Rubem Paulo Saldanha - Texto 3



Terceiro Conjunto de Questões Desafiadoras
[Sete Questões]

 

Assunto Básico: Protagonismo Juvenil, Outros Agentes Educacionais, Tecnologia)
(Quarto, Quinto e Sexto Princípio)

 

Rubem Paulo Saldanha

 

1. Considerando o binômio “heteronomia” e “autonomia” discutido por Antonio Carlos Gomes da Costa, explique por que esse autor fala em “protagonismo juvenil” (protagonismo do jovem adolescente) e não em “protagonismo infantil” (protagonismo da criança) ou “protagonismo adulto”.

É nesta fase da vida em que a pessoa começa a desenvolver-se para esses aspectos, anteriormente a isso ela ainda não está desenvolvida o suficiente para poder pensar com certa autonomia. Tudo o que se é depois de adulto começa a se desenvolver ainda na fase de adolescência.

2. O mesmo Antonio Carlos Gomes da Costa, que é um dos maiores defensores de uma educação que incorpore o protagonismo juvenil, afirma, em outro escrito, ser contrário às “pedagogias não diretivas”. Explique como você explicaria os conceitos de “protagonismo juvenil” e de “pedagogia não diretiva” de modo a fazer sentido da posição de Antonio Carlos Gomes da Costa.

Pelo que consegui descobrir da pedagogia não diretiva, ela pede que o jovem esteja sempre à frente das suas decisões, do planejamento das atividades, do levantamento de dúvidas e das suas soluções. No protagonismo juvenil, o jovem, apesar de ter autonomia, esta ainda está em formação, o que leva a necessidade de um tutor, professor ou alguém mais experiente para ir encaminhando as questões de acordo com que elas forem aparecendo.

3. Explique quais seriam, a seu ver, as diferenças e semelhanças entre os conceitos de “pedagogia construtivista”, “pedagogia protagonística” (estou inventando essa expressão agora, creio), “pedagogia não diretiva” e “pedagogia negativa (ou laissez faire)”. Com base no ideário do Sua Escola, como você caracterizaria, em termos desses rótulos, a pedagogia do programa?

Eu estava meio confuso sobre como caracterizar essas questões, pois não sabia se havia jeito de caracterizar o programa em alguma delas, uma vez que estamos sempre mudando, sempre revendo as práticas e coisas afins. Dei uma olhada nas respostas dos colegas, para tentar ter uma visão do que eles pensavam, e encontrei nas respostas da Bel algo que se encaixa com o que eu estava pensando: “Prefiro não caracterizar a pedagogia do Programa com nenhum desses rótulos. Acho que cada uma delas pode trazer alguns aspectos positivos e interessantes para que o Programa atinja seus objetivos”.

4. Parece inegável que, além do lar e da escola, muitas outras instituições da sociedade atual estão a assumir funções educativas: os locais de trabalho (em especial as grandes empresas), as associações profissionais (incluindo os sindicatos), os centros comunitários, os centros de cultura e lazer, as igrejas, órgãos governamentais de todos os níveis, instituições do terceiro setor, instituições internacionais, etc. Como você vê a relação entre a escola e essas instituições? De rivalidade e conflito ou de parceria? Se de parceria, como pode essa parceria se dar?

Está amadurecendo a idéia e as parcerias entre esses setores e a escola. A relação da escola com estas outras instituições deve ser de harmonia, procurando neles espaços para o desenvolvimento do protagonismo juvenil almejado, ou então procurando contribuir para que os alunos possam reconhecer esses diversos espaços que podem se constituir em “outras formas de escola”. O PSE é um exemplo de parceria desses. Através da procura pela tecnologia social, podemos ajudar a escola a se tornar cada vez mais próxima do aluno, oportunizando os espaços necessários para o seu desenvolvimento pleno.

5. Você acha que faz sentido a posição que o governo federal vem assumindo de negar a pais que assim se disponham o direito de educar seus filhos em casa, fora da escola, mesmo que os pais se disponham a apresentar seus filhos para fazer testes em escolas controladas pelo governo?

Os mecanismos de controle que hoje o governo adota não permitem que alunos possam ser educados sem que estejam na escola. Tenho dúvidas se esses filhos conseguirão fazer as provas provenientes da escola disseminadora de informações. É lógico que estou imaginando que os pais estariam dando uma educação mais voltada para o desenvolvimento de habilidades e competências, uma vez de se preocupariam (em tese) de repassar aos seus filhos uma educação mais voltada para a vida. Mas se os pais não tem essa capacidade de ensinar aos seus filhos com a participação dos próprios, deveriam deixar na escola mesmo, pois lá pelo menos eles irão ter uma convivência com colegas da mesma idade, e dessas amizades poderão sair bons aprendizados.

6. Você acha que aquilo que muitas empresas oferecem a seus funcionários ou empregados à guisa de treinamento, desenvolvimento profissional e pessoal, etc., qualifica como educação ou não passa de adestramento? (E, a propósito, adestramento tem ou não lugar na educação? Você é daqueles que acham que “Educação Física” deveria ser chamada de “Adestramento Físico”?)

Depende o tipo de enfoque do treinamento. Há treinamentos que são mais voltados para questões técnicas (um curso de uma linguagem de programação, por exemplo), e esse é mais um adestramento. Já outros (tipo os de convivência, aprenda a falar em público, etc...) podem se encaixar na categoria de educação que estamos tentando definir. Lógico que se a empresa pensar nesses cursos e incentiva os seus funcionários a estarem sempre aprendendo, esse posicionamento pode ser interpretado como o de uma empresa que incentiva os seus funcionários a aprender sempre. Vai depender do enfoque que for dado a esses treinamentos.

Sobre a Educação física, acho que ela deve ser bem mais do que simplesmente correr atrás de uma bola durante 50 minutos de aula. Conviver bem com o seu corpo, cuidados com a sua alimentação e saúde e a prática saudável e regular de exercícios deve ser sempre incentivada pelos professores de educação física. Senão, teremos meramente um adestramento.

7. Depois de longo período de perplexidade, as empresas aprenderam (e as que não o fizeram não estão aqui para contar a história), que a mera introdução da tecnologia para alavancar processos (de produção, distribuição ou gestão) concebidos para a era industrial, embora trouxesse pequenos ganhos de eficiência, não as tornava capazes de atender às necessidades da era da informação - isto é, não as tornava eficazes. Para isso, era necessário que se reinventassem, isto é, que, primeiro, reconcebessem o seu negócio, e, depois, redefinissem a melhor maneira de promovê-lo, com o apoio da tecnologia (se reengenheirassem). Foi assim que a IBM, maior empresa de computadores do mundo, reconcebeu seu negócio como sendo a informação e se salvou da falência, e a ITT, maior empresa de telefonia do mundo, reconcebeu seu negócio como sendo a comunicação, e se salvou da obsolescência tecnológica. Qual a lição que isso ensina a pessoas interessadas no uso de tecnologia na educação - em especial a nós, do Sua Escola?

Colocar computadores na escola e definir horários para uso não são suficientes para garantir que os alunos estarão fazendo uso criativo da tecnologia. Além disso, a informática sozinha não faz nenhum protagonista. É necessário estar sempre buscando novos horizontes que possam desenvolver no aluno uma série de capacidades, e sendo a informática usada para potencializar esse desenvolvimento, aí sim ela estará servindo para melhorar a educação.

 

Eduardo O C Chaves
Janeiro de 2002

Rubem Paulo Saldanha
Fevereiro de 2002