormir com as galinhas, né? A única diferença é que ela não acorda muito cedo como as outras! Deve ser porque é ruiva! Brincadeira!!! O mail era sério... Vocês é que falam meia dúzia de abobrinhas e me fazem perder a linha... Ney e Rubem quando atacam... Agora que Bel & eu resolvemos fazer dobradinha... Só sai besteira! Mas agora é sério mesmo! Mesmo, mesmo, mesmo!!! :o) Na EAC temos transitado da teoria à prática... o caminho de volta... novas questões... outras experiências. Assim vocês vêm recheando as mensagens que têm circulado. Muitas percepções, alguns relatos de experiências... enfim. É isso aí! Nosso momento presencial não será uma semana desvinculada de todo esse percurso, que teve início nos primeiros avisos enviados aos participantes da lista. Ao contrário, ele pretende dar continuidade a alguns temas e, principalmente, chegar a produções da equipe: elaboração do PA coletivo, definição de instrumentos de avaliação e outros itens que serão detalhados brevemente. Um dos momentos do encontro presencial tem por objetivo uma troca de experiências entre os Orientadores. Até aí... nenhuma novidade, pois isso nós estamos fazendo e não é de hoje... Mas a proposta é um pouquinho diferente. Faremos a vivência de experiências bem-sucedidas dos Orientadores. Vocês estão livres para identificar algo que tenha sido trabalhado por vocês e que tenha surtido efeito positivo dentro de todo o processo vivenciado pelas escolas. Não estamos tratando de experiências desenvolvidas PELAS ESCOLAS, mas da AÇÃO DOS ORIENTADORES, ou seja, uma vivência que possamos experimentar em grupo, e que tenha a capacidade de trazer para todos nós exemplos de práticas dos Orientadores fundamentadas nos princípios do "Sua Escola". Imaginamos que cada Orientador terá de 30 a 40 minutos para desenvolver sua proposta. Nós mesmos (coordenação, consultores e demais orientadores) seremos os "atores" da experiência (melhor do que chamar de cobaia, não?), da "simulação" que pretende ser capaz de INFLUIR em outros orientadores, pretende ser um momento de troca. Ao final das 6 propostas teremos um bate-papo comentando a vivência, apontando experiências replicáveis, identificando adaptações, imaginando como agregar novas idéias a exemplos apresentados... Vocês têm liberdade de, dentro do tempo combinado, desenvolver a experiência que julgarem mais "especial", mais significativa, mais marcante... enfim... Se, por algum motivo, essa experiência não tiver acontecido EXATAMENTE daquela forma (por duzentos mil motivos que podem interferir na nossa proposta de trabalho na escola) não existiria inconveniente de que, durante o nosso encontro, vocês a apresentassem como gostariam que fosse... como um momento ideal... mesmo que, na escola, ele tenha acontecido parcialmente... ou com menos ênfase do que o imaginado. A data prevista para esta proposta é 20/02, no período da tarde. Será necessário indicar se há necessidade de algum material específico para que possamos providenciar a tempo. Estamos por aqui no caso de haver alguma dúvida, uma solicitação mais específica ou a necessidade de detalhar mais alguma coisa. Um abraço! Dri ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________