Luciana Salgado - Texto 2



Segundo Conjunto de Questões Desafiadoras
[Três Questões]

 

Assunto Básico: Escola, Currículo, Ensinar e Aprender
(Segundo e Terceiro Princípio)

 

Luciana Salgado

 

1) Considere a seguinte passagem de Rubem Alves (a ênfase por negrito e sublinhado foi acrescentada, e foram feitas pequenas modificações no texto, substituindo uma ou outra palavra, com indicação por colchetes, e invertendo a ordem das passagens), e responda as perguntas abaixo:

“Como são e têm sido as escolas? Que nos diz a memória? A imagem: uma casa, várias salas, crianças separadas em grupos chamados ‘turmas’. Nas salas os professores ensinam saberes. Toca uma campainha. Terminou o tempo aula. Os professores saem. Outros entram. Começa uma nova aula. Novos saberes são ensinados. O que os professores estão fazendo? Estão cumprindo um ‘programa’. ‘Programa’ é um cardápio de saberes organizados em seqüência lógica, estabelecido por uma autoridade superior invisível, que nunca está com as crianças. Os saberes do cardápio ‘programa’ não são ‘respostas’ às perguntas que as crianças têm. Por isso as crianças não entendem por que têm de aprender o que lhes está sendo ensinado. . . . A [criança] tem uma precisa filosofia de aprendizagem: [ela] aprende os saberes que [a] ajudam a resolver os problemas com que está se defrontando. Os programas são uma violência que se faz com o jeito que [a criança] tem de aprender. Não admira que as crianças e os adolescentes se revoltem contra aquilo que os programas os obrigam a aprender. Ainda ontem uma amiga me contava que sua filha, de dez anos, dizia-lhe: ‘Mãe, por que tenho de ir à escola? As coisas que tenho de aprender não servem para nada’. . . . A menina sabia mais que aqueles que fizeram os programas. . . . A inteligência é essencialmente prática. Está a serviço da vida. . . . A memória é um escorredor de macarrão. O escorredor de macarrão existe para deixar passar o que não vai ser usado: passa a água, fica o macarrão. Essa é a razão por que os estudantes esquecem logo o que são forçados a estudar. Não por falta de memória. Mas porque sua memória funciona bem: não sei para o que serve; deixo passar... . . . Programa cumprido não é programa aprendido - mesmo que os alunos tenham passado nos exames. Os exames são feitos quando a água ainda não acabou de se escoar pelo escorredor de macarrão. Esse o destino [de tudo aquilo] que não é aprendid[o] a partir da experiência: o esquecimento. [Mas aquilo] que se aprende a partir da vida, . . . não é esquecid[o] nunca. A vida é o único programa que merece ser seguido. . . . Disse, numa outra crônica, que quero escola retrógrada. Retrógrada quer dizer ‘que vai para trás’. Quero uma escola que vá mais para trás dos ‘programas’ científica e abstratamente elaborados e impostos. . . . Uma escola em que o saber vá nascendo das perguntas que [a criança] faz. Uma escola em que o ponto de referência não seja o programa oficial a ser cumprido (inutilmente!), mas . . . a criança que vive, admira, encanta-se, espanta-se, pergunta, enfia o dedo, prova com a boca, erra, machuca-se, brinca.”

A) Se a educação tem, fundamentalmente, que ver com o desenvolvimento de competências para a vida, e a escola é a instituição criada com o objetivo único de educar, como explicar o fato de que ela se tornou tão divorciada da vida, que haja, nas palavras de Hugo Assmann, esse divórcio entre os “processos cognitivos” que se espera aconteçam na escola (aprendizagem) e os “processos vitais” (a vida, a experiência da criança)?

Vou responder esta questão tentando fazer uma breve retrospectiva da história da educação [informações retiradas do livro “Cuidado, Escola: desigualdade, domesticação e algumas saídas”, apresentado por Paulo Freire, 2000]. Antigamente as sociedades eram formadas sem escolas, o que acontece ainda em alguns lugares de nosso planeta, como por exemplo, em algumas tribos indígenas onde educar é viver a vida no dia-a-dia da comunidade, desenvolver atividades para a sobrevivência (como caçar e pescar), escutar a experiência dos mais velhos e conviver em grupo. Nessa realidade, a prática educativa consiste em desenvolver competências e habilidades para participar dessas tarefas, como por exemplo, construir instrumentos para caçar, interiorizar valores e comportamentos culturais e o meio ambiente é o ambiente de formação, não havendo professores. Todo adulto ensina a partir de sua própria experiência e da experiência dos outros. Aprende-se o saber, a vida e o trabalho.

Na Idade Média, na Europa, uma nova forma de educação começou a se estruturar, gerando o produto escola, onde um conjunto de pessoas especializou-se na transmissão do saber. A atividade de ensinar passou então a desenvolver-se em espaços específicos, cuidadosamente isolados e sem qualquer relação com a vida de todo dia. A escola, durante séculos, foi reservada à elite e o restante da população aprendia na prática do dia-a-dia. Essa escola cultuava o passado: atribuía importância central à moral e à religião, ao domínio da palavra e do saber abstrato. O conhecimento científico, portador de mudanças, era menos importante do que o espírito contemplativo e o latim, símbolos da tradição a preservar, num mundo que considerava-se imune à transformação. A cultura era totalmente livresca, refinada e letrada. Nesta época, educar-se era sinônimo de aprender a pensar e a comportar-se como “grandes senhores”.

Com o desenvolvimento de recursos tecnológicos e a utilização de novas fontes de energia, novas classes sociais emergiram, dentre elas a burguesia industrial, responsável pelo progresso técnico e a classe operária, de mão-de-obra pobre e desqualificada. Nesta época, a escola ainda era reservada à elite, mas o desenvolvimento industrial exigiu um maior número de técnicos e cientistas, o que levou a uma mudança radical nos conteúdos da escola. As disciplinas científicas tornaram-se importantes ao lado de antigos conteúdos clássicos e literários. A burguesia também notou a necessidade de um mínimo de instrução para a massa trabalhadora que se aglomerava nos grandes centros industriais. Os “ignorantes” deveriam socializar-se, ou seja, deveriam ser “educados” para tornarem-se bons cidadãos e trabalhadores disciplinados. Com isso, paralelamente a escola dos ricos, surgiu a escola dos pobres. Sua função era dar aos operários o mínimo de cultura necessária à sua integração por baixo na sociedade industrial. As crianças do povo faziam a escola primária e as da elite tinham acesso garantido no nível superior, monopólio da burguesia.

Com o tempo, os operários começaram a reivindicar um melhor acesso à educação, cultura e a lutar pelos seus direitos. O ensino público e gratuito passou a ser visto como a melhor forma de alcançar uma verdadeira democratização dos estudos e aos poucos isso foi sendo conquistado não só a nível primário, mas também em níveis superiores da escola. Os alunos começaram a ser integrados. Desaparece a divisão de escolas e era apenas ao término de um tronco comum que ia-se dar a SELEÇÃO (através de notas) onde uma minoria ia continuar seus estudos até chegar a universidade e a maioria fazia cursos mais curtos e menos valorizados.

B) Como explicar, e como tem sido justificado ao longo do tempo, o fato de que a escola acabou por se tornar um lugar em que se apresentam (transmitem) às crianças informações e conhecimentos (“saberes”, no jargão atual), organizados de forma estanque em disciplinas, hierarquizadas em séries, dispensadas em doses homeopáticas (aulas), ministradas em espaços que podem ser alcançados pela voz humana desassistida (salas de aula), a alunos homogeneizados por idade (turmas)? O currículo atual é alguma coisa além disso, ou em vez disso? Como desaprender essa herança histórica e cultural?

O acesso mais democrático à escola, fez com que aumentasse o número de alunos o que levou os especialistas em educação a acreditarem na necessidade de organização dos alunos por salas, com idades próximas e o conteúdo esquematizado de acordo com o que acreditava-se ser indicado para cada faixa etária. Não imaginava-se que a criança poderia aprender de acordo com seus interesses. A pedagogia viveu diversas fases, desde então. Na primeira fase que se configurou até a década de 30, o professor era considerado detentor do saber e deveria dominar os conteúdos fundamentais a serem transmitidos para os alunos. Neste contexto, a aula expositiva era considerada como a técnica mais adequada à transmissão de conhecimento na sala de aula. Com apresentado por Lopes (Técnicas de ensino: por quê não?; 1986). Essa forma de organização, chamada de ensino tradicional legou um caráter verbalista, autoritário e inibidor da participação do aluno, aspectos esses transferidos para aula expositiva, considerada como técnica de ensino padrão da pedagogia tradicional. A partir de críticas severas à pedagogia tradicional, surgiu uma nova pedagogia, chamada de “pedagogia nova”, fixada na reversão do processo de ensino, no qual o aluno e não mais o professor, passou a ser o centro do processo, gerando novas técnicas de ensino que levaram ao abandono da aula expositiva. Para contrapor a pedagogia nova, surge a chamada “pedagogia tecnicista”, fundamentada nos princípios da racionalidade, eficiência e produtividade, veiculados a partir da década de 70. Nessa concepção as técnicas de ensino são analisadas sob a ótica do enfoque sistêmico, valorizando as atividades que promoviam o parcelamento do trabalho pedagógico, como a instrução programada, os módulos de ensino e o estudo por intermédio de fichas. À aula expositiva foi transmitida uma nova conotação, traduzidas por determinadas habilidades técnicas a serem desenvolvidas pelo professor. Quem não se lembra do Objetivo, aqui em São Paulo? Apostilas padronizadas com conteúdos em tópicos e listas de exercícios, salas com grande número de alunos (auditório), professor isolado em cima de um palco, provas de múltipla escolha.

Esta pedagogia predominou até o final da década de 70, quando surgem críticas à política educacional que supervalorizava a técnica em detrimento ao humanismo. Surge a “pedagogia crítica” (década de 80) enfatizando as questões didáticas relacionadas à relação intrínseca entre a escola e a realidade social. A aula expositiva, assim como as demais técnicas de ensino, passa a ser considerada como um meio para a reelaboração dos conteúdos transmitidos na escola.

Hoje, apesar das propostas de mudança que são apresentadas na LDB e nos PCN´s, ainda encontramos a adoção de aulas expositivas com características predominantemente tradicionais, ou seja, a prática pertence ao professor e aos alunos resta a passividade. Acredito que essa situação seja decorrente das contradições existentes entre a formação teórica do professor e as situações de trabalho que ele encontra (regras da escola, recursos, tempo, cultura dos pais, número de alunos por sala, etc).

O problema é que o desenvolvimento dos meios de comunicação e informação, ligados a dois componentes básicos: computador e internet, não viabilizam mais esse tipo de educação. Hoje, a diversidade de informações e recursos tecnológicos, as quais os alunos estão expostos no seu dia-a-dia, faz com que muitas vezes, eles tenham mais informações sobre um determinado tema do que o professor. O currículo, na maioria das escolas, até tem privilegiado assuntos relacionados à realidade do aluno, mas que são abordados de uma forma homogênea, ignorando interesses individuais. A ênfase ainda é na transmissão de conteúdos para preparar para o vestibular e o desenvolvimento de competências e habilidades é deixado em 2º plano, assim como o interesse dos alunos.

Acredito ser possível um desaprender destas técnicas e seleção de conteúdos. Mas, é necessário uma melhor formação dos professores, com apresentação de teorias e práticas relacionadas a essa proposta educacional que acreditamos, melhores condições de trabalho que permitam o encontro com seus pares para planejamento e troca de idéias, reestruturação dos espaços físicos da escola e um trabalho para desenvolver a auto-estima e melhorar as relações humanas entre os diferentes componentes que fazem parte da comunidade escolar, incluindo os pais.

Percebo que todos querem ter a escola dos sonhos de Frei Betto. O que é preciso é mostrar para eles que é viável, por meio de pequenas ações, como nos mostra o texto “Vestido Azul”.

C) Como construir um currículo escolar que organize as competências e habilidades que as crianças precisam desenvolver para “viver suas vidas, tanto no plano individual (privado) como no social (público), de forma livre e responsável, autônoma e solidária, competente e produtiva”, que mantenha um vínculo estreito com os “processos vitais” e, portanto, com os interesses (que certamente não são disciplinares) das crianças, que não as segmente no tempo e no espaço, que lhes permita agruparem-se em função dos seus interesses (dos projetos que estão desenvolvendo) e não em função de sua idade, e que permita e facilite um aprendizado ativo e colaborativo por parte das crianças?

Quando penso em currículo (hipótese) penso em conteúdos, com isso se penso em construir um novo currículo, penso que tenho que determinar novos conteúdos. Desta forma, não estarei construindo uma nova educação, pois continuarei ignorando o interesse dos alunos. A estrutura de trabalho deve privilegiar, em primeiro lugar, o interesse do aluno, seu histórico de vida e suas necessidades de sobrevivência que pode ser feito através de um diagnóstico junto aos alunos, individual ou em grupo em uma entrevista inicial. Nesse momento, pode-se extrair suas necessidades e detectar os temas, que irão direcionar as atividades embasadas nos quatro pilares propostos por Delors e no desenvolvimento das competências e habilidades, incluindo a mais recente, apresentada por Toro: criar no estudante uma mentalidade internacional.

D) Você acredita que seja possível definir competências e habilidades básicas (aquelas que todo ser humano deve oportunamente dominar e que se distinguem, portanto, de competências e habilidades especializadas), como a fala, a leitura e a escrita, o cálculo numérico (não no sentido técnico), a negociação, a resolução de conflitos, a administração do tempo, a busca, análise, aplicação e disseminação de informações, etc. e que seja viável tentar hierarquizá-las, indicando quais devem ser desenvolvidas primeiro, coisas assim?

Eu acho que é possível definir as tais das competências e habilidades básicas mínimas que devem ser trabalhadas em cada etapa da educação escolar de forma a orientar o trabalho do professor. Mas, de maneira nenhuma acho que ela deva ser hierarquizada ou vetada de ser trabalhada naquele ciclo por não ser “objetivo do ciclo”. Exemplo: Pode-se definir que em matemática, na educação infantil, o aluno tenha que ter competência para resolver problemas que envolvam as quatro operações básicas. Mas, se no seu trabalho de pesquisa, surgir à necessidade de fazer uma pesquisa de opinião e com isso, ter que tabular dados, gerar gráficos e analisá-los na forma de porcentagem, nada deve impedir que ele adquira as habilidades para desenvolver a competência de leitura e interpretação de gráficos.

E) Você acredita que os conteúdos disciplinares que hoje formam a essência do currículo possam ser “transversalizados”, só entrando nos projetos dos alunos à medida que forem sendo percebidos como necessários para a execução dos projetos?

Existe um aspecto, que é a construção que o aluno faz, individual, entendido da seguinte forma: a aprendizagem é sempre uma ação interna. É o aluno que vai interpretar e construir um conhecimento, integrá-lo aqueles que ele já possui e fazer relações entre as coisas. Por outro lado, os conhecimentos são produtos construídos, na maioria das vezes coletivamente, direta ou indiretamente, relacionados à vida em grupo onde seus elementos interagem compartilhando experiências comuns ou diferentes. Neste processo, o professor também trás alguns conhecimentos, mas também deve buscar saber, procurar, aprender junto com os alunos.

Um aluno pergunta, por exemplo: O que é desenvolvimento sustentável que eu ouvi falar na tv ontem?

O professor pode perguntar ao grupo de trabalho o que eles sabem em relação ao tema, apresentar também o que sabe e convidar os alunos a saberem mais. Dessa interação vão resultar conhecimentos diferenciados, numa amplitude e profundidade cada vez maior. Pode ser que muitos dos conteúdos previstos hoje no currículo não sejam privilegiados em nenhum momento da vida escolar deste grupo. Mas, se não forem é porquê até aquele momento ele não teve significado para aquele grupo o que não impede que tenha para outro. Com isso, acredito que os conteúdos disciplinares que formam a essência do currículo hoje podem ser transversalizados, mas não podemos garantir que sejam trabalhados e nem eu o desejo.

E o professor neste processo? Segundo Sathya Sai Baba...

“O professor planta as sementes da virtude, sabedoria e fé no coração. É como o agricultor que planta mudas no solo bem-preparado do campo. (...) Cuida incessantemente para que os brotos cresçam vigorosos, e está sempre atento para regar as lavouras que crescem e também alimenta-as com fertilizantes nas etapas adequadas de seu crescimento.”

F) Deixando a educação de lado, você acredita que a ciência continuará dividida em disciplinas por muito tempo ainda?

Acredito. Os PCN´s trazem uma nova visão, mas que ainda está muito longe de uma mudança efetiva. A diferença entre os PCN´s e sistemas anteriores é que, nos PCN´s, as disciplinas foram agrupadas em três novas áreas do conhecimento, diferentes da divisão de áreas apresentada anteriormente, mas dentro de cada uma destas áreas, encontramos a divisão das disciplinas, inclusive apresentando a informática como um dos tópicos. Apesar de que a inclusão da informática é justificada como sendo porquê ela nos trás uma nova linguagem e, bem timidamente nas entrelinhas, aparece que ela não deve ser tratada como uma disciplina, mas uma ferramenta a serviço das demais. Se os parâmetros e as leis estão estruturados desta forma, dificilmente a mudança irá acontecer tão cedo.


2) Considere as seguintes afirmações, respectivamente de Galileu Galilei, B. F. Skinner, Carl Rogers, e Ivan Illich, e responda as questões abaixo:

· "Não é possível ensinar nada a ninguém; somente é possível ajudar alguém a descobrir alguma coisa dentro de si próprio." [Galileu]

· "Os alunos aprendem sem que haja ensino. O ensino não cria a aprendizagem, nem mesmo a estimula. Ensinar é de tal modo arranjar certas condições de modo que o aprendizado exigido seja realizado mais rapidamente." [Skinner]

· "Parece-me que qualquer coisa que possa ser ensinada a outrem seja, sempre, sem maior importância. ... Quando tento ensinar -- e às vezes tento -- fico desanimado com os resultados. ... Às vezes meu ensino parece ser bem-sucedido. Quando isto acontece, porém, verifico que os resultados são maléficos. O ensino parece levar o indivíduo a desconfiar de sua própria experiência e vem impedir uma aprendizagem significativa. Portanto, cheguei à conclusão de que os resultados do ensino são ou sem maior importância ou maléficos." [Rogers]

"A segunda ilusão em que se baseia o sistema escolar é a de que a maior parte da aprendizagem seja o resultado do ensino. O ensino, é verdade, pode contribuir para certos tipos de aprendizado, em certas circunstâncias. Mas a maior parte das pessoas obtém a maior parte de seu conhecimento fora da escola, ou na escola somente à medida que a escola, em uns poucos países ricos, tornou-se uma espécie de casa de detenção onde indivíduos estão ficando retidos por períodos cada vez maiores de sua vida." [Illich]

A) Você acha que o ensino, como comumente entendidos, têm lugar no tipo de educação que vimos discutindo? Ou vale a pena tentar redefinir o ensino “facilitação da aprendizagem”?

Não sei se “facilitação da aprendizagem” seja a melhor conceituação. Quem sabe “idéias para organização de ações que levem ao aprendizado”. Vamos ver se consigo me explicar. Vamos supor que um grupo de alunos mostrou interesse nas relações existentes entre o capitalismo e problemas relacionados à degradação do meio ambiente. O professor pode sentar junto com o grupo, envolve-los numa discussão para levantar as possíveis dúvidas sobre o tema, ajudá-los a elaborar um plano de ação para coleta de informações (possíveis fontes de pesquisa), orientar na seleção do material pertinente, organização das informações, na transformação em um material de divulgação, encaminhamento de novas pesquisas, conclusões, etc. Com isso, o ensino é visto como idéias para organização de ações que levem ao aprendizado.

B) O “Sua Escola” fala em “novas formas de ensinar e aprender”. Seria esse nova forma de ensinar o facilitar a aprendizagem? Ou o “Sua Escola” está propugnando por uma aprendizagem colaborativa, que envolve o professor mas não é conseqüência direta de sua ação, sendo muito mais, como diz Galileu, alguma coisa que é descoberta dentro de si próprio?

Analisando trecho do texto do Eduardo “Gera a escola expectativas que ela não pode cumprir” - A única educação que tem condições de satisfazer as expectativas que a sociedade tem em relação à educação é a que leva ao desenvolvimento, pelos alunos, de competências e habilidades que possam lhes servir em qualquer contexto e ter valor permanente - especialmente a habilidade de aprender a aprender, para que possam aprender sempre - cujo currículo é centrado na análise e na tentativa de solucionar problemas concretos, relacionados com a vida diária dos alunos. Ou seja, uma educação orientada para o desenvolvimento de competências, baseada em um currículo centrado em problemas. - Com isso, vejo que o “Sua Escola” está propugnando por uma aprendizagem colaborativa, que envolve o professor, mas que é ação direta da sua ação no trabalho de orientação das idéias para organização de ações que levem ao aprendizado.

C) O que entendemos por “ensino” está bem resumido por Skinner quando ele diz que “ensinar é de tal modo arranjar certas condições de modo que o aprendizado exigido seja realizado mais rapidamente"?

Não. Acho que ensinar é de tal modo arranjar certas condições de modo que o aprendizado “sugerido pelo aluno” seja realizado “de forma mais prazerosa”

D) O que você acha da afirmação de Roger de que o resultado do ensino ou é insignificante ou é maléfico? Como estaria ele concebendo o ensino para fazer essa afirmação?

Acho que ele está concebendo o ensino como uma transmissão de saberes pelo professor, ignorando a decisão dos alunos quanto aos critérios de julgamento de relevância em relação a determinado contexto, os valores que motivam o comportamento e a atividade humana deles, que mantém a auto-confiança e a objetividade.


3) Considere a seguinte famosa citação de John Holt e esta outra passagem “composta” de Rubem Alves e responda as perguntas abaixo:

"Se ensinássemos crianças a falar, elas nunca aprenderiam." [Holt]

“Sei que vocês devem estar incrédulos. Como é possível uma escola assim, [sem salas], sem turmas, sem professores e aulas de português, geografia, ciências, história, em lugares e horas determinados, de acordo com um programa, . . . com testes e conceitos ao final? Será que as crianças aprendem? Respondo fazendo uma pergunta: qual a coisa mais difícil de ser ensinada, mais difícil de ser aprendida, quem ensina não sabe que está ensinando, quem aprende não sabe que está aprendendo, e, ao final, a aprendizagem acontece sempre? É a linguagem. Não existe nada, absolutamente nada, que se compare à linguagem em complexidade. No entanto, sem que haja qualquer ensino formal, sem que os que ensinam a falar - pai, mãe, tio, avô, irmãos - tenham tido aulas teóricas sobre a formação da linguagem, as crianças aprendem a falar. Imaginem que o ensino da linguagem [fala] se desse em escolas., segundo os moldes de linha de montagem que conhecemos: aulas de substantivos, aulas de adjetivos, aulas de verbos, aulas de sintaxe, aulas de pronúncia. O que aconteceria? As crianças não aprenderiam a falar. Por que a aprendizagem da linguagem é tão perfeita, sendo tão informal e tão sem ordem certa? Porque ela vai acontecendo seguindo a experiência vital da criança: o falar vai colado à experiência que está acontecendo no presente. Somente aquilo que é vital é aprendido. Por que é que, a despeito de toda pedagogia, as crianças têm dificuldades em aprender nas escolas? Porque nas escolas o ensinado não vai colado à vida. Isso explica o desinteresse dos alunos pela escola. . . . . Explica também a indisciplina. Por que haveria uma criança de disciplinar-se, se aquilo que ela tem de aprender não é aquilo que [ela] deseja saber? E explica também a preguiça. . . . Segundo [Roland Barthes], há dois tipos de preguiça. Um deles, abençoado, é a preguiça de quem está deitado na rede de barriga cheia. Não quer fazer nada porque na rede está muito bom. O outro tipo é a preguiça infeliz, ligado inseparavelmente à escola. O aluno se arrasta sobre a lição de casa. Não quer fazê-la. A vida o está chamando numa outra direção mais alegre. Mas ele não tem alternativas. É obrigado a fazer a lição. Por isso ele se arrasta em sofrimento. . . . Nunca vi criança questionar a aprendizagem do falar. Uma criancinha de oito meses já está doidinha para aprender a falar. Ela vê os grandes falando entre si, falando com ela, sente que falar é uma coisa divertida e útil, e logo começa a ensaiar a fala, por conta própria. Faz de conta que está falando. Balbucia. Brinca com os sons. E quando consegue falar a primeira palavra, sente a alegria dos que a cercam. E vai aprendendo, sem que ninguém lhe diga que ela tem de aprender a falar e sem que o misterioso processo de ensino e aprendizagem da fala esteja submetido a um programa estabelecido por autoridades invisíveis. Ela aprende a falar porque o falar é a parte da vida.”

A) Você concorda com Rubem Alves quando ele coloca o aprendizado da fala como o paradigma de todo aprendizado?

Sim. O processo de aprendizagem tem relação direta com características primitivas da realidade, formando quadros de combinações estruturadas dessas características a partir de estímulos do mundo real. As pessoas estão constantemente agindo em meio a influências avaliatórias e interpessoais que moldam e dirigem a sua atividade, tal qual a linguagem nos bebes. As pessoas também são agentes com interpretações e atos expressivos próprios que elas produzem a partir de contextos nos quais estão inseridas e dentro das quais todos vivemos, nos movemos e fazemos nossas vidas. Por isso, concordo com Rubem Alves, quando ele diz que a aprendizagem vai acontecendo seguindo a experiência vital da criança: o falar vai colado à experiência que está acontecendo no presente. Somente aquilo que é vital é aprendido.

B) Rubem Alves menciona que, no caso da fala, “quem ensina não sabe que está ensinando” e “quem aprende não sabe que está aprendendo”. Você acha isso possível: ensino inconsciente e aprendizagem inconsciente?

Acho. Quando examinamos os modos pelos quais a psicologia estuda os pensamentos e o pensar, as funções essenciais da mente, nós descobrimos que nos envolvemos em experimentos sobre o que chamamos de processos cognitivos. Esses têm a ver com os modos como os padrões e estímulos complexos são organizados e reconhecidos por uma pessoa, com os fatores que afetam a recordação de informações previamente aprendidas ou encontradas, com o entendimento da linguagem e com procedimentos que parecem estar envolvidos na solução de problemas por seres humanos, muitas delas espelhadas em idéias e comportamentos de indivíduos a nossa volta.

C) Qual o papel do exemplo (por parte dos já falantes) e da imitação (ainda que “macaquícia”) no aprendizado da fala? Esse papel pode se estender para outros tipos de aprendizado?

Respondida anteriormente.

D) É possível imaginar outros aprendizados importantes modelados pelo aprendizado da fala? O aprendizado da leitura, por exemplo? O aprendizado de uma segunda língua? O aprendizado da matemática? O aprendizado das ciências naturais? O aprendizado da filosofia?

Com certeza. Como dito por Butterworth (1993), a variável mais relevante para a espécie mamífera mais desenvolvida (e particularmente para os seres humanos) é a interligação entre diferentes indivíduos em atividade cooperativa mútua. Isto coloca grande peso sobre a comunicação e sobre os sinais usados na comunicação, para a formação da estrutura cognitiva.


Eduardo Chaves
Janeiro de 2002

Luciana Salgado
Fevereiro de 2002