Celso Vallin - Texto 2



Os Quatro Pilares da Educação (*)

 

Celso Vallin

 

Neste anos venho escutando e lendo idéias como essas do artigo de Delors e Comissão (Unesco, 2000). por outros, e gostando, à medida em que se apresentam como uma resposta vivências e inconformações percebidas na prática escolar.

O texto daquela Comissão da UNESCO é sensacional. Dá a impressão de não deixar nada para ser dito depois dele. Tudo está muito bem colocado. Muito enxuto, objetivo e abrangente. Imperdível!

É muito interessante quando dizem que compete às escolas "encontrar e assinalar as referências que impeçam as pessoas de ficar submergidas nas ondas de informações, mais ou menos efêmeras, que invadem os espaços públicos e privados e as levem a orientar-se para projetos de desenvolvimento individuais e coletivos. " É preciso que se leve os alunos a elaborarem projetos individuais e coletivos, projetos que os ajudem a se desenvolver, projetos de aprendizagem, projetos pedagógicos.

A Comissão escreve: "Regra geral, o ensino formal orienta-se, essencialmente , se não exclusivamente, para o aprender a conhecer "...

O que chamam de ensino formal também pode ser chamado de escola tradicional. É, em geral, a escola que temos hoje e que tivemos nos últimos 100 anos, ou mais. Muitas vezes a coisa é ainda pior do que se diz ali. Muita gente sai da escola sem saber nem aprender sozinho (o aprender a conhecer!) Aprendem algumas coisas, mas aprendem a "comer na mão de quem ensina" ao invés de desenvolverem autonomia de estudo e diálogo. Mesmo entre os professores e pessoas da equipe diretora, QUANTOS (?) se atualizam constantemente e por conta própria? E quantos, contrariamente, se comportam como consumidores de conhecimentos, querendo sempre novas capacitações e se limitando a repetir o que for explicado nelas? Aprender a conhecer exige de todos (professores e alunos), que também saibam experimentar. Não se pode querer somente que as pessoas saibam aprender lendo e seguindo instruções. É necessário saber experimentar e saber concluir por conta das próprias observações e experimentações. É preciso saber dialogar a respeito de experimentações e compartilhar tudo com os colegas. Pensar junto e trocar idéias. Dar e receber.

Quando é dito que se deseja que a criança "possa ter acesso de forma adequada , às metodologias científicas " deve-se perceber que a criança, antes de entrar na escola, já consegue aprender por conta própria. Basta então que se consiga fazer com que a metodologia científica seja uma construção que parta das próprias estratégias de experimentação que a criança tinha, e que vá se incorporando a elas, e não que seja algo teórico, em forma de reprodução ou repetição, como uma poesia recitada. Mais adiante, é dito que a experimentação é importante, quando se fala em combinar "ensino com investigação".

Mais alguns trechos interessantes:

"Todos os especialistas concordam em que a memória deve ser treinada desde a infância , e que é errado suprimir da prática escolar certos exercícios tradicionais, considerados como fastidiosos." (trabalhosos)

"O exercício do pensamento deve comportar avanços e recuos entre o concreto e o abstrato" (articulação constante entre teoria e prática)

Fala-se que "A opinião pública, através dos meios de comunicação social, torna-se observadora impotente e até refém dos que criam ou mantém os conflitos."

"Por outro lado, o clima geral de concorrências que caracteriza, atualmente, a atividade econômica no interior de cada país, e sobretudo no nível internacional, tem tendência a dar prioridade ao espírito de competição e ao sucesso individual. "

"O confronto através do diálogo e da troca de razões é um dos instrumentos indispensáveis à educação do século XXI.”

"A educação formal deve, pois, reservar tempo e ocasiões suficientes nos programas para iniciar os jovens em projetos de cooperação, logo desde a infância, no campo das atividades desportivas e culturais, evidentemente, mas também estimulando a sua participação em atividades sociais , renovação de bairros, ajuda aos mais desfavorecidos, ações humanitárias, serviços de solidariedade entre gerações... As outras organizações educativas e associações devem, neste campo, continuar o trabalho iniciado pela escola. Por outro lado, na prática letiva diária, a participação de professores e de alunos em projetos comuns, pode dar origem à aprendizagem de métodos de resolução de conflitos e constituir uma referência para vida futura dos alunos, enriquecendo a relação professor-aluno."

Voltando aos quatro pilares, algumas observações podem ajudar a entende-los.


1- Aprender a conhecer (ou aprender a aprender englobaria muitas coisas)

Aprender a ler, mas ler de tudo, as mais diversas linguagens: coloquial, formal, erudita, poética, musical, inglês, linguagem matemática, mapas de diversos tipos, imagens de satélites, manuais, programas de televisão, rádio, teatro, fotografia, pinturas...

Aprender a procurar (e encontrar) informações que se façam necessárias diante de uma situação-problema. Procurar na internet, procurar nas bibliotecas, entre amigos, escrevendo cartas, assinando Grupos de Diálogo, assistindo TV...

Aprender a observar a natureza e a fazer manipulações (experiências), tirando delas as informações desejadas e necessárias na prática questionadora.

Aprender a escutar e a entender a partir de diálogos verbais.

Aprender a “ler nas entrelinhas”, das safadezas e das complexidades das pessoas coisas e textos.

Aprender a selecionar o que for mais útil na situação prática do momento, jogando fora o que não prestar ou valorizando o que se encontrou, organizando guardando, recuperando...

Aprender a estudar sozinho, mas também em comunhão. É importante observar que o trabalho de leitura, estudo e pesquisa individual são necessários para que o trabalho em conjunto funcione.

Duas pessoas olham uma mesma coisa e vêm diferentemente. Cada uma tem a sua leitura de mundo. Conhecer, aqui, significa conhecer as pessoas e as coisas de maneira conseguir uma vida melhor, individual e coletivamente. Significa fazer uma leitura prática, ética e cidadã, democrática e dialogal da realidade e da vida.


2-Aprender a fazer

Fazer o que? No primeiro pilar tudo está relacionado com a leitura de mundo. Ler, num sentido amplo. Não se consegue aprender a ler com essa amplitude sem que se escreva. Escrever no sentido de serem criadas expressões pessoais, nas mais diversas linguagens: coloquial, formal, erudita, poética, musical, inglês, linguagem matemática, mapas de diversos tipos, imagens de satélites, manuais, programas de televisão, rádio, teatro, fotografia, pinturas... Para cada linguagem, pode-se e deve-se exercitar e ampliar as capacidades de leitura e de escrita (expressão pessoal) paralelamente. Para que se consiga um cidadão crítico e propositivo é preciso que ele faça, enquanto observa.

Neste mundo cada vez mais auxiliado por máquinas, ou, como diz Costa (2000) - “cada vez mais cognitivo”, a escola precisa trabalhar (ler e escrever no sentido amplo) cada vez mais em sintonia com as novas tecnologias. Por outro lado, não se pode desconsiderar o Brasil e o atraso tecnológico em que se encontra a maior parte dos alunos de escolas públicas.

O texto de Delors faz uma análise das competências e habilidades mais necessárias no mundo do trabalho, tanto para economias mais industriais como para o caso dos trabalhadores informais e independentes.

"As tarefas puramente físicas são substituídas por tarefas de produção mais intelectuais, mais mentais, como o comando das máquinas, a sua manutenção e vigilância, ou por tarefas de concepção, de estudo , de organização, à medida que as máquinas se tornam, também, mais “inteligentes “ e que o trabalho se “ desmaterializa”."

"Qualidades como a capacidade de comunicar, de trabalhar com os outros, de gerir e de resolver conflitos, tornam-se cada vez mais importantes."

"Em muitos países da África subsaariana e em alguns países da América Latina (é nóis na fita! :-)) e da Ásia, efetivamente, só uma pequena parte da população tem emprego e recebe salário, pois a grande maioria participa na economia tradicional de subsistência. "

"...competências específicas de inovação e criação ligadas ao contexto local."

No Brasil coexistem em quase todas as cidades as economias: “a industrial onde domina o trabalho assalariado” e “outras, onde domina o trabalho independente ou informal”, além de se conviver com grande número de desocupados ou temporariamente ocupados. Assim, deve-se transitar o tempo todo entre as maneiras de ser e de viver de nosso povo e as maneiras mais complexas e atuais de organização, produção, expressão... naturais das novas tecnologias, mantendo sempre um diálogo com o aluno, e respeitando seus regionalismos e história.

Fazer aqui tem o sentido de usar na prática tudo o que se procura conhecer. É importante repetir aqui as palavras de Costa (2000) - “Mais do que acumular uma carga cada vez mais pesada de conhecimentos, o importante agora é estar apto para aproveitar, do começo ao fim da vida, as oportunidades de aprofundar e enriquecer esses primeiros conhecimentos num mundo em permanente e acelerada mudança.”


3- Aprender a conviver

Este item, parece mais evidente ou melhor especificado no próprio artigo. Grifos para “não à violência”; “não ao clima de concorrência, ao espírito de competição e ao sucesso individual”; “convivência igualitária entre alunos pertencentes a diferentes grupos, que se rivalizem fora da escola”; “descoberta progressiva do outro”; “participação em projetos comuns”; “tomar consciência das semelhanças e da interdependência entre todos os seres humanos do planeta”; “a descoberta de si mesmo”.

No Brasil muitas realidades e muitos tipos de exclusão estão presentes. Em relação a índios, portadores de deficiências de vários tipos, mas o grande e mais presente preconceito é acontece entre pobres e ricos, incluindo nessa problemática a exclusão do negros e mulatos. Em algumas escolas o apartheid econômico acontece do lado de dentro, em geral nas cidades menores. Nas cidades maiores, os mais ricos costumam ficar em escolas diferentes e freqüentar lugares e horários também diferentes. Como exemplo de apartheid interno, pode ser citada a seleção de alunos e professores entre os períodos da tarde e da manhã em escolas estaduais na região do Pontal do Paranapanema. Como exemplo de apartheid externo à escola, pode ser citada a situação de conflito que se instala nas cidades litorâneas, em época de veraneio, entre os adolescentes locais e os que só usam a cidade durante as férias, ou, no caso da cidade de São Paulo, os que freqüentam as escolas públicas e os das escolas particulares. Para colocar em prática as recomendações do artigo da Unesco, seria necessário o desenvolvimento de projetos que envolvessem conjuntamente alunos desses segmentos antagônicos. Um grande desafio!


4- Aprender a ser

Destaque especial para a frase: “deve ser dada importância especial à criatividade, sendo claras manifestações da liberdade humana, elas podem vir a ser ameaçadas por uma certa estandardização dos comportamentos individuais.” E “Convém, pois, oferecer às crianças e aos jovens todas as ocasiões possíveis de descoberta e experimentação - estética, artística, desportiva, científica, cultural e social”.

Em especial, o uso de manifestações artísticas como produto de projetos coletivos desenvolvidos com os alunos pode ajudar muito que cada um consiga SER. Arte se lê e se escreve é o que afirmo em meu artigo (Celso Vallin, Educação, arte e vida, em anexo, 2002) e neste mundo dominado “pela imagem televisiva” (Delors) é necessário que se trabalhe com a arte como sendo um conceito maior, que inclua até a criação de programas cine-áudio-visuais. Neste ponto como complemento a minhas idéias relativas ao aprender a ser, remeto o leitor a minhas idéias no referido artigo.

 

Celso Vallin

 

(*) Este texto foi submetido pelo seu autor no lugar da resposta ao Primeiro Conjunto de Questões Desafiadoras.